Larissa Luz desmonta estruturas ao lançar manifesto roqueiro em novo álbum
'Desmonte' chega as plataformas digitais nesta sexta-feira (29), unindo rock e ritmos baianos

Foto: Jordan Villas/ Divulgação
A cantora, atriz e multiartista soteropolitana Larissa Luz retorna com os pés na porta ao lançar o seu quarto disco solo, o arrebatador Desmonte, que está sendo lançado nesta sexta-feira (29), em todas as plataformas digitais.
O álbum é uma ode ao rock baiano, misturando o que há de mais enérgico no gênero e dando uma chacoalhada nas estruturas padrões ao casar a sonoridade com ritmos baianos, como o ijexá e o samba-reggae, além de elementos percussivos afrodiaspóricos.
Áurea Semiseria, rapper de Salvador, e Zé Atunbi, ex-vocalista do grupo Afrocidade, são as participações especiais do projeto, que conta com 13 faixas.
Para celebrar o lançamento, o bahia.ba pôde bater um papo com a cantora, que contou como nasceu a ideia do disco, os bastidores das gravações e a importância do conceito autoral proposto no projeto.
“Tudo começou a partir de um trabalho interno, pessoal. Eu precisava me livrar de alguns medos para conseguir me expor um pouco mais. Sempre tive dificuldade de expor coisas mais profundas”, revelou Larissa.

O retorno aguardado
O novo trabalho chega sete anos após o lançamento do seu último álbum, Trovão, de 2019. Segundo a cantora, o hiato foi necessário para poder “desmontar” a primeira estrutura necessária: a própria.
“Passei um tempo um tanto reclusa, com certa dificuldade de falar sobre mim. Ao longo da vida, da vivência e do tempo, a gente vai adquirindo amarras pelas exigências do mercado, do mundo, das pessoas, pelas exigências sociais. Às vezes, acabamos entrando dentro de uma estrutura que não cabe mais na gente. Então, precisei sair dela para conseguir escrever as coisas que escrevi”, expressou.
Com uma proposta de questionar estruturas e crenças enraizadas que, mesmo ruindo, ainda se apresentam como inquestionáveis, foi necessário dissecar tudo ao seu redor.
“Coisas que vejo, que sempre me incomodaram, que tive vontade de falar, que já falava internamente, mas que senti vontade de compartilhar e dividir. Coisas que sei que outras pessoas também podem concordar, gritar e contestar. Trouxe tudo isso para tentar desfazer, desmontar e pensar em uma estrutura que contemple a gente de forma mais justa”, acrescentou.

O rock de Larissa Luz
Rock é um gênero que já não causa nenhum estranhamento quando relacionado ao nome de Larissa Luz. Recentemente, a artista encerrou a turnê Rock in Gil, que reinterpretava clássicos de Gilberto Gil através do gênero — projeto que recebeu a bênção do próprio tropicalista.
Tendo crescido acompanhando a cena underground de Salvador entre os anos 1990 e 2000, o rock foi uma grande influência pessoal e artística para a cantora, que em Desmonte busca resgatar a origem negra do movimento.
“O rock foi o primeiro gênero que apareceu para mim quando a música surgiu de forma mais intensa, mais profissional. Quando comecei a colocar a música para fora, a me apresentar para um grande público”, enalteceu.
“Tive uma banda só de meninas, chamada Lucy in the Sky. As meninas me chamaram para fazer parte e, a partir dali, comecei a me entender como cantora de rock. Eu já curtia Inkoma (antiga banda da Pitty), Catapulta, bandas de Salvador, além das bandas gringas que víamos na época, desde System of a Down até Slipknot”, relembrou.
Como aconteceu com muitos adolescentes, o gênero dialogava diretamente com uma rebeldia emergente típica desse período de transição.
“Tudo isso veio atrelado a um impulso de transformar as coisas, de mexer com as estruturas. Isso aconteceu em uma época muito importante na formação da personalidade de qualquer pessoa. Para mim, foi fundamental naquele momento em que estava descobrindo meus desejos, minhas revoltas, o que me incomodava e com o que realmente me identificava”, expressou a roqueira.

