Publicado em 21/12/2020 às 08h15.

Maria Marighella ressalta tradição política da família: Herdeira de homem assassinado

Vereadora eleita com mais de 4,8 mil votos, atriz e gestora cultural defende diálogo entre pares de maioria conservadora para reconstruir Salvador

Estela Marques
Foto: Reprodução/ Facebook
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Na política, o sobrenome é herança, abre portas e carrega uma série de simbolismos que são passados de geração a geração. Um dos novos quadros da Câmara Municipal de Salvador, Maria Marighella (PT) garante que seu caso é diferente das oligarquias perpetuadas no Brasil.

Neta do político comunista Carlos Marighella, considerado o inimigo número um da Ditadura Militar no Brasil, co-fundador da Ação Libertadora Nacional e assassinado em 1969 por agentes do DOPS, a petista diz que é herdeira de uma memória.

“A gente não pode comparar uma coisa com outra. Uma coisa são as oligarquias, o familismo, a herança dos acúmulos inescrupulosos de capital e poder. No meu caso, sou herdeira de tradição, ancestralidade, como cada um de nós é herdeiro. (…) Sou herdeira de um homem assassinado, retirado de seus direitos. Isso em nenhuma hipótese pode ser comparado com quem acumula, rouba, desapropria do pobre para acumular pra si”, argumenta.

Apesar dos valores que carrega, a vereadora eleita com 4.837 votos é mais do que a tradição política de sua família. Formou-se em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), coordenou o setor de Teatro da Fundação Cultural do Estado da Bahia, foi membro do governo Dilma Rousseff, ocasião em que trabalhou na Fundação Nacional de Artes (Funarte) até o impeachment – ou “golpe”, como prefere chamar.

De volta à Bahia, assumiu outros papéis na gestão pública da cultura até perceber que podia conciliar os dois grandes campos que a atravessavam.

“Fui entendendo a importância de me colocar na vida política e vida pública, também como sujeito e ativista da cultura, reivindicar lugar da cultura na política do tamanho que ela tem”, explica.

Em entrevista concedida ao bahia.ba, Maria Marighella apresenta o caminho que a trouxe ao Legislativo municipal e como pretende administrar as diferenças ideológicas e partidárias entre pares majoritariamente conservadores.

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Quem é Maria Marighella, para além da neta de um dos principais inimigos da Ditadura Militar do Brasil

“Eu sou Maria Marighella, neta de Carlos Marighella. Nasci com a vida atravessada por essa tradição política, com minha vida mobilizada pelos eventos políticos do Brasil, com dramas sociais do Brasil, mas sou atriz. Sou uma pessoa da cultura, pessoa das artes. Tenho dito que, ainda que minha ancestralidade seja política, dessa tradição Marighella que trago com muita honra, meu fundamento como sujeito, como pessoa, é nas artes. São as artes que me fundam como sujeito, como pessoa, e me tornei atriz.

Sou também mãe de Zeca e Bento [com 14 e 10 anos, respectivamente], que atravessaram comigo grandes emoções. Ainda que tenha sido feminista desde o dia que nasci, nunca pude não ser feminista. Sempre me senti como uma mulher dentro de universo feminista que sempre reivindicou o direito às mulheres. Mas foi na maternidade e com a maternidade que descobri o maternismo, um feminismo insurgente com a maternidade. Digo que toda mulher ou se torna feminista ou tem que repactuar seus feminismos de algum modo. São tantas opressões e violências que mesmo aquelas que vivem em um mundo mais emancipadores precisam em algum momento se insurgir e recorrer ao feminismo como um dispositivo de desarranjar poderes dão colocados. A maternidade foi uma dessas experiências que via a ausência na vida pública, política e social de uma prática de cuidados, como o Estado atribui às mulheres um acúmulo programado, brutal e violento em relação às práticas de cuidado. Foi só quando me tornei mãe que pude me enfrentar com essa situação. Retomei meu feminismo também com a maternidade.”

