Publicado em 11/04/2016 às 06h00.

PMDB apresentará reivindicações a Neto para eleição, diz Geddel

O presidente do PMDB baiano deixa claro que vai brigar pela vaga de vice na chapa do prefeito, ao cobrar do gestor um reconhecimento do tamanho e importância do partido

Rodrigo Aguiar
Entrevista - Geddel Vieira Lima6
Foto: Clara Rellstab / bahia.ba

 

Aliado do prefeito de Salvador, ACM Neto, o PMDB não pretende facilitar a vida do democrata na montagem da sua provável chapa para concorrer à reeleição e deixa claro que vai brigar pela vaga de vice, ao cobrar do gestor um reconhecimento do tamanho e importância da sigla.

“O PMDB se acha legitimado para apresentar, no momento oportuno, reivindicações ao prefeito. E o fará. Somos o maior partido, com o maior tempo de televisão, uma grande estrutura, militância importante dentro de Salvador, candidaturas importantes a vereadores, o deputado federal mais votado do estado”, enumera o presidente do PMDB baiano, Geddel Vieira Lima, em entrevista ao bahia.ba.

Um dos articuladores pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff e amigo do vice-presidente Michel Temer, Geddel não descarta uma participação em um eventual governo do líder peemedebista, mas afirma que não está no seu “horizonte” assumir qualquer cargo federal. Seus planos, diz, são a longo prazo. “Se eu tiver que retornar à vida pública, meu projeto é eleitoral, é em 2018”, afirma.

O presidente do PMDB baiano critica a ideia de novas eleições como solução para a crise política, questiona se o PT foi “golpista a vida toda” ao pedir o impedimento de presidentes anteriores e critica a estratégia do governo de lotear cargos em troca de votos contra a impugnação – tática definida por ele como uma “galinha gorda”.

Ao ser questionado se o governo Dilma tem chances de se manter com tal expediente, Geddel repete a máxima de que “tudo é possível”, mas questiona as consequências para a vida pública nacional. “Eu me preocupo é se eventualmente o impeachment for derrotado. Aí teremos um governo sem credibilidade, se arrastando por três anos, enfrentando graves problemas, sem base parlamentar, tendo que negociar e lotear o governo como o que há de rebotalho na política nacional”, opina.

Entrevista - Geddel Vieira Lima1
Foto: Clara Rellstab / bahia.ba

 

bahia.ba – Nos últimos dias, surgiu a defesa de eleições gerais antecipadas como uma solução à crise política. Até o presidente do Senado, Renan Calheiros, se manifestou sobre essa possibilidade. Qual é a sua opinião?

Geddel Vieira Lima – Isso é uma manobra diversionista. Todos os remédios para o Brasil estão na Constituição. É fazer cumprir a Constituição e as coisas avançam. Acho que isso não prospera. É um assunto que tende a morrer rapidamente.

.ba – O governo e aliados têm se apegado ao discurso de que o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff é um golpe, porque não haveria crime de responsabilidade. Há sustentação para o impedimento?

GV – Eles vão, na realidade, evoluindo de acordo com as conveniências. Diziam que não acreditavam, depois criaram essa coisa de que impeachment é golpe. Depois, disseram que é golpe quando não há crime. A grande realidade é que está estabelecido na Constituição o julgamento político da presidente pelo Congresso Nacional – Câmara e Senado – quando houver um pedido de impeachment formalizado sustentado em crime de responsabilidade. Na minha avaliação, a presidente cometeu crime de responsabilidade. Isso está exposto no pedido. Vai caber à Câmara dos Deputados nos próximos dias avaliar se essa é ou não a posição real. É bom frisar que, ao longo da sua história, o Partido dos Trabalhadores pediu o impeachment de todos os presidentes democraticamente eleitos. O atual chefe de gabinete da presidente, Jaques Wagner, foi autor de um pedido de impeachment de Itamar Franco. Eles primeiro precisam responder se eles são golpistas, se foram golpistas toda a vida. Isso é discurso político. Estão no direito deles, mas não inibem quem quer que seja de defender as suas posições, como eu defendo. O impeachment é um remédio constitucional e que o Brasil precisa neste momento.

.ba – Como você viu a recente decisão do ministro Marco Aurélio, do Supremo, que determinou ao presidente da Câmara que prossiga com um pedido de impeachment, feito por um advogado mineiro, contra o vice-presidente Michel Temer?

