Publicado em 21/10/2019 às 12h14.

Escola pública de Lauro de Freitas homenageia as Ganhadeiras de Itapuã

CMEI Dr. Djalma Ramos inaugura o Museu da Memória Ganhadeira e homenageia as Ganhadeiras de Itapuã em projeto educativo que valoriza grandes personalidades negras da cultura brasileira

André Carvalho
Foto: Maria Pinheiro
Foto: Maria Pinheiro

 

Localizado próximo à comunidade quilombola Quingoma e à aldeia indígena Thá-Fene, no município de Lauro de Freitas (BA), o Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Dr. Djalma Ramos, no bairro de Vida Nova, inaugurou recentemente um museu homenageando as Ganhadeiras de Itapuã, em um projeto educativo voltado a crianças de 0 a 5 anos que valoriza grandes personalidades negras da história e da cultura brasileira.

O “Museu da Memória Ganhadeira” reúne objetos, instalações, fotografias, textos, indumentárias e referências da culinária, promovendo experiências lúdicas fundamentadas no legado ancestral do grupo de mulheres que atua no resgate, valorização e difusão da cultura afro-brasileira na Bahia.

O espaço integra o projeto “Um amor chamado… as Ganhadeiras”, que tem por objetivo promover o encontro das crianças com as narrativas e histórias de resistência e ancestralidade das Ganhadeiras de Itapuã. Na última sexta-feira (18), a escola foi palco do encontro entre integrantes do grupo e as crianças da escola – familiares, professores da rede municipal de Lauro de Freitas e representantes da comunidade quilombola Quingoma também estiveram presentes.

O evento contou com uma visita ao “Museu da Memória Ganhadeira”, apresentações artísticas das crianças do CMEI e uma roda de samba com as Ganhadeiras de Itapuã, que em 2020 terão suas histórias narradas pela Escola de Samba Viradouro no carnaval do Rio de Janeiro.

“Para nós é de extrema importância trabalhar com personalidades negras para crianças tão pequenas, porque essas crianças precisam de referenciais negros para se assemelharem, para perceber que ser negro é bom, ser negro é valoroso, diante de tantas adversidades, diante de tantos preconceitos que vivenciamos diariamente, seja de forma explícita ou velada”, afirmou ao bahia.ba Cristiane Melo, vice-diretora do CMEI Dr. Djalma Ramos.

Cristiane explica que desde 2013 o CMEI desenvolve tais atividades, sendo o sambista Riachão a primeira personalidade homenageada. “A partir disso, passamos a refletir sobre quem eram as mulheres que entravam no Djalma, essas mulheres que educam as nossas crianças, essas mulheres que sofrem constantemente violências”, disse ela, pontuando que as novas ações desenvolvidas evidenciaram o protagonismo de mulheres negras – foram homenageadas Mariene de Castro, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e, agora, as Ganhadeiras de Itapuã.

Coordenadora pedagógica do CMEI Dr. Djalma Ramos, Fátima Santana Santos afirma que o desenvolvimento do projeto “Um amor chamado… as Ganhadeiras” exerce forte impacto, também, na formação dos professores no âmbito de uma educação antirracista.

“Do ponto de vista da formação de professores, eles se autoformam também dentro dessa proposta. Ou seja, ensino e aprendizagem caminham juntos. Ao mesmo tempo em que eles criam metodologias de ensino com as crianças voltadas para uma educação antirracista, eles também aprendem. É dialógico”, afirmou ao bahia.ba.

Nos últimos anos, o CMEI Dr. Djalma Ramos foi reconhecido com diversos prêmios regionais e nacionais pela excelência do projeto político e pedagógico voltado para as relações étnico-raciais na Educação Infantil.

“As ganhadeiras nascidas na praia de Itapuã…”

As Ganhadeiras de Itapuã – grupo formado em 2004 por mulheres que se reuniam para conversar sobre as antigas tradições de Itapuã e para cantar e dançar samba de roda – tem esse nome em homenagem às mulheres que trabalhavam com “lavagem de ganho” (lavando roupas) ou vendendo peixe e quitutes em seus balaios pela cidade de Salvador.

Tal legado é absorvido no projeto “Um amor chamado… as Ganhadeiras”, incentivando as crianças a mergulharem no universo da cultura popular por meio da dança, da música, da culinária, das brincadeiras e de todo o patrimônio imaterial que as Ganhadeiras detêm.

Para Maria Hermelina Dias, a Dona Mariinha, de 86 anos, o projeto “tem que ter bastante cuidado para não terminar”. “Vamos esperar que prefeitos e governadores nos ajudem a encontrar um lugar para ir, porque nós não vamos pra Itapuã só, nós vamos para o Brasil, para Salvador, para todo lugar. É isso que nós queremos”, disse a líder das Ganhadeiras à reportagem.

O desejo de Dona Mariinha vai ao encontro do projeto “Ganhadeiras na Escola”, que deve ter início em 2020, com a meta de atender, no mínimo, quatro escolas por mês. Ivana Muzenza, produtora executiva das Ganhadeiras de Itapuã, julga de extrema importância a multiplicação do acesso destas mestras da cultura popular nas escolas de modo a criar “pertencimento nas crianças”.

“Falar sobre a nossa ancestralidade é resistir. Então, a gente pensa isso muito junto. E eu espero que esse projeto seja aprovado por algum meio de recurso da cultura, pode ser governo, particular, mas a gente pretende levar esse projeto para as crianças das escolas públicas, principalmente”, disse Ivana ao bahia.ba.

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