 

Gestão coletiva na Câmara Municipal de Salvador

“No ano passado, com representantes de atividades da cultura, educação, direito às cidades, me organizo numa movimentação cidadã. Meu nome é o primeiro dessa movimentação cidadã. A ideia é que a coletiva seja espaço permanente de ocupação da política institucional. Para isso, precisa-se dedicar à formação permanente não só daqueles que já integram a movimentação cidadã, mas de outras pessoas – a gente entende que parte do afastamento político das pessoas é porque há afastamento programado -, fazer letramento político, não um que ensina e o outro que aprende, mas nos colocarmos em processo de letramento político o tempo inteiro. Entender política como ato permanente, mas também mobilização e organização permanente. A política deve ocupar o lugar de centralidade da própria vida, um lugar que seja bom de habitar, que não seja um lugar hostil, deprimente, chato. A ideia da coletiva é ser espaço acolhedor, agradável, não sem conflitos ou sem disputas, mas dentro de disputas e conflitos haver produção de diálogo, escuta, acolhimento. Nosso primeiro ano de existência foi vitorioso. Ousamos com a própria campanha. Recusamos modelos mais tradicionais de fazer campanha. Isso nos deus dimensão de que é possível experimentar, criar, apresentar saídas políticas, estéticas, poéticas e de linguagem.”

 

As principais bandeiras de seu mandato

“A cultura é a bandeira principal, porque venho com essa força. Mas o programa de propostas legislativas que apresentamos tem dez eixos de luta. A cultura como eixo prioritário, mas não só: educação, feminismos, antirracismo, direito à cidade como pauta muito urgente, juventudes, infância, colocamos a agenda da memória e justiça. Sendo quem eu sou, neta de Marighella, nascida na ditadura militar, é inadmissível que não trate desse tema com a centralidade ele merece. É impossível entender o Brasil de hoje sem analisarmos o passado. Temos contas a pagar com a história. E uma bandeira que é muito bonita, que é a luta por outra cultura política. A gente não fala de nova cultura política, porque sabemos de onde viemos, nossas lutas e tradições que nos acompanham. A gente reivindica outra cultura política, de participação.

Além de pensar cultura enquanto dimensão de direitos aos trabalhadores da cultura, de sociedade e de proteção ao campo, tenho reivindicação que cultura nunca foi bem entendida. Nós acreditamos que deve ser o motor de desenvolvimento de Salvador. Salvador não é uma cidade industrial ou rural, é uma cidade de serviços, do terceiro setor. Não tivemos nunca um projeto de cidade que reivindicasse a cultura como dimensão estruturante de seu desenvolvimento. A gente fala de cultura subordinada ao turismo, ao entretenimento, como foi o debate do Réveillon – que me coloquei duramente contra a posição do prefeito ACM Neto. A gente não vê potência emancipadora da política na centralidade que a cultura pode ter. Cultura pode ser motor de outras agendas. Toda política é para quem, com quem, para que pessoas, que conjunto de sociedade. Isso de algum modo é nos afirmarmos de um lado, reivindicarmos determinada cultura. Falo muito da cultura, mas não é bandeira isolada de outras agendas. Não é isolada da reivindicação principal, que é a reivindicação de uma cidade de direitos, democrática, feita para outras pessoas.”

 

O capital político de seu nome para a esquerda baiana

“Quando a gente fala do familismo na cultura, estamos falando das oligarquias, heranças patrimoniais, política como patrimônio. Isso deve ser combatido de maneira radical. [Estamos falando] de pessoas que têm dinheiro para fazer campanhas, todas as estruturas, pessoas herdeiras da política. No meu caso, só sou herdeira da memória. A gente não pode comparar uma coisa com a outra.

Uma coisa é oligarquias, familismo, herança dos acúmulos inescrupulosos de capital e poder. No meu caso, sou herdeira de tradição, ancestralidade, como cada um de nós é herdeiro. Sou herdeiro de uma história e me sinto muito honrada com isso. São temas diferentes. Tradicionalmente, a direita se locupletou, construiu, acumulou. Nossa bandeira a gente não pode aceitar acumulação. Sou herdeira de um homem assassinado, retirado de seus direitos. Isso em nenhuma hipótese pode ser comparado com quem acumula, rouba, desapropria do pobre para acumular pra si. Essa tradição nós vamos combater de maneira radical.