GV – Esse é o maior equívoco que eu já vi um ministro do Supremo Tribunal Federal cometer. Isso é rasgar a Constituição: uma intervenção absolutamente indevida em outro Poder. A Constituição é clara quanto à independência e harmonia dos Poderes. Tanto é assim que o decano do Supremo, o ministro Celso de Mello, negando provimento a outro pedido nesta mesma direção, de desarquivamento de um pedido de impeachment, dá uma verdadeira aula e, juridicamente, coloca Marco Aurélio no lugar dele. Esse é um assunto que não subsiste quando for levado ao plenário do Supremo Tribunal Federal.

.ba – Acredita que outros grupos posteriormente pedirão impeachment de Temer, caso Dilma caia, por causa da questão da assinatura de decretos para abrir créditos orçamentários sem autorização legislativa, um dos pontos no pedido de impeachment contra Dilma?

GV – Temer já se manifestou sobre isso ao Tribunal de Contas da União. No caso específico dos decretos assinados por ele, quando assumiu interinamente a Presidência, havia cobertura orçamentária. Não creio. Terminado esse processo, se eventualmente o impeachment for aprovado, a tendência é que o país se abra para novas expectativas, novas esperanças. Assumindo o governo, que Temer possa montar uma equipe de pessoas qualificadas, responsáveis e comprometidas com o país, enfrentar os graves problemas nas áreas econômica e social e preparar uma transição pacífica, tranquila e serena, procurando entregar o país melhor em 2018. Eu me preocupo é se eventualmente o impeachment for derrotado. Aí teremos um governo sem credibilidade, se arrastando por três anos, enfrentando graves problemas, sem base parlamentar, tendo que negociar e lotear o governo como o que há de rebotalho na política nacional. Isso me assusta e é muito grave.

Entrevista - Geddel Vieira Lima
Foto: Clara Rellstab / bahia.ba

 

.ba – Qual é a diferença entre o que já foi feito anteriormente com o PMDB, na relação de apoio político por cargos, e o que está ocorrendo agora?

GV – Veja bem, não há nenhum pecado em você exercer cargos. Muito pelo contrário. A disputa do poder é a razão da política. Para que, através do poder, as pessoas possam implantar políticas públicas que melhorem a vida das pessoas. Vencer uma eleição disputando pessoalmente, o seu partido ou em alianças, isso evidentemente implica em assumir cargos. O que se está fazendo não é isso. Não se está assumindo cargos em nome de um projeto. Está se transformando cargos importantes na República naquilo que se chama de ‘galinha gorda’, em uma linguagem aqui do Nordeste. Está jogando para cima para ver quem pega, em troca de um voto contra o impeachment. Dois dos mais sagrados ministérios estão sendo colocados no balcão de negócios, que são Educação e Saúde. Isso é absolutamente inaceitável. Nomear políticos e compor com partidos é da democracia. Agora, esse troca-troca, esse balcão desavergonhado, sem ter tempo sequer de analisar currículos e vocações, evidentemente isso só pode piorar a situação do Brasil.

.ba – Quando Marcelo Castro foi nomeado para a Saúde, no final do ano passado, o governo queria segurar o PMDB e deter o avanço do processo de impeachment, correto?

GV – Evidentemente, eu faço a leitura de que aquilo também foi uma troca, naquele momento. Não vejo o Marcelo, meu colega de partido, com tamanho para ser ministro da Saúde. E a maior demonstração disso é que a gestão dele é considerada frágil por todos. Eu acho que, na hora que o governo entra nesse ‘toma lá, dá cá’ sem preocupações mínimas com meritocracia, isso não é bom para o país.

.ba – O chefe de gabinete da presidente Dilma, Jaques Wagner, disse que o impeachment caiu por terra e classificou essa oferta de cargos como natural, chamando de repactuação. Ele ainda disse que essa chamada repactuação só podia ser feita com quem estava com o governo (leia aqui). Como o senhor vê as declarações do ex-governador?

GV – O chefe de gabinete tem que dizer isso mesmo, afinal ele é chefe de gabinete. O Jaques que eu conheço bem sempre procura um discurso bonito para acobertar a coisa mais imoral que possa estar sendo feita na política. Ele é hábil nisso, tenho que reconhecer. Ele está dizendo o que tem que dizer, arranjando esse termo bonito, repactuação, para qualificar esse ‘toma lá, dá cá’, esse fisiologismo, essa galinha gorda que o governo está fazendo com um único objetivo: tentar manter-se no poder. Não tem outro. Essa tem sido a história recente do PT depois que o povo brasileiro descobriu o que essa gente foi capaz de fazer.

