Jornalista com experiência em cidades, política, entretenimento e comunicação digital. Atuou no iG, além de passagem pela Approach Comunicação, com foco em conteúdo de negócios, tecnologia e investimentos. Foi coordenador de comunicação na SECIS/Prefeitura de Salvador e assessor parlamentar, liderando equipes e estratégias de conteúdo. Atualmente, é repórter no portal Bahia.ba e Portal Esfera.
Publicado em 10/07/2026 às 14h05.
Nem ‘Bola de Sabão’ conseguiu derrubar Claudia Leitte
Dos trios elétricos ao tribunal das redes sociais, cantora chega aos 46 anos transformando turbulências em consistência
Marcos Flávio Nascimento

Poucas artistas brasileiras conseguiram atravessar tantas fases da música nacional quanto Claudia Leitte. Do axé ao pop, dos trios elétricos aos palcos internacionais, a cantora chega aos 46 anos, comemorados nesta sexta-feira (10), com uma trajetória marcada não apenas por sucessos, mas pela capacidade de permanecer relevante mesmo diante das maiores turbulências da carreira.
Ao longo de mais de duas décadas de estrelato, a baiana viveu momentos de explosão popular, colecionou recordes, comandou carnavais históricos e se consolidou como uma das artistas mais conhecidas do país. Ao mesmo tempo, também enfrentou crises de imagem, mudanças no mercado musical e uma forte pressão pública que colocou sua trajetória sob constante julgamentos.
Se houve um momento em que muitos apostaram que Claudia perderia espaço, a cantora respondeu trabalhando. Enquanto parte do debate público se concentrava nas polêmicas envolvendo seu nome, ela manteve a agenda de shows, lançou projetos inéditos, ampliou sua presença internacional e continuou arrastando multidões pelo Brasil.
A história da artista revela um padrão que se repete desde o início da carreira: cada fase de maior desgaste acabou sendo seguida por um novo ciclo de reinvenção. É justamente essa capacidade de adaptação que ajuda a explicar por que Claudia segue ocupando espaço entre os principais nomes da música brasileira.
Muito além do Babado Novo
Embora muitos associem o início de sua trajetória ao Babado Novo, Claudia já cantava profissionalmente antes do grupo. Foi a partir dos anos 2000, porém, que sua voz passou a dominar o Carnaval de Salvador, impulsionada por hits como “Amor Perfeito”, “Cai Fora”, “Safado, Cachorro, Sem Vergonha” e, principalmente, “Bola de Sabão”, música que rompeu as fronteiras do axé.
Em 2008, ela decidiu seguir carreira solo. A mudança, vista por muitos como um risco, acabou ampliando seu alcance nacional. Vieram grandes turnês, DVDs, programas de televisão e participações em eventos internacionais, consolidando seu nome muito além da Bahia.
A força da reinvenção
Enquanto o mercado musical mudava rapidamente, Claudia também mudava. Incorporou elementos do pop, aproximou-se do eletrônico, do sertanejo, do reggae e de outras sonoridades, sempre sem abandonar completamente as raízes do axé.
Essa disposição para experimentar ajudou a cantora a dialogar com novas gerações e manter sua carreira ativa em diferentes momentos da indústria fonográfica.
Mesmo quando enfrentou críticas por mudanças estéticas, musicais ou posicionamentos públicos, Claudia continuou apostando na produção artística como resposta.
O olhar dos fãs
Para o psicólogo Elias Jefoni, fã da cantora desde os seis anos de idade, Claudia representa muito mais do que uma artista.
“Ela é energia. Posso estar no pior momento possível, mas quando estou em um show dela parece que a tristeza desaparece. É como uma pausa para viver alegria de verdade.”

Segundo ele, a relação construída ao longo de mais de 20 anos ajuda a explicar a fidelidade dos admiradores.
“Se hoje sou quem sou, parte dessa história passa por ela. Fiz amizades, vivi momentos inesquecíveis e cresci acompanhando sua carreira.”
Sobre as críticas direcionadas à artista, Elias acredita que Claudia acabou se tornando alvo de um julgamento permanente.
“Ela sofreu muito com ataques. Muitas vezes cobram dela responsabilidades que nem existiam quando construiu sua carreira. Acho que, em vários momentos, houve um peso muito maior por ela ser mulher.”
Já Ana Caroline Nascimento, conhecida entre os fãs como Dona Ana, acompanha Claudia desde a época da banda Nata do Samba.

“Ela merece tudo que conquistou. Tem um coração maravilhoso. Para mim, Claudia é uma amiga, uma mãe e uma artista extraordinária.”
Uma trajetória que resiste ao tempo
Se nos primeiros anos da carreira o desafio era conquistar espaço entre as grandes vozes do axé, nas últimas temporadas a disputa passou a ser outra. A explosão das redes sociais transformou artistas em personagens de debates permanentes, onde qualquer declaração, posicionamento ou gesto pode ganhar proporções nacionais em poucos minutos.
Claudia viveu essa mudança de forma intensa. Nos últimos anos, deixou de ocupar apenas as páginas de entretenimento para também aparecer no centro de discussões sobre comportamento, política, cultura e representatividade, tornando-se alvo de críticas, campanhas de boicote e julgamentos que extrapolaram sua produção musical.
Aos 46 anos, Claudia Leitte talvez já não ocupe exatamente o mesmo lugar de duas décadas atrás, quando liderava multidões em praticamente todos os Carnavais do país. Mas sua permanência revela algo raro na música brasileira: a capacidade de atravessar diferentes fases da indústria, sobreviver às mudanças de comportamento do público e continuar sendo assunto. Em tempos de carreiras cada vez mais breves, ela consegue o que poucos artistas conseguem: permanecer relevante por tanto tempo.
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