Publicado em 20/08/2016 às 11h00.

Ex-professor, Cláudio Silva atribui ao trabalho patrimônio de R$ 4 mi

"Cheguei a ministrar sete turmas em faculdades aqui em Salvador e, ao mesmo tempo, ser professor de pós-graduação no interior", diz candidato do PP

Evilasio Junior
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

O candidato à prefeitura de Salvador Cláudio Silva, que encabeça a coligação “Salvador merece mais”, composta pelos partidos Progressista (PP) e da República (PR), é o segundo entrevistado do bahia.ba na série especial com os prefeituráveis de 2016, que segue a ordem de publicação definida em sorteio com os representantes dos postulantes.

Além de capitão da reserva do Exército do Brasil, o pepista é formado em processamento de dados e administração de empresas. Também é mestre em administração pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). Na gestão do ex-prefeito João Henrique de Barradas Carneiro (PR), de quem o aspirante nega ser amigo pessoal e atribui o “apoio decisivo” para a eleição de ACM Neto, foi subsecretário e secretário de Educação, além de superintendente de Controle e Ordenamento do Uso do Solo (Sucom).

Ex-professor, o político chamou a atenção no primeiro dia de campanha ao bancar um helicóptero para atirar pétalas de rosas em alguns pontos da capital, mas declarou que o custo não compromete os escassos recursos estabelecidos pela Justiça Eleitoral para a campanha. Quanto ao patrimônio, de quase R$ 4 milhões, o segundo maior divulgado entre os candidatos, o pepista considera ser “fruto do trabalho”.

“Eu tenho 51 anos e trabalho já há muito tempo, desde os 14 anos. Eu encontrei uma época nesta cidade em que você tinha oportunidade de comprar as coisas de uma forma mais barata […]. Eu dava aulas nas universidades à noite e pela manhã. Cheguei a ministrar [aulas em] sete turmas em faculdades aqui em Salvador e, ao mesmo tempo, ser professor de pós-graduação no interior do estado. […] Então, o trabalho faz isso”, justificou.

Em resposta às críticas e acusações feitas pelas siglas de oposição durante a sua passagem pelo governo JH, o concorrente ao Palácio Thomé de Souza avaliou que todas as legendas fizeram parte da administração em momentos diferentes e acrescentou que o exercício da “política pela política” impede que se recordem disso. Ademais, negou que tenha privilegiado o mercado imobiliário e contribuído para o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), considerado inconstitucional pela Justiça. Ele justificou que não tinha poder de interferir no processo porque a Sucom, à sua época, era um órgão meramente executor.

Um dos candidatos da base do governador Rui Costa (PT), Silva se considera uma “cara nova”, no cenário em que “a política velha cansou a todos”, com uma plataforma eleitoral baseada no discurso da criação de empregos e mudança na matriz financeira da cidade.

Segundo o pepista, que se autointitula um “sonho possível”, é preciso “deslocar o eixo de que mandatário é simplesmente aquele bem-nascido, o neto ou filho de governador”. De acordo com ele, é preciso mostrar “que o garoto da periferia pode nascer pobre, estudar muito, passar pelo mesmo caminho” que ele afirma ter passado, em história de vida semelhante à do chefe do Executivo estadual. Confira a íntegra da entrevista abaixo:

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

bahia.ba – Logo no primeiro dia da campanha o senhor colocou um helicóptero para distribuir pétalas de rosas. Em um ano de crise e sem recursos privados, sua campanha não sentiu os efeitos?

Cláudio Silva – Bom, o volume de recursos que podem ser aplicados foram definidos pelo TRE. Então, nós sabemos o limite que podemos atingir. É claro que, em uma campanha, você tem que aplicar os recursos da melhor maneira possível, mas tem algumas coisas que precisam ser colocadas e você não pode medir esforços. Foi o caso da mensagem que nós mandamos. Para ter a paz não pode ter preço e nós vimos que, no início deste processo, a troca de farpas, as discussões entre pré-candidatos eram conduzidas por um caminho que Salvador não merece e nós precisávamos agir pedindo que eles tivessem uma atenção voltada para aquilo que a cidade precisa e me parece que já surtiu efeito. Toda a mídia local falou sobre isso hoje [quarta-feira (17)]. Sobre o pedido de paz que nós fizemos. Espero que os candidatos, de fato, tenham incorporado este espírito, porque nós precisamos debater a cidade e não ficar apontando essa ou aquela característica, de um ou de outro, ou falhas de ordem pessoal, não cabe isso.