.ba – Vê possibilidade de a estratégia adotada pelo governo dar certo?

GV – É a única que tem. Tudo é possível, evidentemente. Agora, se der certo, como o país ficará depois? Que maioria eles construirão no Congresso? Com que credibilidade vão governar? Com que equipe governariam o país por três anos? Um país que está estraçalhado na economia, na questão social, na política. Não vejo mais nenhuma chance nenhuma de essa gente levar o Brasil a bom tempo, a bom porto, até 2018.

Entrevista - Geddel Vieira Lima3
Foto: Clara Rellstab / bahia.ba

 

.ba – Eu imagino que o senhor esteja participando ativamente das conversas em Brasília. Contra o loteamento dos cargos, qual é a estratégia da oposição?

GV – Não tem muito o que fazer. Isso é uma questão de rua. Se a sociedade quiser, o parlamento vai ouvir. No mais, é conversar, mostrar que se pode construir um novo caminho, um novo rumo, que se pode arrumar o país. Ninguém está aguentando mais. As empresas estão fechando suas portas, o desemprego está aumentando, os Estados estão quebrados. E esse governo perdeu qualquer condição de apresentar propostas reais para tirar o país da crise. Imagine só, uma coisa simbólica. Como pode uma presidenta da República, primeira presidente mulher a ser eleita, perder as condições de ir à televisão no Dia Internacional da Mulher falar às mulheres brasileiras, com medo de que as panelas pipoquem nos lares desse país? Não há mais condição. Evidentemente, tudo é possível. Estão loteando tudo, oferecendo terrenos na lua. Estão entregando a máquina pública brasileira, já tão comprometida com o aparelhamento que eles fizeram ao longo dos anos, ao rebotalho da política nacional. Afinal de contas, eu lhe pergunto: o que está sustentando isso? O que o governo do PT sinaliza adiante para permanecer? Qual é a política econômica? Que proposta ele apresenta? Se chegar à Presidência, acho que o Temer tem que definir de forma clara políticas públicas que tirem o país dessa situação.

.ba – E qual seria esse receituário?

GV – Eu não posso antecipar. Eu sou amigo do vice-presidente da República e membro da executiva e do diretório nacional do partido. Eu acho que a situação existente no momento não permite a ninguém, que não seja o governo, a ficar falando sobre propostas de governo. Nós não estamos em uma eleição. Estamos em um momento dramático. O que sei é que o Temer, com a experiência que tem, cercado por boas cabeças, tem esboços muito claros do que precisa fazer. A primeira coisa é austeridade, seriedade, resgatar a confiança da população no poder público.

.ba – O senhor participaria deste eventual novo governo?

GV – Se você fala em participar atuando diretamente, assumindo cargo, é uma coisa que não está no meu horizonte. Eu tenho gostado dessa situação de ficar mais próximo da minha família, dos meus filhos, cuidar um pouco de outras coisas da minha atividade privada, sobretudo depois da perda do meu pai. Ainda estou arrumando a minha cabeça. Minha ligação com ele era muito forte. Não sei se eu já estou pronto para voltar diretamente à vida pública. Eu estou com projeto mais para 2018. Não posso lhe responder isso com a sinceridade com que normalmente eu costumo responder às questões.

.ba – A presença de Eduardo Cunha na presidência da Câmara não prejudicou um pouco o apoio de parte da população ao impeachment e, de certa forma, deu munição ao próprio governo, que relaciona o impeachment a uma vingança de Cunha?

GV – Não creio que seja por aí. Eu acho que a imagem pública do Eduardo Cunha está muito deteriorada. Isso é inquestionável. A população termina se perguntando: ‘pô, ele faz parte de um partido que pode vir a ser o sucessor; será que não seria trocar seis por meia dúzia?’. É um direito da população. Agora, o Eduardo Cunha é uma pessoa que está sendo avaliada pelo Supremo Tribunal Federal e no Conselho de Ética da Câmara. Não há o que se fazer. São duas instituições que estão trabalhando nessa direção. Há de se aguardar o desfecho disso. Como há de se aguardar o desfecho, através do processo de impeachment, deste desgoverno da presidente Dilma Rousseff.

