Publicado em 13/11/2016 às 10h09.

Opressão nas múltiplas facetas femininas

A luta da mulher pela garantia de direitos é histórica e remonta a uma cultura que ainda está fincada em princípios bíblicos

Liliana Peixinho

 

Mulheres luta (Foto: Marcha mundial das Mulheres)
Mulheres luta (Foto: Marcha Mundial das Mulheres)

 

Em meio a tanta violência, impunidade e falta de direitos, o foco sobre a opressão feminina é pauta diária, em múltiplas facetas de atividades cotidianas. Com o olhar sobre o todo, sem foco definido, em visão periférica, a mulher continua na correria diária para harmonizar desafios entre a casa e o trabalho. Em meio a cantadas, discriminação, exploração, a luta continua, para tentar garantir direitos, historicamente negados. Cuidar de filhos no papel de pai e mãe, administrar recursos, encarar jornadas múltiplas com média de cinco horas a mais que as dos homens, romper a desigualdade de gênero, desafiar comportamentos machistas, romper os ciclos perversos, é desafio, todo santo dia. E não precisa gancho de calendários festivos rasos para pautar o problema. Entre todos esses, a violência física – apesar das leis de proteção e campanhas recorrentes nas mídias – revela a distância entre o sonho de vida em liberdade e dignidade, e a realidade, onde, conforme estatísticas, a cada 11 segundos uma mulher é agredida, e 13 são mortas, assassinadas, todos os dias, no Brasil. Isso sem contar os casos fora das estatísticas, incubados, escondidos, não denunciados.

O Nordeste se destaca na elevação de dados em que a mulher acumula a função de empreendedora e provedora/cuidadora da família. São chefes de família que levam e pegam os filhos na escola, vão para o trabalho, fazem, pagam e carregam as compras de casa, ajudam nas tarefas escolares, lavam, limpam e arrumam, tudo, num ciclo invisível de trabalho, sem fim. Nesse ritmo a mulher nem dorme, dá uns cochilos, para tentar levantar, a cada dia, e seguir em frente. Nesse cenário, perverso, criminoso, estudos indicam que a mulher e suas múltiplas jornadas, em cadeia de trabalho desvalorizada de ponta a ponta, ainda pode levar uns 70 anos para tentar igualar ganhos de renda, cuja diferença varia entre 20 e 40 por cento a menos que os homens.

A luta pela garantia de direitos é histórica e remonta a uma cultura que, ainda, infelizmente, está fincada em princípios como o da primeira Epístola a Timóteo: “ Que a mulher conserve o silêncio, diz o apóstolo Paulo. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher, que, seduzida, e caiu em regressão”. Romper histórias como essa, que reprime direitos, e quebrar essa ordem “natural” das coisas, é desafio, planeta afora. E assim surgiram mulheres que ao longo do tempo marcaram um novo jeito de ser e estar na sociedade. Na literatura, nas artes, como o teatro, a tragédia grega trouxe a Medeia, de Eurípedes. Ou a Desdêmona, de Shakespeare, e tantos nomes Brasil afora como Olga, Anita, Hipólita, Jacinta, Pagu, Anisia, Laudelina, Maria da Penha, Rose,  Carlota, são muitas e outras tantas, anônimas, como Iracema, Ligia, Naita, Neide, Raulina, Maria Amélia, Jaciara, seguem na trilha da coragem e desafios diários.

Vamos resgatar um pouco da história! Em meados do século XVI, Ana Bolena, por exemplo, seria uma espécie de abominação para os países cristãos, com margem para todo tipo de acusação, inclusive de bruxaria. Como todo movimento que busca na História elementos que legitimem sua luta, o femininismo surge para resgatar personagens como Ana Bolena, e outras, tidas como vis e diabólicas como Cleópatra, Maria I Tudor, Catarina de Médici, Margarida de Valois, Maria Antonieta e outras mais recentes, à frente do seu tempo. Um dos veículos mais utilizados para esse resgate foi a literatura. Romances como os de Jean Plaidy, Murder Most Royal (1949), e Norah Lofts, The Concubine (1963), ganharam o gosto do público. Na metade do século XX personagens dependentes e passivas já tinham deixado de ser apreciadas pelo público de leitoras da classe média. A história de lutas pela emancipação se aprofunda e ganha novos contornos. Estamos a recontar histórias, resgatar exemplos, demonstrar energia e força para os desafios, em lutas diversas.