 

Iniciativas da gestão municipal para a cultura em Salvador

“A nossa luta em relação às políticas culturais precisa lidar com a questão central, que é orçamentária. Salvador tem um dos piores investimentos na área de cultura do país. O Brasil é assim, não é só Salvador, mas Salvador tem orçamento muito inferior a cidades como Recife, que é cidade-irmã. A gente precisa dizer que quando a área não tem investimento é impossível pensar em política pública. Um dos maiores desafios é debater o orçamento da cultura. É diálogo que vamos precisar travar com o Executivo, no próprio Legislativo. Precisamos colocar isso na agenda da cidade, pensar justiça orçamentária. Da mesma forma que se fala em justiça tributária, precisa falar de justiça nos investimentos da cidade, e isso não é algo que se conquista rapidamente. Do mesmo jeito que temos que lutar por orçamento, temos que lutar por institucionalidade. São dois pilares muito importantes da vida pública: orçamento, que destina recursos, e institucionalidade, que garante as políticas. Dito isso, acho que a gente começa a poder pensar projetos e projetos de leis ou emendas que venham a qualificar o debate na cidade.

Mas queria falar de uma coisa anterior, que é um dos nossos maiores desafios. Estamos diante de uma situação complicada, que é a questão da pandemia, isolamento social, que impactam sobremaneira a cultura, interferem ativamente em nossas atividades. Estamos falando de práticas culturais tradicionais, como eventos, festas. Para além de todas as pautas que a gente colocou no programa, temos que lidar com a questão tanto da volta das atividades, dos protocolos de retomada. Os entes municipal e estadual têm a política de interditar a atividade e não dialogar, apresentar saídas. Entramos com promoção do diálogo e encontro de outras saídas. Sinto que vamos precisar incidir muito diálogo atento a isso, aos protocolos de retomada. Acho que esse vai ser nosso primeiro desafio, ainda que não seja colocado em nosso programa, porque a cidade está exigindo uma posição em relação a isso.”

Foto: Reprodução/ Facebook
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Composição conservadora da Câmara Municipal de Salvador

“Essa é uma questão bem desafiadora. Precisa resolver isso dando densidade política à oposição. Meu compromisso é organizar a oposição, entender o que é oposição. O PT fez a posição de que devemos retomar oposição com partidos verdadeiramente de oposição – o PT, o PCdoB, o PSB e o PSOL. A primeira tarefa é apresentar projeto com densidade política. Quero me colocar desse jeito. Garantindo nosso projeto, é investir também na capacidade do diálogo, porque existem muitas maneiras de dialogar. Precisamos ser capazes de colocar na pauta o projeto de justiça social, de equidade, que combata as violências, independente do campo ideológico que a gente habita. Nesse sentido, temos que ter capacidade técnica de promover, ter projeto de oposição com densidade política, capacidade de diálogo no que é comum a todos. Queremos ou não queremos uma cidade justa, de direitos, promotora de justiça social?

[Tem de] ser capaz de criar esse diálogo tecnicamente, apresentando leis, emendas, alternativas. Elegemos bancada de nove mulheres. Dessas, três são do campo da oposição – que nesse caso somos cinco, as Pretas por Salvador são três. Somos cinco, mas somos mais, se a gente pensar nossas equipes. Mas estamos com mais seis mulheres de centro-direita. Temos muitas agendas de combate à violência contra a mulher, promoção de igualdades. Somos mulheres-mães. Vamos ter debate das mães. Como é ser mãe em Salvador? AS famílias de Salvador majoritariamente são famílias monoparentais chefiadas por mulheres. E se pensasse projeto de complementação de renda para essas mulheres? Esse não é um debate partidário de espectro político, é debate comum na cidade de Salvador. Acho que vamos ter que enfrentar aquilo que nos une, não aquilo que nos separa. Tenho honra de ser do campo político de onde venho e onde afirmo meus vínculos, mas temos uma Salvador inteira a ser reconstruída. Os índices de Salvador são injustos, violentos demais. Não podemos seguir caminhando dessa maneira. Em nome dessa Salvador em comum, para todas as pessoas, de direitos, vamos precisar dialogar e encontrar tecnicamente em nossa ação parlamentar.”