Entrevista - Geddel Vieira Lima5
Foto: Clara Rellstab / bahia.ba

 

.ba – O PMDB terá candidato à Presidência em 2018?

GV – O que vai emergir de Brasil depende muito do Congresso Nacional. Se o impeachment for aprovado, é uma relação. Acho que, nesse caso, o Temer precisaria ser um homem de Estado, preocupado em como ele vai entrar para a História, preocupado em resgatar o país e equilibrar o Brasil para uma eleição serena, tranquila, em 2018. E que possa assumir alguém que leve adiante, retomando o crescimento e oferecendo emprego aos brasileiros. Se o impeachment não passar, será um quadro absolutamente dramático e aí eu acho que o PMDB pode se posicionar para ter candidato. Se o impeachment passar, eu acho que não. Aí é o Temer conduzir bem o governo e o PMDB não deverá manifestar ambições.

.ba – Se o PMDB assumir a Presidência, o partido ficaria fortalecido para o lançamento de candidaturas próprias nas eleições municipais? Ou, em outras palavras, se Temer assume, é maior a probabilidade de o PMDB lançar candidatura própria em Salvador?

GV – Não, não. A nossa tendência em Salvador é marchar com o prefeito ACM Neto. Salvo se ocorrer algum problema, o que não é o nosso desejo. Tendo o prefeito ACM Neto a capacidade, como tem tido, de reconhecer o nosso tamanho, a nossa importância, mantendo essa relação franca, aberta e correta, não vejo nenhuma razão para pôr fim a essa aliança.

.ba – O secretário de Mobilidade de Salvador, Fábio Mota, já chegou a dizer, há cerca de dois meses, que o PMDB apoiaria Neto, independentemente de ser escolhido para ocupar a vaga de vice na chapa ou não (leia aqui). É esse o entendimento do PMDB?

GV – Não. Eu não tenho conversado com o secretário Fábio Mota, ele não me disse isso e eu não cheguei a ler essa declaração que você coloca. Mas o PMDB se acha legitimado para apresentar, no momento oportuno, reivindicações ao prefeito. E o fará. Somos o maior partido, com o maior tempo de televisão, uma grande estrutura, militância importante dentro de Salvador, candidaturas importantes a vereadores, o deputado federal mais votado do estado.

.ba – Nos últimos meses, saíram algumas especulações na imprensa de que o prefeito sequer se candidataria à reeleição (entenda aqui). O senhor acredita nisso?

GV – Eu li isso. Eu compreendo que, nessa quadra difícil da política nacional, o prefeito tenha o direito de olhar com dúvidas para o futuro. Deixa eu fazer aqui uma boutade. A política virou uma área em que, para trabalhar agora, só recebendo adicional de insalubridade. A moldura não está muito bonita. E quando a gente fica fora da política por um tempo, da militância mais direta, a gente descobre que existe vida inteligente fora dela. Acho que o prefeito tem direito a ter suas dúvidas, mas, ao fim e ao cabo, as pressões serão tão fortes para que ele se candidate de novo que ele terminará candidato à reeleição.

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Foto: Clara Rellstab / bahia.ba

 

.ba – O senhor falou que seus projetos são mais para 2018. Quais são eles?

GV – Eu penso no momento em que vai ter eleições. Eu já fui deputado, ministro, não preciso de cargo público para viabilizar minhas pretensões. Estou estudando, refletindo, me dedicando à família, cuidando do PMDB. Se eu tiver que retornar à vida pública, meu projeto é eleitoral, é em 2018.

.ba – Em 2014, o senhor queria sair candidato a governador, mas acabou saindo para senador. O candidato a governador da chapa foi Paulo Souto. Naquele momento, houve algum compromisso assumido pelo prefeito sobre uma composição futura?

GV – Não. O que aconteceu no passado já é página virada no meu folhetim: 2018 é 2018. Eu acho que construí uma liderança importante no estado, disputei duas eleições majoritárias, tive votação expressiva em função das circunstâncias. Portanto, eu tenho absoluta certeza de que, no campo das oposições, quando chegar em 2018, eu serei pelo menos ouvido nas composições que serão feitas. Mas não houve nenhum compromisso para 2018. Ninguém faz política com compromisso com um prazo tão longo.

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