Publicado em 15/11/2015 às 15h03.

Fogo na Chapada: a história real que (quase) não sai na mídia

Em meio ao fogo que devora a natureza, surge algo de bom: moradores que se unem aos heróis das brigadas voluntárias, como a do Vale do Capão

Marcelo Issa
(Foto: Marcelo Issa)
Foto: Marcelo Issa

O Parque Nacional da Chapada Diamantina (BA) arde em chamas há pelo menos 20 dias. Os principais focos são nos municípios de Ibicoara, na região do “Mucugêzinho”, entre os municípios de Lençóis e Palmeiras, onde também atingiu o famoso Morro do Pai Inácio, e o Vale do Capão, no município de Palmeiras.

Um problema recorrente que os órgãos responsáveis insistem em tentar remediar (quando já é muito tarde) em vez de prevenir. Há décadas, a Chapada Diamantina sofre com as queimadas e a ausência de um planejamento estratégico de prevenção ao fogo, somado a um número muito baixo de efetivo de brigadistas contratados, resulta no visível fracasso que se vê hoje: BR 242 interditada devido à fumaça, municípios sob neblina de fumaça, comunidades em risco (pois muitas casas estão próximas das montanhas), milhares de hectares de florestas queimadas, inúmeros animais de diversas espécies mortos…

E dessa situação, por mais incrível que pareça, surge algo de bom: moradores que se unem aos heróis das brigadas voluntárias, como a do Vale do Capão, por exemplo. A comunidade ajuda como pode a Associação de Condutores de Visitantes do Vale do Capão (ACV-VC), que é composta por voluntários que se envolvem em diversas questões ambientais, uma delas é o combate ao fogo. Essa brigada não tem nenhum tipo de remuneração e trabalha em condições precárias. O que sobra é a raça e a força de vontade de guerrear contra as chamas que teimam em varrer nossa riqueza natural.

Por dias e noites, acompanho esses brigadistas no combate ao fogo no Morro Branco, no Vale do Capão, tanto como jornalista no intuito de registrar a realidade bem de perto, como morador local, tentando colaborar com esses guerreiros na manutenção desse paraíso. São locais de acesso complexo, onde brigadistas e moradores enfrentam, muitas vezes, risco de morte em locais íngremes, com fendas (buracos) enormes onde não se pode literalmente dar um passo em falso. E isso tudo com 20 litros de água (20Kg) nas costas e equipamento defasado para combater chamas com cinco, seis metros de altura.

Só nos últimos três ou quatro dias é que algumas aeronaves começaram a ajudar na logística de jogar água nos focos de incêndio e transportar alguns brigadistas às regiões mais complexas. Mas essa ajuda, além de vir muito tarde, é muito pouca perto do que já fizeram em solo a comunidade e os voluntários.

Quando ações como essas não têm êxito (apagar ou controlar totalmente o fogo), ao menos impedem que o fogo siga em frente destruindo outros locais, nascentes de rios e provoque ainda mais mortes animais silvestres.

Lembrando que a alimentação, as roupas especiais para combater altas temperaturas, abafadores, bombas de água, materiais como lanternas, pilhas, etc, e tudo vem em forma de doações de empresas parceiras ou da própria comunidade. Afinal, por serem voluntários e não contratados pelo governo, são praticamente esquecidos à própria vontade e sorte.

Marcelo Issa é jornalista profissional e repórter fotográfico. Natural de Salvador, mora com a família no distrito de Caeté-Açu (Vale do Capão), município de Palmeiras-BA.