O resgate das raízes
O rock surgiu oficialmente nos Estados Unidos, entre o fim dos anos 1940 e o início dos anos 1950, a partir da mistura de gêneros musicais negros, como blues, rhythm and blues (R&B), gospel e jazz. Artistas negros foram fundamentais na criação da sonoridade, da estética e da atitude que definiram o rock and roll.
Nomes como Chuck Berry, Little Richard, Sister Rosetta Tharpe e Bo Diddley ajudaram a moldar o gênero com guitarras elétricas, batidas aceleradas, performances intensas e forte influência do blues.
Apesar dessa origem, o rock acabou sendo popularizado mundialmente por artistas brancos, como Elvis Presley, enquanto muitos criadores negros tiveram menos reconhecimento histórico.
“Ao longo do tempo, fui passeando por outros gêneros, descobrindo as variações rítmicas da música negra, mergulhando profundamente nas raízes baianas, desde o Araketu (grupo do qual foi vocalista entre 2007 e 2012). Já participei de grupos que cantavam a cultura popular da Bahia, o samba-reggae, o samba duro, o ijexá”, exemplificou.
“E quando percebi que o rock também é um ritmo de origem negra, tudo passou a fazer ainda mais sentido”, disse.
Em um período de maturidade e vivências diversas, Larissa reflete sobre o que o acúmulo de experiências lhe trouxe ao longo do tempo.
“Achei que era o momento ideal para integrar a adolescente que descobriu o rock e a mulher que me tornei, atravessada pelos ritmos baianos, pelos ritmos negros e por tudo aquilo com que me identifico em relação à minha cultura e à minha história”, pontuou.
“Desmonte é um pouco sobre desfazer coisas que foram colocadas na nossa mente, coisas ensinadas. Vai muito além de simplesmente ‘libertar’. Já falei antes sobre descolonizar em território conquistado. É preciso desfazer, ir na raiz, entender como tudo começou para conseguir desmontar toda a estrutura consolidada”, provoca.

Não tenho medo de ‘Careta’
Um dos elementos que mais chamam atenção na primeira escuta do novo trabalho é a faixa Careta, uma releitura provocativa da cantiga popular Boi da Cara Preta, música infantil que há anos é alvo de debates raciais em torno da letra.
Para a cantora, foi um momento de revisitar signos e símbolos da infância, aproveitando também para fazer uma citação a Vaca Profana, música de Caetano Veloso eternizada na voz de Gal Costa, trazendo para o debate os símbolos da feminilidade.
“Lembrei do motivo de o boi da cara preta ser tão assustador, e de como nos identificávamos com aquilo. Já falei antes sobre a simbologia da boneca preta e sobre como a representatividade é importante para autoestima, personalidade e construção de identidade”, afirmou.
“Até o próprio palavrão, que hoje muitas vezes é usado na música de forma pejorativa contra a mulher, quis ressignificar. Trazer palavras usadas como xingamento como forma de poder, autoafirmação e reconhecimento”, explicou Larissa.

Foto: Caio Lírio/ Divulgação
As várias facetas da artista
Multiartista, a inquietude sempre foi uma marca nos trabalhos de Larissa Luz. Cantora, atriz e diretora artística, ela foi protagonista da peça Elza – O Musical, participou de Mussum, O Filmis e agora também integra o sucesso de público e crítica Torto Arado – O Musical, adaptado da obra homônima do baiano Itamar Vieira Junior.
A peça, inclusive, retorna a cartaz em Salvador para uma temporada especial no Trapiche Barnabé, entre os dias 5 e 28 de junho.
“Ao longo desse tempo, vivi experiências muito importantes. Estou em cartaz atualmente interpretando uma personagem extremamente política, transgressora e revolucionária. Bibiana me deu muito impulso para escrever o que escrevi no disco”, expressa a atriz.
“Essa é uma obra extremamente necessária, que fala da realidade de um povo esquecido, apagado e silenciado. Bibiana faz parte dessa construção”, acrescenta.
Com essa variedade de atividades, o resultado é “sono o tempo inteiro”, como brinca a artista. Mas também é um desafio equilibrar os projetos de interpretação com a dedicação necessária para elaborar uma criação 100% autoral.
“É um malabarismo. Eu fico muito cansada, mas também muito feliz, porque tudo isso é um processo de autoconhecimento. É um eterno despir e vestir. Entrar e sair de várias pessoas. Estar na liderança e saber ser dirigida. Estar muito sozinha e também saber interagir no coletivo”, reforçou.
“É um exercício constante de ocupar outros papéis, e isso me tira do lugar de conforto. Me faz amadurecer enquanto pessoa”, disse.