.ba – O helicóptero estava plotado com o número 11. Ele é de propriedade de alguém do PP?

CS – Não. O helicóptero foi locado. Na prestação de contas que está sendo encaminhada ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) já constam os valores da locação. Inclusive, é uma coisa que vai até surpreender vocês: não é nenhum valor absurdo. E [o adesivo com o número da legenda] dentro do limite que é permitido a você ter de plotagem em um veículo. Foi isso que nós fizemos.

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – O senhor nunca saiu candidato a nenhum cargo, sequer a vereador. O que motiva a sua candidatura a prefeito e o faz achar que tem chances de vitória? Essa campanha pode ser um gancho para 2018?

CS – Primeiro porque a política velha cansou a todos. A gente está vendo o que está acontecendo no Brasil e no mundo, de alguma maneira. E, por conta disso, as pessoas querem algo diferente. O diferente é aquele que é capaz de fazer com seriedade, com responsabilidade e com vontade. Que não está preocupado com o projeto político, com a sua carreira política. Ele está preocupado em chegar, fazer uma boa administração, prestar os serviços de qualidade que a população merece. O que me motivou é muito simples. Eu nasci em um bairro pobre de Salvador, na Vasco da Gama. Fui criado em Campinas de Brotas, próximo ao [cemitério] Jardim da Saudade. Brinquei na lama, não tive autorama, não nasci em bairro nobre e comecei a trabalhar com 14 anos de idade como office boy em um curso de inglês para aprender a língua inglesa. Então, uma pessoa que faz uma trajetória como essa e que a educação foi responsável por promover a mobilidade social – meu pai era motorista de táxi, minha mãe auxiliar de enfermagem – a educação fez a transformação na minha vida. Eu tenho que tornar claro para as pessoas que o sonho é possível. Você não só pode ter gestores de uma cidade que sejam filhos e netos de políticos tradicionais. Tem que dar esta oportunidade a quem vem debaixo. Eu represento isso, eu entendo ser o sonho possível. Mais do que isso, eu posso, com o conhecimento que angariei ao longo de todos estes anos nos cargos que ocupei, a experiência que acumulei na vida estudando, devolver à minha cidade uma condição melhor, e é isso que ela precisa. E a gente já tem provado isso ao longo dos cargos que a gente tem ocupado.

.ba – Segundo a declaração de contas já apresentada, na prévia do TRE, o senhor é o segundo candidato mais rico aqui em Salvador. Inclusive, com quatro carros de alto padrão e R$ 800 mil em espécie. Como foi possível tornar esse sonho possível?

CS – Olha, isso aí é uma coisa muito clara. Em primeiro lugar, já demonstra que a gente não está preocupado em esconder absolutamente nada. Eu não sei se todos os candidatos fizeram o mesmo, se tiveram a coragem de entregar a cópia da sua declaração do imposto de renda, que foi o que eu fiz. Eu não fiz uma transcrição simplesmente de bens para constar ou para cumprir a obrigação, aquilo que a Justiça Eleitoral estabelece. Eu entreguei o meu imposto de renda, que já está há muito tempo na Receita Federal. Bom, é muito simples [quanto a ter acumulado o patrimônio], eu tenho 51 anos, completei na segunda-feira (15), e trabalho já há muito tempo, desde os 14 anos. Eu encontrei uma época nesta cidade em que você tinha oportunidade de comprar as coisas de uma forma mais barata, onde era remunerado e vivia, realmente, a flutuação de vários planos econômicos, mas tive a oportunidade de me aplicar, trabalhar muito. Eu me lembro que houve épocas em que acumulava três funções de trabalho. Eu dava aulas nas universidades à noite e pela manhã. Cheguei a ministrar [aulas em] sete turmas em faculdades aqui em Salvador e, ao mesmo tempo, ser professor de pós-graduação no interior do estado. Quantas vezes eu saí de Vitória da Conquista, da aula de pós-graduação dentro de um ônibus, para chegar aqui 5h e já me engatar em outro trabalho? Então, o trabalho faz isso. É claro que eu fiz questão, também, de demonstrar que o patrimônio não é só meu, envolve minha família. Aqueles veículos não são todos meus. Um é meu, outro da minha esposa e um de cada filha, que já são também maiores, trabalhadoras e estudantes. Então, fazer diferente é isso. Essa é a nossa proposta. Vir com uma transparência muito grande do que você tem, do que é, de como conseguiu. São recursos que vieram, obviamente, do meu trabalho e que se você buscasse a tela histórica do meu imposto de renda, eles estão lá há muito tempo. Então, simplesmente, não tenho que esconder. Tenho, muito pelo contrário, que usar isso para que os outros candidatos sigam o exemplo também.

