Publicado em 28/04/2026 às 16h34.

Do TikTok à Globo, novelas verticais viram febre e mudam forma de consumir dramaturgia

Formato criado para o celular cresce, movimenta bilhões e já impacta até a TV brasileira

Edgar Luz
Foto: Divulgação

 

O que começou como vídeos rápidos em aplicativos como TikTok e Kwai virou um dos fenômenos mais acelerados do audiovisual recente. As chamadas novelas verticais, também conhecidas como microdramas, deixaram de ser um conteúdo experimental para ocupar espaço relevante na indústria global, com impacto direto na forma como histórias são escritas, produzidas e consumidas.

A lógica é simples, mas poderosa. Episódios curtos, geralmente entre um e três minutos, exibidos na vertical, ocupando toda a tela do celular. Narrativas intensas, cheias de reviravoltas e ganchos a cada capítulo. Um formato pensado para quem assiste no intervalo entre tarefas, no transporte ou antes de dormir.

Mas por trás da simplicidade aparente existe uma transformação profunda no mercado.

A origem no algoritmo

As novelas verticais nascem na China, por volta de 2018, impulsionadas pelo crescimento de plataformas de vídeos curtos. Ali, o formato ganhou nome próprio. Os “duanju” são séries feitas sob medida para o celular, com episódios extremamente rápidos e roteiros estruturados para manter o público preso.

Duanjus. Foto: Divulgação

 

O modelo cresceu rápido. Em poucos anos, virou uma indústria bilionária. Só na China, o mercado saltou para cerca de 7 bilhões de dólares, impulsionado por produção em massa, baixo custo e alta retenção de audiência.

O segredo está na combinação de narrativa e dados. Os roteiros são moldados a partir do comportamento do público. Histórias de vingança, romances impossíveis, traições e reviravoltas exageradas dominam o catálogo. Tudo pensado para manter o dedo do espectador longe do botão de sair.

O boom global

O que era um fenômeno asiático rapidamente atravessou fronteiras. Plataformas como ReelShort, DramaBox e My Drama passaram a disputar audiência em escala global, com produções traduzidas e adaptadas para diferentes países.

O crescimento impressiona. O segmento registrou aumento de 155% nas instalações pagas no mundo, com avanço também no Brasil. Aplicativos especializados começaram a surgir. O próprio TikTok lançou o PineDrama, dedicado exclusivamente a esse tipo de conteúdo, disponível inclusive no Brasil.

A lógica de consumo também mudou. Em vez de episódios semanais ou capítulos longos, o público maratona dezenas de microepisódios seguidos. Muitas produções completas chegam a 100 capítulos, mas com duração total equivalente a um filme.

O resultado é um conteúdo altamente viciante, com linguagem direta, ritmo acelerado e pouca pausa para respiro.

Influenciadores viram protagonistas

No Brasil, o formato encontrou terreno fértil nas redes sociais. Criadores passaram a produzir novelas verticais de forma independente, muitas vezes com baixo orçamento e alto engajamento.

Nomes como a influenciadora Markelly ganharam projeção nacional ao transformar histórias curtas em fenômenos de engajamento nas redes. Ao lado dela, criadores como Vanessa Lopes, Júlia Puzzuoli e perfis especializados em dramaturgia rápida no TikTok e no Kwai passaram a investir em narrativas seriadas divididas em episódios de poucos minutos, sempre com ganchos fortes e reviravoltas rápidas.

 

Esse tipo de conteúdo aposta em conflitos diretos, romances intensos e situações-limite que capturam o público nos primeiros segundos. A estética é pensada para o consumo no celular, com enquadramentos fechados, legendas grandes e trilhas marcantes, enquanto o roteiro prioriza identificação imediata. Em vez de grandes produções, o foco está na frequência de publicação e na capacidade de prender o espectador até o próximo vídeo, criando um ciclo contínuo de expectativa e retorno.

Ao mesmo tempo, a inteligência artificial começa a entrar nesse ecossistema. Já existem produções com roteiros automatizados e até personagens digitais.

As chamadas “novelas das frutas”, por exemplo, viraram meme e produto ao mesmo tempo. Narrativas simples, exageradas e com estética quase improvisada conquistaram milhões de visualizações, mostrando que o formato não depende necessariamente de grandes estruturas para funcionar.

Novela das frutas. Foto: Divulgação

 

A influência oriental segue forte

Mesmo com adaptações locais, a base estética e narrativa ainda vem do Oriente. As produções chinesas e coreanas continuam dominando o modelo, com histórias centradas em romance, poder, vingança e ascensão social.

Títulos como A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário ou A Herdeira Rejeitada seguem uma fórmula clara. Personagens extremos, conflitos rápidos e finais sempre em aberto para garantir o próximo clique.

Esse estilo, muitas vezes criticado por exageros, é justamente o que mantém o público engajado. Cada episódio termina com um gancho, criando uma cadeia contínua de consumo.

A televisão entrou no jogo

O avanço das novelas verticais não ficou restrito às redes sociais e plataformas independentes. No Brasil, a TV Globo já deu um passo concreto e passou a investir em produções pensadas especificamente para esse formato.

A emissora lançou, em 2025, sua primeira novela totalmente desenvolvida para exibição vertical, Tudo por uma Segunda Chance. Com capítulos de apenas dois a três minutos, a trama foi criada para ser consumida diretamente no celular, seguindo a lógica dos microdramas que já fazem sucesso no exterior.

Além dela, a emissora também desenvolveu outros projetos originais dentro dessa lógica, como Cinderela e o Segredo do Pobre Milionário, com a intenção de criar um catálogo próprio de novelas pensadas desde a origem para o formato 9:16.

Novelas verticas da TV Globo. Foto: Divulgação

 

Paralelamente, a Globo segue explorando versões verticais de conteúdos já conhecidos. Produções como Cheias de Charme ganharam adaptações para o digital, com recortes focados em personagens e núcleos específicos, transformando tramas longas em narrativas rápidas e segmentadas.

Um novo padrão de consumo

As novelas verticais não substituem a dramaturgia tradicional, mas criam uma camada paralela de consumo. Mais rápida, mais direta e mais alinhada com o comportamento digital.

O público que antes assistia televisão no horário fixo agora consome histórias em qualquer momento do dia, em blocos curtos e contínuos.

Essa mudança impacta toda a cadeia. Roteiristas precisam escrever pensando em ganchos constantes, diretores trabalham com enquadramento vertical e a edição se torna mais agressiva. No fim, não é só o formato que muda, é a lógica de contar histórias.

Fenômeno e questionamento

Apesar do crescimento, o modelo também enfrenta críticas. Há questionamentos sobre a qualidade narrativa, a repetição de fórmulas e o uso excessivo de temas sensacionalistas.

Ainda assim, os números mostram que existe demanda. E, mais do que isso, mostram que o público está disposto a consumir histórias de forma diferente.

As novelas verticais não surgiram para substituir o que já existe. Elas surgiram porque o jeito de assistir mudou. E, ao que tudo indica, não deve voltar a ser como antes.

Edgar Luz
Jornalista, apaixonado por comunicação e cultura, pós-graduando em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Atualmente integra as redações do Bahia.ba e do BNews, escrevendo principalmente sobre entretenimento, mas transitando também por outras editorias. Com passagens pelos portais Salvador Entretenimento e Voz da Cidade, tem experiência em reportagem, assessoria e Social Media.

Mais notícias

Este site armazena cookies para coletar informações e melhorar sua experiência de navegação. Settings ou consulte nossa política.