Publicado em 05/11/2019 às 14h00.

‘Não precisa ser da igreja para ouvir música gospel’, afirma Filipe França

Expoente do gênero gospel, o jovem de 19 anos será representante da Bahia em turnê na Angola em 2020

Bianca Andrade
Foto: Instagram/ Arquivo Pessoal
Foto: Instagram/ Arquivo Pessoal

 

Salvador nunca negou a sua pluralidade na música. Terra do axé, do pagode e do arrocha, a capital baiana tem grandes expoentes em outros ritmos como por exemplo o rock, com Raul Seixas, Camisa de Vênus e Pitty. E se procurar mais um pouco dá para puxar um outro gênero desse caldeirão, o gospel.

Aos 19 anos, o jovem Filipe França será um dos representantes baianos da música gospel fora do Brasil com turnê marcada para março de 2020 em Angola.  Nascido em Salvador, morador do bairro São Caetano, o rapaz se interessou pela música ainda criança, mas só conseguiu se dedicar ao sonho de ser cantor início de 2019.

Sua carreira teve início na Primeira Igreja Batista, localizada em São Caetano,  e em pouco tempo conseguiu fundar o Ministério Filipe França e banda, assinando contrato para a gravação do seu primeiro EP, na Gufo Records, conhecida por produzir artistas baianos como o grupo Harmonia do Samba, a cantora Ivete Sangalo e É o Tchan.

Em entrevista ao bahia.ba, o rapaz, que garante ter passado por muita coisa na vida até se encontrar na música, contou um pouco da sua história e dos seus planos para a carreira. Confira o bate-papo:

Para quem ainda não te conhece, quem é Filipe França?

Sou um menino sonhador, que vivo os sonhos de Deus para a minha vida. Antigamente eu tinha vários sonhos, mas a partir de um momento eu decidi entregar nas mãos de Deus e pelo cuidado dele hoje eu sou vivo.

Com um ano de idade eu perdi minha mãe e o meu pai nunca foi presente, então acho que por esse motivo a sociedade olhava para mim com o pensamento de que quando eu fosse crescendo eu iria me tornar um menino revoltado, seria alguém que não daria certo. Eu tive um passado que dizia isso para mim, mas pelo cuidado de Deus hoje dei certo. Ele colocou pessoas específicas no meu caminho para que eu desse certo.

Minhas tias e primas sempre foram mães para mim e os meus tios foram meus pais. Eu sempre tive pessoas que me consideravam como filho mesmo não tendo a ligação sanguínea.

Você vem de uma família evangélica, nunca teve curiosidade em saber ou conhecer outras religiões?

A minha família por parte de mãe é da Igreja Evangélica e o meu pai é do Candomblé, mas ele sempre me disse que o caminho certo que eu deveria seguir era o evangelho. Foi a igreja onde eu congregava que me colocou no judô, encontrei uma força para continuar na igreja. Eu não digo que foi a religião, digo Jesus.

Como é para você essa diferença na religião, sua família evangélica e seu pai do Candomblé? Em algum momento você chegou a entrar em conflito?

Eu acho bem tranquilo, meu pai ele é bem respeitoso nesse quesito, eu também respeito muito ele. Temos uma relação de pai e filho muito bacana, independente do que a gente viveu no passado. Nunca tivemos essa infantilidade de ficar competindo para saber qual religião é a certa ou a melhor, nem ficar menosprezando. Sempre nos respeitamos muito.

Foto: Instagram/ Arquivo Pessoal
Foto: Instagram/ Arquivo Pessoal

 

Com quantos anos você percebeu que queria seguir a carreira musical?

Percebi que queria seguir a carreira musical no começo desse ano. Até o meado do ano passado eu estava pensando em voltar com a carreira de atleta, mas esse ano foi um divisor de águas para mim, no qual eu vivi coisas que eu não imaginava viver e percebi que Deus tinha reservado esse caminho para mim.

Além da música você se dedicou por muito tempo aos esportes como atleta de Judô, como era para conciliar as duas profissões?

