Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do Curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.
Marketing eleitoral, falácias e sofismas
A política em nosso país se faz através de expedientes manipulativos dos fatos, visando à conquista do poder e sua manutenção

Não é novidade que, historicamente, a política em nosso país se faz através de expedientes manipulativos dos fatos com vista à conquista do poder e sua manutenção. Assim, não é sem sentido que, em uma campanha eleitoral, a primeira vítima seja a informação.
Nessa lógica, na hora que começa a disputa, o que vemos é mera propaganda, sendo difícil distinguir a boa da má informação, mesmo porque, em termos de marketing eleitoral, a mentira passa a ser, apenas, uma reinterpretação da verdade.
Embora todo ano de eleições municipais seja sempre igual, 2016 tem o diferencial de ser o primeiro depois da aprovação das novas regras implantadas pela minirreforma de 2015 que, além de proibir as doações empresariais, reduziu o período autorizado de campanha de 90 para 45 dias, fazendo com que os candidatos apostem nas ações de rua e nas redes sociais, como forma de compensação do menor tempo de exposição gratuita no rádio e na televisão que, por sinal, também foi diminuído.
Mesmo com o tempo reduzido, passando-se em revista o noticiário de política ou o conteúdo dos programas do horário eleitoral gratuito, uma simples reflexão acerca das estratégias de marketing envolvidas na disputa pela Prefeitura do Município de Salvador, deixa claro que os embates e os debates têm se caracterizado pelos ataques de todos os seis candidatos ao atual prefeito ACM Neto (DEM), que tenta a reeleição, na condição de favorito por ter o conjunto da obra da sua gestão aprovada pela maioria dos soteropolitanos. Afinal, destruir uma imagem é muito mais fácil do que construir.
Um exemplo muito claro dessa estratégia é a que tenta marcar na mente dos eleitores mais desinformados, notícias fabricadas em forma de falácias e sofismas que servem a um único propósito: “plantar” no imaginário dos eleitores supostas fragilidades pessoais ou da gestão do candidato que podem, dias antes das eleições, permanecer ainda pulsantes em suas mentes, influenciando-os na hora da votação.
Cabe ao eleitor avaliar quais promessas
são apenas formas de enganá-lo
Nessa lógica, mesmo sem podermos sequer imaginar uma Salvador que seja quase um paraíso, sem problemas estruturais sérios a serem enfrentados, em uma ação competente, determinada e contínua, como deseja fazer transparecer a campanha do atual prefeito, também não se pode aceitar os argumentos da sua oposição de que em nossa capital vivemos um completo caos, com uma administração que se preocupa apenas com a orla e em “maquiar” a cidade.
Queiramos ou não, mentiras e verdades, em discursos políticos, notadamente em períodos eleitorais, vêm quase sempre juntas e misturadas e, com os candidatos fazendo de tudo para ganhar os votos dos eleitores mais desinformados, é natural que não se poupem as promessas que não guardam nenhuma consonância com o possível, o real e o factível.
Prometer faz parte das propostas eleitorais dos candidatos. Assim, entre nós, na disputa da prefeitura de Salvador, o que não falta são promessas para implementar ações inexequíveis ou que, na verdade, já existem ou que excedem o poder da esfera municipal.
Nesse contexto, até a principal candidatura da oposição, além de apostar em sua biografia e no legado do seu grupo político, não tem se poupado de apresentar algumas propostas e projetos confiando apenas em promessas do governador Rui Costa, esquecendo-se de que se, hoje, não se vê na Bahia a saúde, a educação, a segurança, o emprego e outros indicadores sociais que estão sendo planejadas para a sua capital, a tendência será piorar sem o apoio irrestrito do governo federal. Trata-se, pois, de um quadro que não comporta falácias nem sofismas para esconder a realidade.
Polêmicas à parte, a grosso modo, o marketing eleitoral é isso mesmo, significa mentir, prometer, enganar, cabendo ao eleitor avaliar quais promessas são viáveis à execução e quais são apenas formas de encantá-lo, ou melhor dizendo, enganá-lo. Afinal, como nos alerta Nicolau Maquiavel: “Enganado por uma falsa aparência, o povo muitas vezes deseja sua própria ruína: é fácil movê-lo com promessas espantosas e grandes esperanças”.
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