Marco Nanini e Helena Ignez apresentam o clássico ‘Fim de Partida’ em Salvador
Ao bahia.ba, atores relembram seus marcos do cinema nacional e celebram reencontro nos palcos

Foto: Fernando Young/ Divulgação
A CAIXA Cultural Salvador recebe o espetáculo Fim de Partida, clássico do dramaturgo irlandês Samuel Beckett. No elenco, um show de nomes essenciais para entender um pouco sobre a história da dramaturgia e do cinema brasileiro: Marco Nanini, a baiana Helena Ignez, Guilherme Weber e Ary França.
Com direção de Rodrigo Portella, a montagem é uma tragicomédia marcada por relações de dependência, jogos de poder e reflexões sobre a condição humana. A peça estará em cartaz na cidade nos dias 27 e 28 de junho (sábado e domingo) e de 30 de junho a 4 de julho (terça a sábado).
Para celebrar a chegada deste aguardado espetáculo, o bahia.ba pôde entrevistar Nanini e Ignez, que nos contaram detalhes sobre os bastidores da peça, a importância de Salvador para as artes cênicas, além de relembrarem suas carreiras.
A venda de ingressos terá início no dia 23, às 12h, pela plataforma Sympla.
O absurdo e a condição humana em Beckett
Escrito nos anos 1950, sob o impacto da Segunda Guerra Mundial, Fim de Partida apresenta um cenário pós-apocalíptico em que Hamm (interpretado por Marco Nanini) e Clov (vivido por Guilherme Weber) vivem confinados em um espaço claustrofóbico, atravessados por uma relação de violência, crueldade cotidiana e profunda dependência emocional.
Ambos conduzem a narrativa em meio a uma realidade desprovida de sentido, marcada pela espera e pelo colapso das relações humanas. A obra segue dialogando com as tensões do mundo contemporâneo, quase sete décadas após sua criação, ao abordar temas como esgotamento, autoritarismo e a repetição das estruturas de poder.
“Montar um autor como Beckett é aceitar a inquietação que sua obra provoca. Fim de Partida, em especial, é um texto que nos confronta com nós mesmos. Ele expõe a mediocridade humana, nos despe de qualquer vaidade que ainda possamos ter e nos coloca diante da finitude da vida”, expressou Nanini.
Já para a atriz Helena Ignez, Beckett é um gênio, do porte de grandes autores como Shakespeare, ou até do diretor e roteirista Rogério Sganzerla, pedra fundamental do Cinema Marginal no Brasil.
“Ele é um grandíssimo escritor. Como outros com quem trabalhei no cinema, por exemplo, Sganzerla, que também era um grandíssimo escritor. A qualidade da inteligência dessas pessoas se manifesta durante todo o tempo. Shakespeare, até hoje, é atual. Ele está falando das paixões humanas, dessa coisa absurda que nós somos. Acho que acontece a mesma coisa com Samuel Beckett. Ele fala do absurdo”, relata Ignez.
“A própria personagem que interpreto, Nell, é inteiramente absurda. Ela mora dentro de uma lata de lixo. Apesar de ser a única mulher da peça, é também a única que efetivamente rompe com o outro personagem. Ela fala o que quer, expressa sua loucura, mas é livre dentro disso. Acho uma peça maravilhosa para refletirmos. E continuará sendo atual”, acrescenta.

Marcos geracionais
Nomes fundamentais da história do cinema nacional, Marco Nanini e Helena Ignez, para além dos palcos, fizeram história para diferentes gerações do audiovisual brasileiro.
O ator deixou sua marca em obras fundamentais da nossa cultura, interpretando o Cangaceiro Severino de Aracaju em O Auto da Compadecida (2000), o autoritário Frederico Evandro em Lisbela e o Prisioneiro (2003), além de ter ficado eternizado como o patriarca Lineu Silva em A Grande Família (2001 a 2014).
Frequentemente apontado como um dos atores mais versáteis em atividade, Nanini é constantemente redescoberto por um público mais jovem.
“Hoje, o catálogo de obras audiovisuais está amplamente acessível por meio das plataformas digitais. Isso permite que o público mais jovem descubra trabalhos marcantes da nossa produção cultural. As três obras que você citou têm essa qualidade e também carregam a marca de um grande diretor, que é Guel Arraes“, relembrou o ator.
“Mas no palco, cada apresentação é como andar de olhos vendados sobre uma corda bamba”, afirmou.
Já a atriz soteropolitana Helena Ignez é um dos nomes mais importantes da história do audiovisual brasileiro. Atriz, diretora e roteirista, ela ajudou a construir movimentos fundamentais como o Cinema Novo e o Cinema Marginal, trabalhando ao lado de cineastas como o baiano Glauber Rocha (com quem foi casada) e Rogério Sganzerla.
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, protagonizou obras marcantes como O Bandido da Luz Vermelha (1968), A Mulher de Todos (1969) e Copacabana Mon Amour (1970), tornando-se uma referência para diferentes gerações de artistas e cineastas.
Reconhecida por sua trajetória de constante experimentação artística, segue em atividade nos palcos e nas telas, sendo frequentemente celebrada como uma das figuras mais influentes e inventivas da cultura brasileira.
“Eu faço teatro desde os 20 anos. Hoje tenho 87. E continuo fazendo muito teatro. Minha trajetória está profundamente ligada à Bahia. Eu jamais seria a pessoa que sou se não tivesse vivido essa formação artística em Salvador. Foi uma experiência extraordinária. E, de alguma maneira, isso acabou influenciando as gerações que vieram depois”, expressou Ignez.
“Também tive a sorte de construir minha formação ao lado de Glauber Rocha. Nós nos conhecemos quando eu tinha 18 anos. Começamos a namorar e vivemos um longo período de aprendizado conjunto. Éramos dois jovens descobrindo o mundo. Foi a Bahia que me deu régua e compasso”, declarou.

