Vaza Jato: conversas de Lula mantidas sob sigilo enfraquecem tese de Moro, diz jornal
PF gravou 22 telefonemas do ex-presidente após ordem para interromper escuta que revelou diálogo com Dilma em 2016

Conversas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) gravadas pela Polícia Federal em 2016 e mantidas em sigilo desde então enfraquecem a tese usada pelo hoje ministro Sergio Moro para justificar a decisão mais controversa que ele tomou como juiz à frente da Lava Jato. Os diálogos foram revelados em reportagem veiculada neste domingo (8) pela Folha de S. Paulo, em parceria com o site Intercept Brasil.
Segundo a publicação, em 16 de março de 2016, cinco horas depois de mandar interromper a escuta telefônica que autorizara no início do cerco da operação ao líder petista, Moro tornou público um diálogo em que a então presidente Dilma Rousseff tratou com Lula de sua posse como ministro da Casa Civil.
A divulgação do áudio de 1min35s incendiou o país e levou o Supremo Tribunal Federal a anular a posse de Lula, às vésperas da abertura do processo de impeachment e da deposição de Dilma. Para a Lava Jato, o telefonema mostrava que a nomeação de Lula como ministro tinha como objetivo travar as investigações sobre ele, transferindo seu caso de Curitiba para o STF.
Mas registros inéditos obtidos pela Folha e analisados em conjunto com o site The Intercept Brasil indicam que outras ligações interceptadas pela polícia naquele dia, mantidas em sigilo pelos investigadores, punham em xeque a hipótese adotada na época por Moro, que deixou a magistratura para assumir o Ministério da Justiça no governo Jair Bolsonaro (PSL).
A reportagem teve acesso a anotações dos agentes que monitoraram Lula, com resumos de 22 conversas grampeadas após a interrupção da escuta em março de 2016. Elas foram gravadas porque as operadoras de telefonia demoraram a cumprir a ordem de Moro e o sistema usado pela PF continuou captando as ligações.
Os diálogos, que incluem conversas de Lula com políticos, sindicalistas e o então vice-presidente Michel Temer (MDB), revelam que o petista disse a diferentes interlocutores naquele dia que relutou em aceitar o convite de Dilma para ser ministro e só o aceitou após sofrer pressões de aliados.
O ex-presidente só mencionou as investigações em curso uma vez, para orientar um dos seus advogados a dizer aos jornalistas que o procurassem que o único efeito da nomeação seria mudar seu caso de jurisdição, graças à garantia de foro especial para ministros no Supremo.
As anotações mostram que Lula estava empenhado em buscar uma reaproximação com Temer e o MDB e indicam que seus acenos eram bem recebidos pelo vice-presidente, na época visto como fiador da transição para o novo governo que seria formado se Dilma fosse afastada do cargo.
A PF escutou duas conversas de Lula e Temer. Na primeira, eles marcaram uma reunião para o dia seguinte, e Lula disse a Temer que a rejeição enfrentada pelos políticos numa recente manifestação pró-impeachment mostrava que o avanço da Lava Jato criara riscos para todos os partidos, não só o PT.
Na segunda ligação, após discutir a situação de um aliado do vice-presidente no governo, o petista prometeu ser um parceiro e disse que eles deveriam atuar como “irmãos de fé”. Segundo as anotações dos agentes da PF, Temer respondeu a Lula dizendo que “sempre teve bom relacionamento” com ele.
Embora os registros mostrem que os policiais prestaram atenção a todas as conversas do ex-presidente, o telefonema de Dilma foi o único que a PF anexou aos autos da investigação sobre Lula nesse dia antes que Moro determinasse o levantamento do sigilo do processo.
Mensagens que integrantes da Lava Jato trocaram no aplicativo Telegram, obtidas pelo Intercept e analisadas em conjunto com a Folha, mostram que um dos policiais na escuta alertou os investigadores para o telefonema de Dilma assim que ouviu a ligação e foi instruído a produzir um relatório.
Não foi o que ocorreu com as outras conversas. O mesmo agente usou o Telegram para avisar que Lula também falara com Temer e fez um resumo do primeiro diálogo entre eles, com duas horas de atraso. Nenhum dos investigadores que participava do grupo reagiu à informação no Telegram.
Moro diz não saber de telefonemas
O ministro da Justiça, Sergio Moro, disse que não soube dos telefonemas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que a Polícia Federal grampeou e manteve sob sigilo em 2016, quando era o juiz à frente das ações da Lava Jato em Curitiba.
“O atual ministro teve conhecimento, à época, apenas dos diálogos selecionados pela autoridade policial e enviados à Justiça”, afirmou o Ministério da Justiça, por meio de nota.
A Polícia Federal não quis fazer comentários sobre a seleção dos áudios que anexou aos autos da investigação em 2016.
Mais notícias
-
Política19h58 de 07/06/2026
Lula veste camisa da Seleção e manda recado: ‘O Brasil é dos brasileiros’
A publicação foi feita poucas horas antes da vitória da Seleção Brasileira por 2 a 1 sobre o Egito
-
Política18h48 de 07/06/2026
Nikolas rebate professora da UFBA após vídeo sobre racismo: ‘Povo fresco’
Parlamentar criticou a educadora após um vídeo em que ela relatou ter se sentido incomodada durante um atendimento
-
Política17h00 de 07/06/2026
Jerônimo Rodrigues indica esposa de Mário Negromonte Jr. para vaga no TCM
A vaga está aberta desde agosto de 2025
-
Política16h40 de 07/06/2026
STM julga recurso de Bolsonaro em ação sobre patente militar
A defesa tenta afastar o ministro brigadeiro Joseli Parente Camelo do processo que pode resultar na perda da patente
-
Política11h17 de 07/06/2026
Alckmin cita impactos da guerra no Oriente Médio sobre setor aéreo
Vice-presidente defendeu cooperação internacional para enfrentar alta dos custos da aviação
-
Política10h52 de 07/06/2026
Bobô destaca avanço das obras preparatórias da Ponte Salvador-Itaparica
Deputado citou chegada de equipamentos e montagem de canteiros como sinais do andamento
-
Política10h26 de 07/06/2026
STF retoma debate sobre responsabilidade das redes sociais no Brasil
Corte volta a analisar recursos de Google e Meta sobre dever das plataformas digitais
-
Política06h45 de 07/06/2026
Alcolumbre sinaliza avanço da PEC da Segurança no Senado
Aliados veem ambiente mais favorável para discutir a proposta ainda em 2026
-
Política06h21 de 07/06/2026
Brasil busca reverter veto da União Europeia a carnes
Governo e setor produtivo intensificam negociações para atender exigências sanitárias
-
Política17h05 de 06/06/2026
Deputado critica ‘repromessa’ da construção da ponte no Rio Jucuruçu em Prado
Parlamentar afirma que projeto foi anunciado em 2022 e não foi concluído