A concepção visual do projeto
Em Desmonte, toda a concepção visual do projeto foi realizada em um galpão que funciona como oficina de trios elétricos. A coletânea de vídeos parte do pressuposto de que qualquer material descartado pode virar matéria-prima, trabalhando o contraste entre o corpo e as máquinas.
“Quando soube da existência daquele espaço cheio de carcaças de trio elétrico sendo reformadas, fiquei fascinada. Achei muito simbólico ver um trio desmontado, aberto, sendo reconstruído. Pensar nessa estrutura gigantesca — um caminhão que produz som, movimenta multidões — sendo revista por dentro”, destacou Larissa.
As gravações aconteceram enquanto vários trios estavam sendo reformados para o Carnaval.
“Isso conversa muito com o conceito do disco. Estamos o tempo inteiro revendo estruturas: sociais, comerciais, mercadológicas. Precisamos entender como essas estruturas funcionam para construir algo mais eficaz, mais justo e mais equilibrado”, refletiu.
“São muitas mãos e braços montando estruturas gigantescas, muitas vezes invisibilizados, sem reconhecimento pelo trabalho fundamental que fazem para que a cultura aconteça.”

Navegando contra a maré
Em uma indústria fonográfica marcada pela cobrança de lançamentos de parcerias musicais, feats, com grandes artistas dos mais diversos gêneros, como forma de tentar tornar projetos mais vendáveis, Larissa Luz entrega um trabalho muito próprio, com apenas duas parcerias pontuais.
“Todo mundo quer chegar quando o artista já está estourado, conhecido e consolidado. Mas muitos artistas precisam sair da própria terra para buscar oportunidade, principalmente quem está fora do eixo Rio-São Paulo”, pontuou.
A cantora explica que essa inquietação também atravessa a construção de Desmonte e as escolhas artísticas do projeto.
“Fiquei pensando sobre isso: por que buscamos sempre quem já tem mídia, fãs e números? Existem artistas incríveis fora do mainstream que têm muito a agregar”, refletiu.
Foi justamente a partir desse pensamento que surgiram os convites para Zé Atumbi e Áurea participarem do álbum.
“São artistas que acompanho há algum tempo e considero muito fortes e especiais. Talvez eu também possa somar de alguma forma na trajetória deles”, afirmou.
Para Larissa, é necessário ampliar o olhar sobre os critérios que definem visibilidade e espaço no mercado musical. “Precisamos refletir sobre por que ainda existem tão poucos feats com artistas que não têm números gigantescos, mesmo tendo enorme talento”, destacou.
Vem turnê por aí?
E para os que ouvirem o novo álbum e se empolgarem com o resultado, podem ficar tranquilos, a cantora já garantiu que o processo de transformar tudo em um grande espetáculo já teve início.
“Agora queremos começar a produzir o show do disco. O álbum foi produzido por Danilo Ponda, que já trabalha comigo há algum tempo, e por Ícaro Mota, com quem comecei uma parceria agora”, contou.
“Ícaro é guitarrista do Fantasmão, uma banda que admiro muito. Então estamos os três reunidos agora pensando em como transformar esse trabalho em experiência ao vivo”, disse.
Encerrando o papo, a cantora resume o momento vivido com Desmonte como o início de uma nova fase artística e pessoal.
“Quando termina uma etapa, começa um outro mundo completamente diferente. Agora queremos sentir tudo isso pulsando ao vivo, na carne”, concluiu.
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