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – Na sua convenção o ex-prefeito João Henrique, candidato a vereador pelo PR, fez um discurso bastante exaltado, rasgou multas de trânsito… Qual a sua ligação atual com ele?

CS – João Henrique é um político conhecido da cidade do Salvador. Ele foi prefeito por duas vezes, foi deputado em alguns mandatos e todos o conhecem. É claro que, quando se trata de uma campanha política, você quer ter perto a maior quantidade de apoio possível. A gente sabe que o prefeito de Salvador hoje, ACM Neto, contou com o apoio decisivo de João Henrique para se eleger. Então, o ex-prefeito está tentando se reinventar, quer fazer diferente, agora. Quer reiniciar sua carreira política sendo vereador. É do PR, que coligou com a gente. Obviamente, se integrou ao nosso processo. Do ponto de vista pessoal nós temos vidas diferentes. Eu não frequento a casa dele, ele não frequenta a minha casa. Nós não temos relações de parentesco, de nenhuma ordem, mas é, certamente, um homem que está buscando fazer um caminho, desta vez, diferente, e tem contado, obviamente, com o apoio dos seus correligionários, aqueles que ele liderou. E a gente acredita que pode ter um desempenho importante nesta campanha, não tenho a menor dúvida. Um homem que conduziu a cidade e deu o aumento de salário que o funcionalismo público não via há 30 anos. A gente está em uma administração que os funcionários públicos quase não tiveram aumento, os professores não tiveram aumento quase nenhum, e ele foi um gestor que primou por isso. Além de outras coisas também. Prefeito que fez o Imbuí, que acabou com o alagamento no Itaigara, que fez a Centenário. Então ele tem, é claro, uma importância política dentro da cidade do Salvador e deve tentar resgatar isso na campanha. Quanto à convenção, ela foi aberta às legendas e ele faz parte de uma das siglas que nos apoia. Certamente, tinha que estar lá presente, fez a fala que ele entende ser a bandeira que ele está empunhando, mas, no meu caso, especificamente, a minha fala não é efusiva, não é de contestação pela contestação, é uma proposta de transformar Salvador através de projetos e ações que ela realmente precisa. A capital precisa de emprego, de educação de qualidade, precisa sair de uma matriz [econômica] de faz de conta, onde se imaginou que o modelo do turismo poderia salvar e não resolveu. Qual é a vocação turística de Salvador hoje? Quem sabe? É de praia e sol? Então por que a orla não está toda pronta? É de turismo religioso? Por que que não houve uma parceria direta do Município com outros organismos do Estado ou federais para recuperar as nossas igrejas, os terreiros de candomblé? A gente não ouviu falar disso. O que nós vimos foram recuperações em espaços públicos dentro de uma ideia de que a cidade ficaria mais bonita para receber os visitantes. O que se vende como cidade mais bonita e cidade que voltou a sorrir é o mesmo Farol da Barra, o mesmo Forte de São Marcelo, o mesmo Forte de Santo Antonio, é o Farol de Itapuã, que são marcas da nossa paisagem, que não foram feitas na gestão atual e nem na anterior. É um processo contínuo de construção que nós estamos vivendo. E cada um que senta na cadeira de mandatário tem que fazer a sua contribuição para que o município fique cada vez melhor, mas não melhor do ponto de vista de espaços físicos tão somente. Precisa ficar bem do ponto de vista das pessoas. Será que a obra da Barra resolveu problemas na comunidade carente da Ilha Amarela [no Subúrbio Ferroviário]? Será que a obra do Rio Vermelho solucionou as dificuldades da comunidade carente da Palestina ou foi mais um processo de “gentrificação” [troca de um grupo por outro com maior poder aquisitivo]? Um contexto onde as pessoas que ali moravam vão ser afugentadas porque não vão suportar o aumento de preços e serviços que serão prestados no entorno. É isso que temos de pensar. Então, Salvador precisa ter um projeto de cidade planejada para quem aqui escolheu viver, e não simplesmente para tentar mostrar uma metrópole maravilhosa para um punhado de turistas que vêm, de uma forma importante, mas ainda é um punhado de turistas. Se a nossa capital tem um atrativo turístico muito grande, por que temos perdido para outras do Nordeste, em termos de turismo de verão? Por que perdemos [turistas] durante o carnaval para outros não tão tradicionais, como tem acontecido em Minas Gerais? É preciso se reinventar e essa reinvenção, que nós não pensamos de uma forma muito trivial e tradicional, vai nascer das características típicas da nossa gente. Amar a cidade é muito mais importante do que se orgulhar dela, este é o caminho. E para amá-la tem que acolher bem. Eu tenho que ter educação de qualidade, ter postos de saúde realmente funcionando, não apenas pintados de branco com uma janelinha azul e que lá dentro não há medicamento. Qual a saída? É simples. É preciso que os governantes entendam que o dinheiro é público, não é carimbado simplesmente por uma questão burocrática, de prestação de contas. Há o dinheiro dito como municipal ou estadual. Escola é escola. Escola não é municipal nem estadual. Hospital não é municipal nem estadual, hospital é hospital. Então, o que a gente tem que construir é uma lógica em que os poderes tenham convergência para que a gente possa prestar serviços de qualidade para a população que mora aqui. É isso que a gente está buscando.