Foi algo muito louco para mim, porque eu sempre tive contato com a música desde pequeno, mas até então eu não tinha levado aquilo a sério. Em 2014 eu entrei no coral da antiga igreja que eu congregava, e as pessoas começaram a me incentivar a fazer aquilo e dizer que eu teria futuro. Em 2015 eu e um amigo criamos um canal no Youtube e com o desenvolvimento desse nosso projeto eu percebi que não dava mais para continuar no esporte e precisava me dedicar a música.

Em 2017 foi o meu último ano competindo pelo Esporte Clube Vitória.

Como você se sente tão novo tendo grandes responsabilidades? Nós temos representantes em diversos gêneros, mas a música gospel ainda é algo que está crescendo no estado.

É um grande peso, mas para mim também é uma honra. Eu fico muito feliz, mas as vezes eu me pego pensando no que eu posso fazer para que isso venha a mudar. Para que o nosso estado venha a ter uma acensão gospel. É uma grande novidade na minha vida, mas eu estou me divertindo muito.


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Você será um dos representantes da música gospel baiana fora do Brasil, como está sendo para você pensar nesta tarefa?

Eu estou muito feliz com essa oportunidade. Já representei o meu estado dentro do tatame e agora vou fazer isso com a música, tá sendo muito bacana, uma experiência nova, algo que nunca vivi.

Meu produtor me ligou dizendo que surgiu o convite de um pastor que tinha visto meus vídeos e pediu para que eu fosse cantar lá. Eu estava em casa com a minha família e a notícia circulou muito rápido, no dia seguinte eu tive um evento e todo mundo já sabia desse show na Angola. Minha tia ficou muito feliz, ela é evangélica e fã de alguns artistas então para ela, ter alguém na família fazendo isso é muito significante.

Quais são as suas inspirações na música gospel? Você tem algum artista fora desse meio que leva como inspiração?

Aqui na Bahia tem muita gente boa, no meu bairro mesmo tem um cantor muito bom que é o Edi Venas. Eu sou um cara bem eclético, escuto um pouco de tudo, tem o Clóvis Pinho do Preto No Branco, que é baiano, tem o Alessandro Villas Boas.

Fora da música gospel eu admiro muito o Léo Santana. Eu prezo pelos artistas do meu estado, admiro muito ele, o trabalho que ele faz, a história de vida, a pessoa que ele é hoje e tudo que conquistou.

Apesar de ter embarcado profissionalmente agora na música, você tem pessoas que acompanham o seu trabalho desde 2015, quando começou com os covers na internet. Como é a sua relação com eles?

Tenho uma relação de irmandade com as pessoas que me acompanham. Normalmente são pessoas que me assistem cantar na igreja e passam a me seguir nas redes sociais, mas tem muita gente que me acompanha desde quando eu era atleta e já me dizia que tinha que seguir a música.

Em 2020 você lança o seu primeiro EP, o que os fãs podem esperar?

Vão ser músicas inéditas e algo bem a minha cara mesmo, a minha identidade. Recebemos músicas de alguns compositores e estamos selecionando o que vai combinar melhor com essa nossa proposta.

Foto: bahia.ba
Foto: bahia.ba

 

Como você observa o mercado gospel?

Tem surgido muitos cantores novos e fico bem feliz que o pessoal está se movimentando em relação a isso e dando as caras. Estamos quebrando paradigmas e alcançando novos ares, a exemplo de Priscila Alcântara, até o próprio Preto no Branco que foi indicado ao Grammy Latino, dá pra ver que estamos expandindo.

É necessário frequentar a igreja para admirar a sua música?

Eu creio que hoje em dia a tecnologia facilita o acesso a música, seja ela de qual gênero for. Tem muita gente sendo alcançada com as músicas gospel, mas não são da igreja. Então não tem isso, não precisa ser da igreja para ouvir música gospel.

Acho que nunca foi desse jeito, Jesus está ali para todos. A música acaba trazendo muita gente para a Igreja, não é feita com esse intuito, mas acaba criando essa curiosidade. Já vivi isso inclusive, pessoas falando que sentiram vontade de ir a Igreja depois de ouvir a minha música.

Priscila Alcântara por exemplo (ex-Bom Dia & CIA), vem trazendo um público jovem para a Igreja através da música dela e do posicionamento. Ela alcança pessoas que ninguém conseguia alcançar a algum tempo.

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