Sugar Baby: garotas se expõem nas redes em busca de coroas abastados
bahia.ba contatou duas universitárias que dizem buscar quem banque seus estudos, viagens e “mimos”; deputada promete discussão e adverte para exploração da mulher

Apesar de a história da moça mais nova que se envolve com um homem mais velho – e vira escrava sexual em troca de vantagens materiais – já ter sido retratada em “Lolita”, de Vladimir Nabokov (1955), em “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado (1958), ou mesmo no antiquíssimo conto de Sara, na Bíblia, empresas que lucram com aplicativos e sites de relacionamentos propagam a “novidade” repaginada nas figuras de “sugar baby” e “sugar daddy”.
O bahia.ba testou um dos apps mais famosos, o Tinder, por meio do perfil fake de um empresário casado de meia idade e, em menos de 48 horas, obteve vários “matches”, boa parte de jovens garotas em busca de uma relação na qual obteriam um patrocinador. As conversas rapidamente avançaram para troca de mensagens via telefone celular.
“Não sou garota de programa. Não costumo me relacionar com caras casados, mas como você diz em seu perfil que é bem sucedido e sabe agradar uma mulher, eu te dou o que você quer e, em troca, você me ajuda com algumas coisas. Coisa pouca”, advertiu uma estudante de Farmácia, de 26 anos, moradora do centro-norte da Bahia, logo após os cumprimentos iniciais. Ela afirmou estar próxima do despejo da casa onde mora e pediu “ajuda” para pagar o aluguel, “se você vier me ver mesmo”.
Menos contida que a primeira, uma pós-graduanda de uma cidade do sul do estado, de 23, identificada em seu perfil na rede social como “sugar baby”, disse ter “1 [daddy] apenas” e admitiu estar em busca de outros. Sempre com a abordagem “e oq vou ganhar?”, ela explicou como ocorre a relação: “Paga a facul, dar mimos, presentes (sic) etc.. Oq eu quero”. Para mostrar o que poderia oferecer em troca, a universitária enviou várias fotos e nudes (as imagens abaixo são reais, mas passaram por um filtro de desenho para não identificar a retratada). Até mesmo chegou a iniciar uma conversa de vídeo.

Ambas se colocaram à disposição para viajar junto e manter um relacionamento “discreto”, sem envolvimento emocional: “Cuidado para não se apaixonar”, avisou uma delas. Especializado em fomentar o “relacionamento sugar”, o site “Meu Patrocínio” (veja aqui) garante que a prática não é prostituição.
“Sugar Baby, na tradução literal, bebê de açúcar, é uma mulher jovem, atraente, inteligente, interessante e que tem objetivos estruturados. É aquela garota que se cansou dos homens imaturos dos relacionamentos tradicionais, que sabe exatamente aonde quer chegar, pessoal e profissionalmente, e que aprecia o melhor da vida. Ela sonha alto e quer colocar todos os seus desejos em prática, o quanto antes. Mas como conseguir tudo isso? Sem dúvida, o caminho mais fácil e atraente é encontrando um homem mais velho, já no ápice da profissão, bem-sucedido, cavalheiro, elegante, que sabe o valor de uma mulher: um Sugar Daddy”, aponta.
O site ainda assegura que “dinheiro não é tabu”, ao explicar o papel do “sugar daddy”: “Ele é generoso e quer ajudar a Sugar Baby a conquistar tudo o que deseja, você será mais um dos casais sugar. Ele vai investir nos sonhos dela, vai mimá-la com presentes caros, viagens maravilhosas, jantares em restaurantes exuberantes e tudo mais o que ela almejar”.

Contatada pelo bahia.ba, a deputada Luiza Maia (PT), presidente da Comissão de Direito das Mulheres na Assembleia Legislativa, condenou o que considerou como “uso da mulher como coisa descartável, uma mercadoria” e prometeu levar o caso para a reunião do colegiado, na próxima quarta-feira (30), às 11h, com a secretária estadual do setor, Julieta Palmeira.
“Internet é uma coisa para o bem e para o mal. Nessa sociedade de exclusão, muitas mulheres não têm oportunidades e não têm personalidade formada para fazer o enfrentamento contra o que agride, fere e destrói a sua dignidade. Essa concepção machista distorce qual é o papel da mulher. Eu fico muito preocupada, porque quem é adulta, depois dos 30, já tem capacidade de discernir, mas uma pessoa jovem, uma adolescente, fica vulnerável a esse tipo de modismo. Por isso o foco é o corpo da mulher, enquanto jovem, enquanto tem o padrão que eles definem como bonito. É lastimável porque querem destruir uma geração. Mas o fundo disso é essa postura da sociedade, que não quer pensar em outras coisas que não sejam os seus lucros. Essa é mais uma frente que os movimentos feministas precisam enfrentar. Sem falso moralismo, sem ser hipócrita, a gente não pode deixar que as nossas crianças e adolescentes embarquem em uma onda dessa”, lamentou a parlamentar.
Desde 2015 no mercado, o site Meu Patrocínio informou à reportagem que conta atualmente em sua plataforma com 284 mil usuários cadastrados, dos quais 192 mil são mulheres.
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