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – A Justiça considerou inconstitucionais o PDDU e a Louos aprovados no governo JH, na sua gestão à frente da Sucom. O senhor considera que cometeu erros durante o processo?

CS – Preciso, em primeiro lugar, agradecer a esta pergunta. Esta, talvez, seja uma das perguntas mais importantes deste processo que a gente vai viver. A Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo (Sucom) era, à minha época, meramente a guardiã da legislação. Toda e qualquer legislação urbanística da cidade era elaborada pela Secretaria de Planejamento Urbano (Sedham). O atual mandatário fundiu as pastas. Ele associou a Sedham com a Sucom [e criou a atual Secretaria Municipal de Urbanismo com a mesma sigla]. Na administração anterior, a Sucom simplesmente cumpria a lei que era elaborada pela Sedham, encaminhada à Câmara pelo prefeito, aprovada pelos edis, e nós éramos obrigados a cumprir aquela lei, tão somente. Então, eu não tive a oportunidade de participar de nenhuma elaboração, nenhuma revisão, nenhuma legislação, dentro da cidade do Salvador no período em que estive à frente do órgão. Era competência dos titulares da outra pasta que, acredito, tentaram fazer o seu melhor. Quanto à inconstitucionalidade, aí já é uma discussão legal que, obviamente, não tenho eu a competência nem a vontade de discutir neste momento. Claro, a cidade sofreu com isso. Era possível naquele momento, em que o [atual] prefeito assumiu pensar em uma modulação, para que ela não sofresse tanto. E aí, levou-se quatro anos e agora acabamos de ter aprovado um PDDU e uma Louos falhos. Trazem problemas. Não vão resolver as questões daqui. O último grande planejamento que foi feito na capital está muito distante no tempo. O último gestor que, de fato, planejou a cidade foi Mário Kertész, que tinha um escritório com algumas pessoas que depois se tornaram notáveis urbanistas, pensadores da sociedade contemporânea e que estão aí em diversos segmentos. Pensaram em um serviço de transporte de massa que somente 30 anos depois veio acontecer. Então, é preciso dizer que este plano que está aí não pensa a metrópole na dimensão que merece. Aí você pode perguntar: e tem que ser revisado? Claro. Uma lei não pode engessar uma cidade. No próprio Congresso Nacional, o Senado já discute se esses planos devem ter este poder, esta longevidade toda de 10 anos para suas revisões. Será que é possível? Se surgir uma nova tecnologia, uma nova situação? Por que este engessamento destes planos? A Louos, da mesma maneira, também traz uma série de problemas. O que vai acontecer com as moradias que estão fora da legislação? Por que não se pensou logo em um programa de regularização de empreendimentos consolidados, dentro da própria lei? Por que não se pensou em criar uma estrutura que vai, de alguma maneira, atingir aos anseios que a população tem lá na sua extremidade? Esta legislação que está aí, obviamente, é um esforço, tem de se reconhecer, parabenizar o prefeito pela iniciativa de querer mudar, parabenizar a Câmara pela capacidade e a sensibilidade em fazer as discussões, mas não pode ser desta maneira. Tem muita coisa para ser ajustada ainda, mas vai ser um processo contínuo. A nossa intenção é trazer para Salvador um modelo diferente de planejamento. Não é engessar porque o mandatário quer desta maneira. O que é que, de fato, a cidade está precisando, o que precisa ser feito para transformar a cidade naquilo que ela mais precisa? Emprego. Não propriamente o emprego, mas trabalho, renda, dinheiro no bolso das pessoas. No final de 2012, no final da gestão que eu participei, a cidade sofria com o desemprego, como sempre sofreu, mas em uma taxa de 6,3%. Hoje é de 11,9%, dobrou. As pessoas ficam se escondendo atrás da crise. Não é a crise. Foi a política que foi utilizada para sufocar alguns segmentos. Se aniquilou a indústria da construção civil com diversas medidas que não permitiram a continuidade deste processo. Eu me lembro que, na minha época, somente na Paralela eu tinha 14 mil postos de trabalho entre finalizadores de obras e obras em início. A cidade era um emaranhado de gruas. Sabe o que significava aquilo? A pessoa no final do mês com um dinheiro para ir na comunidade dela, no supermercado local, na mercearia e girar a atividade econômica. Isso acabou.

