Publicado em 29/07/2026 às 14h35.

Cia. Baiana de Patifaria celebra 40 anos com estreia de peça inédita

Em entrevista ao bahia.ba, Lelo Filho detalha a montagem de 'A Vida é um Cabaré'

João Lucas Dantas
Foto: Ronald Santana/ Divulgação

 

Após 12 anos sem estrear uma peça inédita, a Companhia Baiana de Patifaria apresenta o lançamento do seu novo espetáculo, A Vida É Um Cabaré, que estreia nesta sexta-feira (31), no Teatro Sesi Casa Branca.

Com textos de Vini Moraes e Lelo Filho — autores de Siricotico, Uma Comédia do Balacobaco — e direção de Daniel Marques, a nova empreitada representa o início das comemorações de 40 anos da Companhia, que já levou grandes sucessos ao teatro baiano, como A Bofetada.

A peça cumpre temporada na Sala Letieres Leite, na Cidade Baixa, com sessões às sextas e sábados, às 20h. Os ingressos custam R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia), disponíveis pela plataforma Sympla.

A história apresenta duas irmãs gêmeas rivais, Dalva (Lelo Filho) e Dolores (Rodrigo Villa), que precisam superar suas diferenças para salvar o decadente Teatro Pindorama, herdado com muitas dívidas.

Com a ajuda da camareira Madame Petúnia (Maurício Martins) e a chegada dos misteriosos Elizeth Salazar (Daniel Marques) e Jatobá Cansanção (João Victor Sobral), a trama se transforma em uma comédia repleta de confusões e reviravoltas.

Para celebrar as quatro décadas da Cia. e a estreia do décimo espetáculo do grupo, o bahia.ba bateu um papo com Lelo Filho, que contou tudo sobre os bastidores da nova montagem.

Primeira peça inédita em uma década

Ao falar sobre o que representa o lançamento da nova peça, o dramaturgo afirma que é um momento de “voltar a acreditar em editais”.

O espetáculo foi contemplado pelo edital Chamadão das Artes Cênicas, com recursos financeiros da Fundação Gregório de Mattos e da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo da Prefeitura de Salvador.

“Foram 12 anos tentando editais em todas as esferas e não conseguindo absolutamente nada. Mesmo no pior período para os artistas, que foi a pandemia, nem com as leis emergenciais da época a Cia. conseguia aprovar projetos”, relembrou o ator.

O projeto teve início com uma ideia de roteiro em 2013, quando a peça se chamaria Cabaré Patife. Chegou a haver reunião com o elenco e com o diretor musical, mas a proposta ficou na gaveta.

Ao surgir a oportunidade de se inscrever no edital, Lelo resgatou o antigo roteiro, atualizou o texto, alterou a sinopse, fez a inscrição e conseguiu alcançar o resultado positivo.

“Este é o início da nossa celebração de 40 anos. O que virá pela frente, no ano que vem, ainda é uma incógnita, mas essa é uma forma de abrir as comemorações de uma maneira muito bacana, com uma comédia musicada”, pontuou.

Segundo o artista, a peça tem relação direta com a situação enfrentada pelas artes cênicas baianas como um todo.

“O que mais tem me impressionado recentemente é a quantidade de teatros que o estado ganhou, mas não na mesma proporção que a gente perde. Queremos discutir o que significa o fechamento de uma casa de espetáculos para o público, que se alimenta subjetivamente do que vai assistir, e o que isso representa para o artista que sobrevive do que realiza no palco”, provoca Lelo.

“Muitos artistas vão se formando e surgindo, mas as temporadas começam a ficar muito curtas. A peça discute exatamente isso”, acrescentou.

Dificuldade para viabilizar novos espetáculos

Questionado sobre a dificuldade da Companhia Baiana de Patifaria em conseguir aprovação para viabilizar espetáculos por meio de editais de fomento público, o ator brinca que esta é a “pergunta de um bilhão de dólares”.

“Existem pessoas que julgam e analisam os projetos, e alguns não são aprovados por razões bem objetivas, como não atender a todas as solicitações de documentação ou não apresentar totalmente a proposta. A gente acredita que, pela nossa história, a não aprovação não tenha sido por uma razão objetiva como essa.”

