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Publicado em 29/01/2026 às 14h16.

Wagner Moura diz que americanos ‘não sabem o que é viver sob ditadura’

Indicado ao Oscar, ator afirma que o autoritarismo chega aos poucos e minimiza a euforia com a premiação

João Lucas Dantas
Foto: Reprodução

 

Em entrevista à revista americana Variety, Wagner Moura falou sobre a indicação histórica ao Oscar 2026 de melhor ator por O Agente Secreto e aproveitou o momento para fazer reflexões contundentes sobre política, autoritarismo e o papel da arte.

Primeiro brasileiro indicado na categoria, o ator afirmou que o reconhecimento é importante, sobretudo para o cinema nacional, mas deixou claro que suas maiores preocupações estão fora das premiações.

“Profissionalmente, este é provavelmente o momento mais reconhecido da minha carreira. Mas a vida não para”, disse Moura. Ele contou que, após a notícia da indicação, abraçou a esposa e os filhos e seguiu a rotina. “Isso te coloca com os pés no chão. Esse é um momento bonito, especialmente porque é um filme brasileiro recebendo essa atenção. Mas isso não é a vida real.”

Ao comentar o cenário político atual, o baiano alertou para o avanço do autoritarismo e afirmou que os Estados Unidos ainda não compreendem totalmente esse processo. “Vocês nunca tiveram a experiência de viver sob uma ditadura. Vocês não sabem o que é isso, como é ou o quão ruim pode ser”, afirmou.

Segundo o ator, regimes autoritários se instalam de forma gradual. “Isso acontece devagar. E se você não reage às pequenas coisas, é aí que eles tomam conta.”

Ambientado durante a ditadura militar brasileira, O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, acompanha um ex-professor perseguido pelo regime enquanto tenta proteger o filho. O ator destacou a dimensão pessoal do filme.

“O que me inquietou foi perceber o quanto Armando era parecido comigo. Era como se eu estivesse interpretando a mim mesmo. Este é um filme que nasceu de como eu e Kleber nos sentimos quando o Brasil estava sob um governo com traços fascistas. De como nos sentíamos sobre nosso papel como artistas”, revelou.

Wagner também chamou atenção para a crise da informação e da verdade no mundo contemporâneo. “O que mais me preocupa hoje é que não existem mais fatos. Os fatos não importam mais”, afirmou.

Para ele, a polarização e a desinformação tornam o diálogo quase impossível, já que diferentes grupos vivem “em universos completamente distintos”.

Nesse contexto, ele defende a força da arte como ferramenta de reflexão. “As pessoas se conectam com personagens, não com ideias”, disse, explicando por que prefere falar sobre política por meio dos seus papéis. “Estou cada vez mais interessado em falar através dos personagens, dizendo o que preciso dizer por meio deles.”

Ao final, celebrou o momento vivido pelo cinema brasileiro, que vem ganhando destaque internacional após anos de ataques à cultura. Segundo ele, ver o público se reconhecer nesses filmes é simbólico. “Antes, a extrema direita foi muito eficiente em transformar artistas em inimigos do povo. Agora, ver os brasileiros dizendo ‘esses artistas nos representam’ é algo muito bonito”, concluiu o ator em entrevista à Variety.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba. DRT: 7543/BA

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