.ba – O caminho é motivar a construção civil…

CS – Não só a construção civil, motivar também a indústria de tecnologia limpa, os pequenos arranjos locais. O que é que você vê hoje dentro do processo de fiscalização da cidade? O tempo todo notícia de que o rapa chegou, os fiscais chegaram… pessoas que, muitas vezes, vendem produtos que elas mesmas confeccionaram. Cadê a política de incentivo aos pequenos arranjos locais? A política de incentivo para que nas casas tenham a residência e a atividade laboral em um modelo bidomiciliar vinculado? Aquele trabalho desenvolvido ali, que produza alguma riqueza e traga isso como benefício para a comunidade. Porque o cidadão vai gastar esse dinheiro ali no seu entorno, pagando produtos que consome, serviços que contrata. Isso é o mais importante. A gente precisa se preocupar com isso. Nós propomos agora em nosso programa de governo os raios de desenvolvimento regional. Sabe o que é isso? É muito simples. Vai ter uma obra pública? Vamos colocar na licitação um determinado retificador para aquele que contratar mão de obra local ter uma vantagem. É benefício para o Município. Imagine quantas obras e eu definir uma quantidade mínima de trabalhadores que tem de ser contratados naquele entorno? Isso que é fundamental. A gente tem várias propostas e projetos em cima de coisas que são possíveis, porque já foram testadas em outros lugares. A gente tem que se preocupar muito com estas coisas. Salvador não tem uma vocação muito clara definida do processo produtivo e é muito fácil se levantar e dizer que é uma cidade simplesmente de serviços, pelo amor de Deus! Quantos municípios no mundo mergulharam nas tecnologias da informação e hoje são produtoras de softwares e determinadas soluções de hardware? Temos aqui um Parque Tecnológico, um esforço enorme do governo do Estado. O que fez a prefeitura para se aproximar deste parque, colocar alunos da rede municipal em contato com estas tecnologias? Absolutamente nada. Muito pelo contrário. Fica aquela discussão: isso é do Estado, então eu não vou; isso é do Município, então eu também não vou. Não vai funcionar. A nossa proposta é que estes recursos sejam, municipais ou estaduais, pensados em benefício da cidade. E aí eu não tenho a menor dúvida: é preciso ter uma aliança muito grande com as diversas esferas de poder, inclusive com governo federal, porque aí, de fato, a gente vai conseguir fazer uma capital melhor.

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – Uma acusação bastante feita pela oposição era de que a Louos e o PDDU atendiam ao mercado imobiliário. Qual é a sua relação com o segmento?