O ator relembrou ainda que a Cia. já chegou a ouvir que não precisava do recurso e que o fomento seria destinado a outros artistas. Para ele, existe uma nova geração de gestores culturais que não entende o real significado do grupo na transformação que o teatro baiano viveu a partir da década de 1990.

“No nosso caso, há na cabeça de algumas pessoas a ideia de que a gente não precisa. Não entendem que nós, junto com tantos outros artistas, modificamos o comportamento do público, que passou a lotar os teatros baianos para ver peças locais a partir da estreia de A Bofetada, Abafabanca e Noviças Rebeldes. Depois surgiu o Bando de Teatro Olodum, Los Catedrásticos, Os Argonautas, que vieram nessa leva de fortalecimento da cena local”, pontuou.

Foto: Paulo Telles/ Divulgação

Humor provocativo

O grande mote dos trabalhos da Cia. Baiana de Patifaria sempre foi discutir temas sérios provocando os espectadores por meio do bom humor e das risadas. E, claro, A Vida É Um Cabaré não vai fugir à regra.

“A gente criou duas províncias para a peça: Utopia e Distopia. Na Distopia, as livrarias foram fechadas, as bibliotecas foram desfeitas e há o resgate de um acontecimento que vivemos no Brasil recente, quando vimos o prefeito de uma cidade do interior esvaziar uma biblioteca e jogar 40 mil livros fora. Conseguimos inserir isso no texto da peça, retratando um lugar onde as artes não são valorizadas”, afirma.

Já em Utopia, local onde fica o Teatro Pindorama, os artistas e a cultura são devidamente valorizados. O texto busca provocar uma reflexão sobre a real importância da arte, pontuando que o público consome cultura continuamente — mesmo aqueles que se opõem aos artistas —, mas raramente dimensiona o seu impacto econômico e social.

A montagem joga luz sobre toda a cadeia produtiva por trás dos palcos, “desde o profissional que cria os cenários, figurinos e design gráfico, até os profissionais que esses criadores contratam paralelamente para confeccionar os itens da peça, como marceneiro, ferreiro, pintor, costureira e técnicos. A gente fala da valorização da arte acima de tudo, usando o humor como mola-mestra sempre”, explicou.

Novos rostos para a Companhia

Para a nova montagem, a Companhia também conta com novos rostos no elenco e na direção. Rodrigo Villa e Maurício Martins, ao lado do próprio Lelo, já vinham protagonizando as apresentações de Fanta & Pandora nos últimos anos e agora recebem o reforço de Daniel Marques, que também assina a direção, e de João Victor Sobral.

“Eu gosto de consumir o teatro que é produzido aqui, na Escola de Teatro da UFBA, e às vezes você assiste a um novo ator ou diretor e pensa que gostaria de trabalhar com essa pessoa. Isso aconteceu com Daniel Marques, que entrou como diretor e acabou ganhando um papel no espetáculo, e com João Victor, que conheci ainda criança, quando era ator mirim”, contextualizou.

“São atores e diretores muito ativos, que estão sempre realizando projetos. Deu certo de conciliarmos as agendas e é muito bom trabalhar com pessoas que estão começando, que acabaram de se formar; são novos talentos que se juntam a quem já está na Companhia”, celebra.

Foco no personagem

Acostumado ao cargo de diretor nas peças da Cia., Lelo dessa vez abriu mão da função para focar na criação de seu personagem e na sua performance em cena.

“É uma responsabilidade a menos para mim. Claro que achamos um consenso entre o que propúnhamos no texto e o que está sendo feito na sala de ensaio, mas, para mim, posso focar mais na minha atuação. É sempre mais difícil quando também estou dirigindo”, disse.

Ao comentar sobre o que o público pode esperar do novo trabalho, Lelo afirma que serão cinco atores muito dispostos a contar essa história, que promete mexer com a plateia em vários sentidos.

“Fizemos homenagens a grandes cantoras. O público vai ver muita comédia, improviso, atualizações possíveis a cada apresentação e ainda vai se deliciar com as referências a músicas de grandes mulheres, como Dalva de Oliveira, que emocionam todo mundo. Vão sair mais felizes e com essa reflexão sobre a situação dos teatros”, concluiu Lelo Filho.

 

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde, Viva Comunicação Interativa, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador e portal Bahia Econômica. Atualmente, é repórter de Cultura no bahia.ba. Contato: jlucas9915@gmail.com

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