 

Como diminuir o impacto socioeconômico da pandemia

“Essa é pergunta complexa, porque tenho dito que os problemas que a gente tem com a pandemia são prévios. A pandemia agrava a situação nas cidades, no Brasil. Viemos num processo de crise econômica, política e social. É diferente de outros países e outros lugares, já vínhamos sentindo dimensões como a fome, falta de habitação. Os nossos problemas não começam com a pandemia, eles são agudizados com a pandemia. Então, é importante que a gente faça essa análise. Essa eleição em específico tem dimensão que é o seguinte: vamos ter tarefa muito dura que é atacar a questão mais próxima – fome, falta de habitação, violência, desigualdades -, mas não podemos perder de vista que estamos numa crise do país. A exemplo, estamos batalhando por um plano de vacinação.

Não vamos poder ter ação na Câmara que desconsidere o que está acontecendo em âmbito nacional. A gente vai ter uma legislatura muito marcada pelo que acontece em âmbito nacional. As cidades vão ter que atuar de modo a mitigar a crise e também apresentar saídas. Acredito que as cidades tenham o desafio de apresentar uma saída. Podemos criar uma rede de legislaturas que podem mudar, inclusive, a correlação de forças hoje colocada no Brasil. Essa ideia deve ser norteadora do nosso mandato. Se o país entra em crise e tem fome no Brasil, as cidades precisam responder a isso, como criar democracia que combata, seja com alimento na escola, distribuição de alimento, legislação, fiscalizar a execução de políticas pelo Executivo. Nosso maior desafio vai ser entender o momento, entender a crise e criar alternativas e imaginar saídas. Deveremos ter um mandato muito criativo no sentido de imaginar as saídas que precisam ser adotadas para o enfrentamento da crise.”

 

Retorno às aulas presenciais

“A vida não se define por decretos. Não se define a vida das pessoas por decreto. Óbvio que são mecanismos de proteção, mas precisa substituir aquilo que está ausente. Dez meses sem aula, sem experiência, precisa-se apresentar outras alternativas à supressão daquela atividade; alternativa àquelas famílias. Sou favorável ao não retorno às aulas. Não temos plano de vacinação, vivemos uma insegurança sanitária enorme. Mas precisamos substituir essa ausência com outras políticas. Acho que a gente precisa de medidas que amparem melhor os cidadãos, a sociedade. Sempre defendi que medidas possam ser colocadas no lugar da ausência de políticas… Quando diz que não tem atividade, as pessoas não conseguem… Elas saem. É uma questão de consciência, mas tem a dimensão de que tem pessoas que não têm casa; tem pessoas que vivem em um cômodo com outras cinco, seis pessoas. Impossível imaginar que seguirão em casa. Precisa apresentar saídas: sai como, com quem, de que jeito. Acho que a Câmara tem muito a acrescentar, no sentido de fiscalizar quanto propor medidas acessórias que possam qualificar essas medidas.”

 

Eleição para a Mesa Diretora da Câmara de Salvador

“A bancada do PT fez avaliação de apoiar Geraldo Júnior [candidato do MDB à recondução ao cargo]. Apresentamos pontos inegociáveis. Não foi apoio sem colocar pontos fundamentais pra gente. Primeiro, autonomia entre os poderes, fundamental para o Partido dos Trabalhadores que a Casa atue de maneira independente. A participação como pauta inegociável. No conjunto de propostas quando falamos de “outra cultura política” é participação total. Foi uma carta de 14 pontos colocados ao atual presidente da Casa, em que ele se compromete com essas práticas. Colocamos o plano para mitigação do problema de saneamento, a participação em relação à revisão do PDDU, a manutenção de negociação de servidores da Casa, que a agenda trabalhista siga. E o presidente para ter esse apoio se comprometeu com essas agendas. Isso é uma coisa.

Agora, sem dúvida, nossa grande tarefa enquanto maior bancada de oposição, nossa maior tarefa é que não tem relação com a Presidência da Casa, que o espaço da oposição seja garantido. Somos minoria, mas vamos precisar qualificar espaços, que o presidente garanta esses espaços. Vai precisar regimentalmente garantir que o espaço da oposição seja espaço ouvido. Achoh que isso que está no centro do nosso trabalho, que, aí, sim, é trabalho de dois anos para construir um campo de densidade política ao trabalho da oposição. Que daqui a dois anos seja capaz de colocar um nome da oposição para disputar. O desafio é do respeito à voz da oposição e nesse sentido tivemos esses pontos acolhidos, e observados.”

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