Na literatura uma explosão de escritoras valoriza a luta contra a opressão, iniciada já no século XIX. A combinação da luta de classes (pelo pão) e da luta ideológica (pelas rosas) é, segundo especialistas, desafio na luta entre emancipação e machismo, numa sociedade onde já se demonstrou, na arte e na vida real, que as mulheres estão sob forte opressão.

 

Pouco ou quase nada a se comemorar

na luta das mulheres no cotidiano

 

No século XX a mulher ganha espaço de muita visibilidade. Em 1949 a literatura enriquece o debate com o lançamento do livro: “ O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, que se transformou num clássico da literatura feminista, por difundir a ideia de que as “mulheres não nascem mulheres , mas se tornam mulheres.” Como destacam especialistas: “ Características associadas tradicionalmente à condição feminina derivam menos de imposições da natureza e mais de mitos disseminados pela cultura”. A obra abre, aprofunda e incendeia o debate sobre a maneira como os homens olhavam as mulheres e como as próprias mulheres se enxergavam. Ideias que ajudaram a nortear discussões para organizar e mudar pensamentos nas trajetórias e desafios de vida. A partir da década de 1960 a mulher sai do confinamento da casa, da invisibilidade, e entra na História como foco de estudos nas Ciências Humanas. “O Segundo Sexo” propulsiona o aprofundamento de diversas questões, em cenários nos quais a literatura classificada como feminina era sinônimo de textos sem grande aprofundamento teórico e onde estudiosos levantam focos nada comuns como sexualidade, maternidade e identidade sexuais.

No texto: ‘Mulher desdobrável ou mal humorada? Presente!’ a autora Camilla de Magalhães Gomes levanta questões sobre o fardo da luta feminista: “De um lado somos mal humoradas e mal amadas; de outro: fáceis e destruidoras da família tradicional”. Ao final do artigo, a autora cita uma frase de Simone de Beauvoir sobre essa mulher livre e seu fardo: “Na França, principalmente, confunde-se obstinadamente mulher livre com mulher fácil”. E alerta sobre os cenários onde essa parece ser a “segunda sina do feminismo”. E justifica : “A estrutura do patriarcado sustenta-se, entre outras coisas, na repressão do desejo feminino. Nossa cultura não só objetifica a mulher como também a infantiliza, tudo com uma mesma mensagem interna: o corpo feminino é uma propriedade de todos, menos da própria mulher. E aí vem o carimbo exposto. Uma feminista, ao defender a ‘retomada’ do corpo feminino para si mesma, torna-se o inimigo, a libertária… a p. ta” .

Pouco ou quase nada a se comemorar na luta das mulheres, como avanços reais, no cotidiano. Segue em pauta ”uma cultura machista que precisa repetir a mensagem de que o corpo feminino é um objeto para admiração e deleite de todos, ou melhor, para o controle masculino”; E há reações como a de que essa objetificação inferioriza porque transforma a mulher em um enfeite como meio para vender produtos como cerveja e carros. E a questão vai além porque essa “objetificação” e a infantilização garantem o controle masculino sobre o desejo e o prazer femininos…

E surge a pergunta: “Como, então, continuar controlando essa mulher que já sabe os caminhos do próprio corpo e dele se reconhece, agora, dona?”. E Camila pergunta: “Então, se defender que meu corpo é meu, que meu desejo deve depender apenas da minha livre decisão e não das imposições da falsa moralidade do patriarcado é ser puta? E se você acha que isso retira o prazer masculino da conquista, da sedução… só posso dizer que você deveria conhecer mais feministas em sua vida e somar a ela um pouco mais de criatividade e prazer de verdade.”.

Sigamos em frente que os desafios continuam e vamos à luta, denunciando e fazendo valer, funcionar, com eficiência as estruturas disponíveis. Veja aí.

SERVIÇO (ajuda e denúncias):

Atendimento ao Aborto Legal: Perguntas e Respostas
Cartilha: Chega de Fiu-Fiu
Como Denunciar Casos de Violência Sexual
Disque 100 – Direitos Humanos
Humaniza Redes
Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher
O Que Fazer Em Caso De Violência Doméstica
Ouvidoria Interna da SPM
Rede de Enfrentamento à Violência contra a Mulher 

Liliana Peixinho

Liliana Peixinho é jornalista, ativista social, integrante de diversos grupos de luta e defesa de direitos humanos. Fundadora e coordenadora de mídias livres como: Reaja – Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente, Mídia Orgânica, O Outro no Eu, Catadora de Sonhos, Movimento AMA – Amigos do Meio Ambiente, RAMA -Rede de Articulação e Mobilização em Comunicação.

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