.
Publicado em 28/01/2026 às 10h30.

Matheus e o roteiro interrompido de quem entrou ‘forte demais’ no BBB 26

Passagem pelo reality expôs os limites entre intensidade, responsabilidade e o tempo em que se vive

Edgar Luz
Foto: Divulgação/Globo

 

Matheus entrou no BBB 26 como quem atravessa uma porta estreita carregando o próprio mito nas costas. Veio da repescagem, sobreviveu ao Quarto Branco, resistiu onde outros cederam. Sua chegada à casa principal tinha cheiro de redenção. O rapaz comum, bancário, ex-atleta, que venceu o cansaço, o isolamento e o silêncio para conquistar um lugar ao sol. O público gosta dessas histórias. Gosta até demais.

O Big Brother não é gentil com quem confunde resistência com razão.

Em poucos dias, o Matheus que resistiu virou o Matheus que confronta. O que parecia franqueza virou rudeza; o que se vendia como “livro aberto” passou a soar como incapacidade de escuta. Na tentativa de ocupar espaço, ele atropelou limites, alguns invisíveis, outros gritantes. E o jogo, que recompensa quem lê o ambiente, pune quem se acha protagonista antes do tempo.

O embate com Ana Paula Renault não foi apenas um barraco inaugural da edição. Foi um choque de eras. De um lado, a veterana que conhece o peso das palavras num reality, do outro, o novato que acreditou que provocação é sinônimo de coragem. Ao chamá-la de “patroa”, Matheus não atacou apenas uma adversária, mas expôs uma visão de mundo atravessada por hierarquias mal disfarçadas. Ana Paula devolveu no olhar e na voz. Pediu sustentação. Ele não tinha.

Depois veio Gabriela, e ali o erro foi mais profundo. Há silêncios que não pedem interpretação, pedem respeito. Ao comentar a virgindade da colega, Matheus cruzou uma fronteira íntima que o jogo nunca autorizou. Não era estratégia, não era jogo psicológico. Era invasão. E o público, que pode até perdoar um excesso emocional, raramente perdoa a exposição do outro.

Nada disso preparou o terreno para o que viria fora da casa.

Durante uma festa, a caricatura. O gesto. O riso torto. A imitação que transforma identidade em deboche. Marcelo não precisou gritar para ser ferido. O gesto falou por si. E, em 2026, gestos não são mais tratados como distração. O mundo mudou, e o BBB, goste-se ou não, é um espelho desse tempo. A denúncia ao Ministério Público de São Paulo não caiu do céu, foi consequência direta de um comportamento que o Brasil já decidiu não normalizar.

Quando Matheus saiu, com quase 80% de rejeição, não foi apenas eliminado. Foi interrompido. O jogo lhe devolveu, em números, aquilo que ele não conseguiu ouvir em palavras. No Bate-Papo BBB, diante das próprias falas, veio o arrependimento, tardio, mas real. Chamou de “falta de responsabilidade”. Talvez tenha sido isso mesmo. Talvez tenha sido também falta de consciência do lugar que ocupava.

Ainda assim, ao deixar o programa, Matheus não saiu inteiro. Seguiu chamando Ana Paula de “cobra”, como quem precisa manter uma narrativa para não encarar o próprio reflexo. Porque assumir o erro dói menos quando há um vilão externo.

A passagem de Matheus pelo BBB 26 foi breve, mas ruidosa. Uma trajetória que começou como resistência e terminou como alerta. O reality não elimina apenas por estratégia mal calculada; elimina por desalinho com o tempo em que existe. E Matheus, em sua pressa de ser intenso, esqueceu que intensidade sem responsabilidade vira ruído.

No Big Brother, e talvez fora dele também, não basta entrar com força. É preciso saber permanecer com cuidado.

Edgar Luz
Jornalista, apaixonado por comunicação e cultura, pós-graduando em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Atualmente integra as redações do Bahia.ba e do BNews, escrevendo principalmente sobre entretenimento, mas transitando também por outras editorias. Com passagens pelos portais Salvador Entretenimento e Voz da Cidade, tem experiência em reportagem, assessoria e Social Media.

Mais notícias

Este site armazena cookies para coletar informações e melhorar sua experiência de navegação. Settings ou consulte nossa política.