Foto: Fernando Young/ Divulgação
Conexões soteropolitanas
Com histórias ligadas a Salvador — Helena Ignez, claro, por nascença e por toda a sua trajetória com Glauber Rocha —, Marco Nanini também tem uma relação afetiva com a cidade.
“Faz tempo que não apresento um espetáculo em Salvador. O último foi em 2012, no Teatro Sesc Casa do Comércio. Antes disso, trouxe muitos trabalhos para a Bahia e sempre fui muito bem acolhido pelo público. Também gravei aqui a série Dona Flor e Seus Dois Maridos, participei de alguns carnavais no Bloco dos Mascarados, de Margareth Menezes, e na Timbalada. Salvador é encantadora”, expressou o ator.
Questionado se há alguma lembrança especial da Bahia, ele reafirma que cada apresentação é única à sua forma.
“No teatro, cada apresentação é especial. É uma noite única para os artistas e para a plateia. Por isso, é difícil escolher apenas uma lembrança. Eu diria que todas as apresentações são especiais”, pontuou.
Já Helena Ignez relembra desde a década de 1980, quando estreou no Teatro Castro Alves, além de outras experiências marcantes em sua terra natal.
“Uma experiência marcante aconteceu já neste século, quando retomei minha carreira como diretora independente justamente em Salvador. Eu vivia um momento muito especial e delicado da minha vida. Praticava tai chi chuan há mais de vinte anos e tinha me afastado um pouco da atividade artística”, disse.
“Foi então que fui convidada pela TV Bahia para ministrar oficinas de teste para atores. Nesse período conheci músicos incríveis, entre eles Tonho Matéria. Juntos criamos um espetáculo baseado em poemas de Arthur Rimbaud musicados por ele. Apresentamos esse trabalho no Pelourinho. Foi um sucesso enorme. Um jornalista do Estado de S. Paulo assistiu, fez uma grande reportagem, e comecei a receber convites”, relembrou com carinho.
O espetáculo, que inicialmente contava com apenas três pessoas em cena, acabou crescendo e se transformando em uma produção com 21 músicos baianos, com passagens até por Barcelona, na Espanha, durante um festival internacional.
“Por isso digo que sou baiana em tudo. Tenho um enorme orgulho dessa cultura extraordinária. A Bahia possui uma riqueza cultural inacreditável e não podemos perder isso de vista”, reforça Ignez.

Elenco de peso
Com um elenco estrelado, para além dos veteranos, o espetáculo também conta com os importantes reforços de Guilherme Weber, nome conhecido da teledramaturgia que foi destaque em novelas como Da Cor do Pecado (2004) e Chocolate com Pimenta (2003), na Rede Globo, e Ary França, também muito conhecido da TV e do cinema, com papéis marcantes na série O Rei da TV (2022) e no filme Durval Discos (2002). A produção conta ainda com a direção cuidadosa de Rodrigo Portella.
“Temos um elenco muito talentoso e generoso. Eu já havia trabalhado com todos eles em diferentes espetáculos, e voltar a contracenar com esses artistas é algo muito estimulante. Com Rodrigo Portella foi a primeira vez, e ele é um excelente diretor, que traz referências muito ricas para os atores”, celebrou Nanini.
Sua relação com Helena Ignez também é carregada de grande significado, já que a estreia de Nanini nos palcos aconteceu justamente ao lado dela, em 1968, na adaptação de Salomé, de Oscar Wilde.
“Foi uma peça de enorme sucesso, numa época terrível do país. Era uma montagem extremamente política e muito bela. Foi a estreia dele. Ele costuma dizer que eu era Salomé e ele era um rapazinho do povo, ali em cena. Acho isso um amor”, explica Helena.

Foto: Reprodução
Do Cinema Marginal ao século XXI
Enquanto o Cinema Novo buscava retratar as desigualdades sociais brasileiras por meio de uma linguagem autoral e politizada, o Cinema Marginal levou a experimentação estética a um novo patamar, apostando na irreverência, na crítica cultural e na ruptura com os padrões tradicionais do audiovisual. Foi nesse movimento que Helena consolidou seu nome como um dos grandes símbolos da sétima arte nacional.
Ao lado de Rogério Sganzerla, protagonizou obras fundamentais. Com personagens marcantes e uma atuação inovadora, ajudou a redefinir a presença feminina nas telas e se tornou uma referência para diferentes gerações de artistas.
Hoje, ela enxerga o atual cenário do audiovisual com um otimismo moderado, sem deixar de notar as complexidades da nossa sociedade.
“Vejo dois lados. Estamos vivendo um momento muito bom em alguns aspectos da vida cultural brasileira. Mas também existe uma parcela da população imersa no que há de pior, que é a extrema direita. Isso é apavorante”, lamenta a atriz.
“Por outro lado, temos filmes muito bons, filmes que chegam ao Oscar. O cinema brasileiro está conquistando cada vez mais espaço. Sempre foi respeitado internacionalmente. Eu mesma participei de mostras em diversos países. Nem preciso falar de Glauber ou Rogério”, pondera.
Ao concluir, reforça a importância da valorização do cinema nacional pelo seu próprio povo. “Os intelectuais e artistas de fora valorizam nossa produção. Então, por que nós mesmos iríamos nos desvalorizar?”, questiona.
“Por isso digo: viva a arte, viva o teatro e viva quem continua interessado em construir algo melhor, em vez de destruir o pensamento humanitário que foi construído ao longo da história”, conclui Helena Ignez.
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