Publicado em 14/10/2019 às 09h52.

Coletivos antifascistas de Bahia e Vitória exaltam reflexão de Roger Machado sobre racismo

Para a Frente Esquadrão Popular, "aula" de Roger sobre o assunto foi "fundamental"; Brigada Marighella avaliou a reflexão como "lúcida" e "corajosa"

André Carvalho
Foto: Felipe Oliveira/Divulgação/EC Bahia
Foto: Felipe Oliveira/Divulgação/EC Bahia

 

A declaração do treinador do Bahia, Roger Machado, sobre o racismo estrutural no Brasil uniu tricolores e rubro-negros neste domingo (13), gerando reações positivas dos coletivos de torcedores de esquerda dos arquirrivais.

Para a Frente Esquadrão Popular, do Bahia, a “aula” de Roger sobre o assunto é “fundamental” para que o assunto não seja “silenciado”. Já a Brigada Marighella, do Vitória, avaliou a reflexão de Roger como “lúcida” e “corajosa” e disse que “a luta contra o racismo deve estar acima de qualquer clubismo”.

A abordagem do treinador do Bahia sobre o assunto, que também foi elogiada pelo governador Rui Costa (PT), ocorreu após o pedido de uma repórter para que ele comentasse a ação promovida pelo Observatório da Discriminação Racial do Futebol, em que ele e o treinador do Fluminense, Marcão, dois únicos técnicos negros na Série A,  entraram em campo com uma camisa da organização.

“Com relação à campanha, não deveria chamar atenção ter repercussão grande dois treinadores negros na área técnica, depois de serem protagonistas dentro do campo. Essa é a prova que existe o preconceito, porque é algo que chama atenção”, disse. “À medida que a gente tenha mais de 50% da população negra e a proporcionalidade não é igual, a gente tem que refletir e se questionar”.

O treinador do Bahia, então, seguiu comentando o assunto, dando uma verdadeira aula sobre racismo estrutural. “Se não é há preconceito no Brasil, por que os negros têm o nível de escolaridade menor que o dos brancos? Por que 70% da população carcerária é negra? Por que quem morre são os jovens negros no Brasil? Por que os menores salários, entre negros e brancos, são para os negros? Entre as mulheres negras e brancas, são para as negras? Por que que, entre as mulheres, quem mais morre são as mulheres negras?”, questionou. 

Aproveitando o fato de a pergunta ter sido feita por uma mulher, Roger perguntou: “Quantas mulheres negras têm comentando esporte? Se não há preconceito, qual a resposta?” Para o técnico, tal ausência mostra que vivemos “um preconceito estrutural, institucionalizado”.

Ele comentou sobre os avanços implementados pelos governos petistas em políticas públicas, que “resgataram a autoestima dessas populações, que ao longo de muitos anos tiveram negadas essas assistências básicas”, ressaltando que, neste momento, elas “estão sendo retiradas”.

“Na verdade, esses casos que vêm aumentado agora, de aumento de feminicídio, homofobia, os casos diretos de preconceito racial, é o sintoma. Porque a estrutura social, ela é racista. Ela sempre foi racista. Nós temos um sistema de crenças e regras que é estabelecido pelo poder, e o poder é o poder do Estado, é o poder das comunicações, é o poder da igreja. Quando esses poderes não enxergam ou não querem assumir que o racismo existiu e não querem fazer uma correção nesse curso, muitas vezes dizem que estamos nos vitimando, ou que há um racismo reverso”, afirmou.

Por fim, Roger disse que “negar e silenciar é confirmar o racismo” e que sua posição como negro na elite do futebol confirma o racismo estrutural da sociedade brasileira.

“O maior preconceito que eu senti não foi de injúria. Eu sinto que há racismo quando eu vou no restaurante e só tem eu de negro. Na faculdade que eu fiz, só tinha eu de negro. Isso é a prova para mim. Eu sou a prova de que há racismo porque eu estou aqui”, concluiu.

Para a Frente Esquadrão Popular, coletivo de torcedores de esquerda do Bahia que atua em defesa dos valores democráticos do clube e se identifica com a luta antifascista nas arquibancadas, a declaração de Roger enseja um questionamento: “Se nossa torcida é majoritariamente negra e parda, porque o Conselho Deliberativo é formado majoritariamente por pessoas brancas?”

Os rubro-negros da torcida antifascista Brigada Marighella, compartilhando o vídeo da declaração de Roger, afirmaram no Twitter que “independentemente do escudo estampado em sua camisa”, Roger é uma “referência”. 

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