O conhecimento e a ignorância
Nunca tantos se odiaram por causa da política. Nas ruas, no trabalho e em casa, as discussões terminam em agressões

Em meio ao clima de radicalização extrema que se instalou neste país, visivelmente intensificado com a proximidade do dia em que a Câmara dos Deputados decidiria se autorizaria ou não a abertura de processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, mais do que nunca vi o nosso país dividido.
É fato. Nunca tantos se odiaram por causa da política. Nas ruas, no trabalho e em casa, onde quer que fossemos, a política provocava acaloradas discussõs que, muito frequentemente, terminavam em agressões físicas e verbais. Felizmente os confrontos mais acirrados aconteceram e continuam acontecendo na internet, principalmente nas redes sociais, com um aumento considerável de manifestações de ódio, com pessoas discutindo e brigando, a ponto de desfazerem laços de amizade, profissionais e, até mesmo, familiares, em função de opiniões políticas divergentes.
É obvio que nesses debates e embates que se travam nas redes sociais, além daqueles que realmente têm opinião formada sobre os assuntos discutidos, existem aqueloutros que participam das discussões só para “fazer parte da história” e, principalmente, os soldados da militância virtual que, de forma remunerada ou puramente ideológica, entrincheirados nos domínios da internet “fazem o diabo”, agindo como guerrilheiros virtuais para provocar discórdia nas redes sociais e em seções de comentários de blogs e sites, quase sempre com postagens agressivas, provocadoras ou desqualificadoras dos seus opositores, como parte de um esforço maior para influenciar a opinião pública a seu favor.
Foi justamente por obra desses últimos, dessa parcela da população que não age de forma inocente, ainda que não o faça de forma incoerente, ao se posicionar em defesa do PT e da presidente Dilma Rousseff que uma postagem nas redes sociais contendo uma frase atribuída a Buda me chamou a atenção: “O conflito não é entre o bem e o mal, mas entre o conhecimento e a ignorância”.
O conflito em que o país está envolvido não se resume ao embate entre o bem e o mal
Ao contrário do que possa parecer e longe de espelhar os verdadeiros ensinamentos de Sidarta Gautama, a frase que lhe foi tomada de empréstimo na postagem do Facebook, representa muito bem a visão maniqueísta, prepotente e arrogante daqueles que, se presumindo virtuosos, no conflito dos opostos, se perdem na mesquinhez de suas ideológicas certezas e nos devaneios embriagantes do poder e governam com tal nível de miopia e irresponsabilidade que terminam enveredando por uma rota política e econômica suicida.
Talvez seja redundante, mas é preciso dizer que, realmente, o conflito paroxístico em que o país está envolvido não se resume ao embate entre o bem e o mal, muito menos à luta dos justos contra os injustos, como revelou a frenética troca de posições entre os favoráveis e contrários ao impeachment, em meio a inconfessáveis negociatas e barganhas que fizeram e ainda vão fazer com que o bem e o mal continuem transmigrando das almas boas para as más e vice-versa.
Nessa lógica, afastada a essência maniqueísta da luta do bem contra o mal, pela ambivalência e bipolaridade dos seus principais personagens e pelo conflito/cumplicidade observado nas almas dos “pró-ex-contra impeachment” e vice-versa, nos restaria simplesmente concluir, diante dos cinquenta e quatro milhões de votos que a presidente Dilma recebeu nas últimas eleições, que entre os seus eleitores, com certeza não estão aqueles brasileiros não adeptos do salutar hábito da leitura, além de possuidores de uma quase total aversão a falar sobre o que acontece em Brasília, salvo em épocas eleitorais, e que o conflito, inexoravelmente, é, realmente, entre o conhecimento e a ignorância, ou melhor, dizendo entre os politizados e os analfabetos políticos, para lembrar Bertold Brecht. Será?
A ignorância tem cura, mas cegueira e surdez interesseiras, ainda não!
Em busca de respostas para esse questionamento, lembrei-me de Sartre para quem a filosofia era a capacidade de pensar contra si mesmo. Na verdade, concordando com Vladimir Safatle, é forçoso reconhecer que esta é também uma bela definição da política, pois, fico indignado com a arrogância dos déspotas ideológicos que, além de odiar tudo que não é espelho ou eco, entendem a autocrítica como uma confissão de capitulação, da mesma forma que me causa indignação a arrogância da ignorância, pois, se é verdade que ignorância e arrogância são duas irmãs inseparáveis, com um só corpo e alma, não menos verdadeiras seriam as ligações consanguíneas e anímicas desta, em relação ao conhecimento.
Dizem que a primeira virtude política é a autocrítica, a desconfiança de si mesmo. Sendo esta afirmação verdadeira, o que dizer daqueles que, sendo detentores de aprofundado conhecimento político, apresentam uma impermeabilidade intelectual e ideológica absoluta a qualquer forma de autocrítica?
Alea jacta est! O jogo continua e a bola, agora, está com o Senado, mas, com certeza, o que o Brasil assistiu ao vivo e a cores ontem, durante a sessão da Câmara dos Deputados que autorizou a abertura de processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, pelo menos ao meu modo de pensar, deixa claro que a impermeabilidade à autocrítica nos iguala, sejamos déspotas esclarecidos ou analfabetos políticos.
Nesse sentido, pode-se concluir que o conflito que se abate sobre o nosso país não é entre o bem e o mal, tampouco entre o conhecimento e a ignorância, mas entre a cegueira, a surdez e a arrogância. A cegueira-surdez dos interesses e a da arrogância do conhecimento e da ignorância. Resta-nos o consolo de que a ignorância tem cura, mas cegueira e surdez interesseiras e arrogantes, ainda não! Afinal, os piores cegos são aqueles que fingem não enxergar, assim como os piores surdos são os que fingem não ouvir.
Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do Curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.
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