Casal de ambientalistas atacado na Chapada Diamantina registrou espécies ameaçadas no local
Os dados foram utilizados em um artigo publicado nesta segunda-feira (19) na na revista Biodiversidade Brasileira, do ICMBio

O casal de ambientalistas Alcione Correa e Marcos Fantini, vítimas de um ataque na Chapada Diamantina no início deste mês registraram 23 espécies diferentes de mamíferos, incluindo em extinção, na Serra da Chapadinha, local em que estava instalada a Toca do Lobo. Os dados foram utilizados em um artigo publicado nesta segunda-feira (19) pelo biólogo Douglas de Matos Dia, na revista Biodiversidade Brasileira, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O local é um Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica reconhecido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Na Bahia, também recebem a categoria de Posto Avançado o Espaço Baleia Jubarte, a Base Tamar e o Parque das Dunas de Salvador.
A Serra da Chapadinha tem 98% da área coberta por vegetação nativa e abriga diversas espécies de animais e plantas. Diante da importância dessa região para a preservação da natureza, o estudo promovido pelos ambientalistas teve como objetivo identificar os mamíferos não voadores que vivem na região.
Durante um período de período de 18 meses de monitoramento, de 2017 a 2023, registros desses animis foram capturados através de armadilhas fotográficas – dispositivos que ficam camuflados e registram imagens dos animais ao detectar movimento ou calor. No caso do estudo conduzido na Serra da Chapadinha, as câmeras foram instaladas no tronco de árvores e não foram utilizadas iscas para atrair os animais.
Entre as 23 espécies fotografadas estão gato-macambira (Leopardus tigrinus), o gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi), queixada (Tayassu pecari), tapiti (Sylvilagus brasiliensis) e o mocó (Kerodon rupestris), todas espécies ameaçadas de extinção.
O macaco-prego-do-peito-amarelo (Sapajus xanthosternos) e o Guigó-da-caatinga (Callicebus barbarabrownae), ambos criticamente ameaçados de extinção, também foram flagrados pelas câmeras de Alcione Correa e Marcos Fantini. O artigo também destacou a presença de espécies exclusivas da Chapada Diamantina, com o queixada (Tayassu pecari) e o tatu-de-rabo-mole (Cabassous unicinctus).
Diante deste resultado, o biólogo alertou para a necessidade de se preservar a Serra da Chapadinha, já que a área pode desempenhar um papel complementar relevante na manutenção da biodiversidade regional, contribuindo para o aumento da diversidade beta e funcionar como refúgio para espécies sensíveis.
Em entrevista, Alcione Correa contou que, antes da atuação da Toca do Lobo na Serra da Chapadinha, o local tinha uma lacuna de atividades científicas, realidade modificada após a criação da casa. Segundo ela, a bioconstrução da casa, pensada para não agredir o meio ambiente, começou em 2010 e terminou em 2014. Alcione Correa e Marcos Fantini só se instalaram definitivamente na casa em 2019.
Inicialmente, o casal não tinha atuação na ciência cidadã, mas os planos mudaram quando cientistas passaram a se hospedar na pousada.
“A gente sempre forneceu gratuitamente o nosso espaço para para as pesquisas serem realizadas, né? Como abrigo, alimentação e tudo, com abrigo, alimentação das equipes e tudo mais e a participação intensiva nisso, junto as equipes em campo. […] esse trabalho ele acabou trazendo conhecimento científico para a região e isso daí foi o despertar para todo esse processo da Serra da Chapadinha.”
Ataque no início de maio
Na madrugada do dia 30 de abril para o dia 1º de maio, a Pousada Toca do Lobo, na Serra da Chapadinha, em Itaetê, foi alvo de um grupo de seis a sete homens mascarados e fortemente armados. De acordo com o relato que Alcione Correa concedeu ao bahia.ba, o local onde fica a Pousada Toca do Lobo é de difícil acesso, onde só se consegue chegar com mais facilidade usando carros 4×4.
Segundo ela, metade dos suspeitos tinha uma postura mais “profissional” e o sotaque não condizia com o das pessoas da região. A outra metade parecia mais despreparada e com sotaque de moradores da região. De cabeça baixa durante toda a abordagem, que durou cerca de duas horas, Correa observou que até o tipo de bota utilizado pelos dois grupos era diferente.
Segundo ela, os homens pareciam ter um roteiro de busca e destruição. Os criminosos pareciam buscar materiais de pesquisa e destruíram sistemas de energia solar, de internet, computadores e equipamentos de monitoramento de animais.

O grupo também efetuou disparos e ameaçou a vida de Alcione Correa e Marcos Fantini, alegando que eles estariam “atrapalhando o progresso” e a entrada de mineradoras na região. Segundo Correa, os criminosos chegaram ameaçar pôr fogo no local, mas desistiram após saberem que na região existe uma brigada contra incêndio florestal do ICMBio.
O casal conseguiu encontrar uma câmera fotográfica em um do locais que não foi destruído e utilizaram o dispositivo para fazer fotos do resultado da ação dos criminosos. Depois disso, eles fugiram a pé e conseguiram carona na estrada.
Após o ocorrido, o Ministério Público Federal (MPF) cobrou que medidas fossem tomadas para investigar o caso e pediu a proteção do casal. Entre as medidas solicitadas pelo órgão estão:
– A ocupação do Posto Avançado Toca do Lobo pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio);
– Criação de uma unidade de conservação na Serra da Chapadinha;
– Implementação de planos de segurança para ambientalistas e comunidades tradicionais.
“O atentado representa uma grave ameaça não apenas à integridade física dos ambientalistas, mas também ao direito coletivo ao meio ambiente equilibrado e à proteção das comunidades tradicionais que atuam historicamente na preservação da Serra da Chapadinha”, destacou o procurador da República Ramiro Rockenbach.
Diante das ameaças de morte caso voltassem para a região, a dupla criou uma nova conta no Instagram para falar sobre a preservação da Serra da Chapadinha.
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