Convém sempre olhar de banda quando se vê um político chamando outro de corrupto. Não que não seja. Mas porque, salvo raras exceções, nesse campo são poucos os que praticam o que pregam.
O que mais se vê é o uso dos bons princípios, como o dever da seriedade no trato da coisa pública, para atingir os adversários.
Veja o caso de Eduardo Cunha, o presidente da Câmara.
Lula sempre disse aos petistas com os quais dialoga que mais importante do que cassar Eduardo Cunha é preservar a governabilidade de Dilma.
O PSDB, por sua vez, nunca fez segredo que precisava de Cunha para atingir o seu objetivo maior, derrubar Dilma. E em nome disso, mandaram as acusações contra Cunha às favas.
Cunha, por sua vez, barganhou com o impeachment. Quer preservar o mandato para livrar-se da cadeia. Para a oposição, ele oferecia tocar o processo adiante. Para o governo, barrar o andamento.
Deu o governo. O PSDB, que nunca ligou para a imoralidade de ver um bombardeado de denúncias no comando da Câmara dos Deputados, passou a ligar. E os partidos governistas, 12 deles, o PT incluso (não poderia deixar de ser) subscreveram documento de apoio a Cunha.
No Brasil, a imunidade instituída para garantir ao parlamentar a liberdade plena no exercício do mandato, virou impunidade para corruptos. E agora a pergunta: e Cunha escapa ou não?
Da presidência da Câmara, com certeza não, é o que dizem os baianos em Brasília. Da cassação, talvez. Além dos apoios que amealhou negociando com o impeachment, contam em Brasília que ele tem vasto leque de seguidores.
Gente que ele ‘ajudou’ na campanha.
Dê no que der, o caso Cunha virou emblemático. Serviu para ilustrar a desfaçatez do mundo político. Ou melhor, para desnudar muito satanás pregando quaresma.
Como diria o poeta, é triste, mas é assim.