CS – Eu acho o seguinte. É muito simples falar sobre isso porque não tem nada para falar além da verdade. As legislações urbanísticas são pensadas para o esforço total da cidade. Nós vivemos naquele período [gestão JH] um boom imobiliário. Era natural que as empresas viessem para cá, inclusive empresas de fora. Observe que grandes empresas de fora vieram investir no mercado de Salvador, geraram empregos e foram mal-entendidas. Em alguns momentos, até afugentadas e está aí o que aconteceu: o cemitério de empregos que falei agora há pouco. Nós não temos mais atividade econômica na dimensão que a cidade necessita.

O senhor era muito atacado por partidos como PT e PCdoB enquanto esteve na Sucom. Hoje, é um dos candidatos de Rui. O que mudou na sua relação com as legendas?

CS – Esses partidos, eu acho engraçado. Vai ser difícil você encontrar um deles que agora levanta uma bandeira, essa ou aquela, sejam as siglas que acompanham o atual prefeito ou legendas que estão ao meu lado, na base do governador, tentando buscar outros caminhos para a capital. Eu tenho certeza que o destino que estou propondo é de quem conhece a cidade, de quem viveu, que brincou com o pé na areia, que não teve autorama, que brincou de fura-pé, de guiador de pião, que empinou arraia… é um caminho de quem sabe cuidar de gente porque é gente, porque viveu a dificuldade. E aí, esses partidos criticam, mas quase todos estiveram no governo. Todos. Pode parar para pensar. Da atual gestão, se você fechar o olho, você conta aí, no mínimo, uns 10 colaboradores de primeira linha do prefeito [ACM Neto] que estavam na gestão anterior. Se você for olhar do PCdoB, também. Se for olhar do PDT, também. Eles ocuparam os segmentos do governo. Então, às vezes, a política pela política leva a isso, a fazer a crítica vazia. Não é o que a gente quer. Nós não mudamos qualquer relação com as siglas, pelo contrário, nós esperamos que elas estejam juntas nesta caminhada, porque eu não tenho a menor dúvida: nós vamos chegar ao segundo turno e, ao chegarmos lá, precisaremos convencer essas legendas da nossa plataforma, que reúne todo o esforço que se precisa fazer para colocar Salvador, realmente, na dimensão que ela merece, que seus filhos merecem. É isso que queremos. A gente quer, de qualquer maneira, deslocar esse eixo de que mandatário é simplesmente aquele bem-nascido, o neto ou filho de governador. Queremos mostrar o sonho possível que é que o garoto da periferia pode nascer pobre, estudar muito, passar pelo mesmo caminho que eu passei, que Rui Costa passou, que foi fazer um concurso em uma escola técnica federal, estudar nela, passar por um sistema universitário e voltar por um serviço público para fazer o que realmente a cidade precisa, ter a nossa dedicação.

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – O senhor tem 1 minuto e 40 para pedir o voto do eleitor de Salvador.

CS – Olha, primeiro porque a gente tem uma proposta diferente, que é uma proposta para pedir as pessoas não somente o voto. A gente quer que elas prestem a atenção nas propostas apresentadas. Não vai adiantar você fazer pirotecnia, não vai adiantar você fazer brincadeiras, gritar. O que vai adiantar é você mostrar que existe um caminho e nós vamos mostrar ele. Então, eu peço o voto convocando que as pessoas assistam aos programas da TV, que vejam as mensagens que nós estamos mandando e decidam, eu não tenho a menor dúvida, pelo melhor para Salvador. A nossa proposta é a melhor porque nasce do povo. Basicamente, nós temos de eleger o grande problema da capital e o maior problema, hoje, é a ausência de ocupação remunerada para sua população. O que queremos é criar um amplo programa junto com as empresas que se instalaram aqui, atraindo outras para que sejam implantadas em nossa cidade e, a partir daí, fazermos uma revolução, trazendo o que é mais fundamental: o dinheiro para o bolso do trabalhador. Porque aí, amigo, diminui a violência, aí ele pensa na educação de qualidade, porque aí ele consegue contrariar aquele destino que dizem que é o destino dele, que é nascer pobre e morrer coitado. Ele transformar isso na possibilidade, inclusive, de ser prefeito, governador, presidente da República, o que seja. Nós queremos trazer para o cidadão com a nossa proposta a demonstração clara que o sonho é possível, porque eu sou uma realidade.

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