Publicado em 06/01/2016 às 12h06.

O lado bom da lambuzada do PT

Levi Vasconcelos comenta polêmica afirmação do ministro da Casa Civil Jaques Wagner, que criticou a reprodução de “metodologias antigas” pelo partido

Levi Vasconcelos
Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula
Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

 

Diz Everaldo Anunciação, presidente estadual do PT, que a fala de Jaques Wagner, ministro chefe da Casa Civil da Presidência da República, não é novidade dentro do PT. E ele tem razão.

Wagner disse em entrevista no final de semana à Folha de São Paulo que o PT perdeu a oportunidade de fazer a reforma política no primeiro governo de Lula (quando estava no auge e dava as cartas). Em vez disso, acabou reproduzindo “metodologias antigas” e arrematou: “Quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza”.

É isso, mas muito mais que isso. Vamos fazer um breve histórico para saber o ponto em que estamos. Nos tempos em que encarnava o papel de vestal da pureza, lá bem atrás, o PT sabatinava novos filiados, alguns segmentos eram contra financiamento privado de campanha, além de portar-se como o apontador-mor de corruptos, do Planalto Central até os mais longínquos grotões.

Na medida em que foi crescendo, foi desprezando tais princípios (e perdendo também muitos dos defensores). Aí entra o que Wagner quis dizer: chegou ao poder central e ao contrário de resgatar a antiga pregação e, embevecido pelas facilidades do poder, entrou de sola no esquemão.

A Roubalheira e ‘O Projeto’ – No Congresso Nacional do partido, realizado em junho do ano passado em Salvador, essa crítica, a de Wagner, ficou bem nítida. Mas ainda aí, os petistas não viram com clareza a cumbuca em que se meteram: aplaudiram entusiasticamente o nome de João Vaccari Neto, o ex-tesoureiro do partido que está preso no embalo da Lava Jato.

Até ali, o PT ainda cultuou outro equívoco: se Vaccari cometeu delitos aos olhos da lei, não foi para o bolso e sim para “o projeto”, como se os efeitos da corrupção pudessem ser distinguidos pela cor ideológica das motivações.

Óbvio, como diz Wagner, os petistas não sabiam jogar esse jogo no qual as elites, que sempre mandaram no Brasil, são mestras. E não mediu a escala e nem as consequências. O resultado está aí, a Lava Jato com a vastidão da corruptela que sempre esteve encruada (e incubada) no jogo político, na era petista ganhou escala monumental.

Tudo Podre – A oposição capitaneada pelo PSDB tenta induzir a nação a acreditar que a roubalheira que se vê é obra petista para sustentar o seu projeto de poder. E por isso acha Dilma ilegítima na Presidência da República.

Conversa para quem ainda acredita em contos de fadas. Ora, a lambuzada petista teria que ter algo de bom, ainda que pelo avesso. Em setembro, depondo na CPI da Petrobras, Ricardo Pessoa, o dono da UTC, disse explicitamente: “Pagar propina é uma questão de sobrevivência. E citar o nome de quem recebia poderia trazer consequências danosas”.

O mesmo Ricardo Pessoa doou R$ 7,5 milhões a Dilma e R$ 8,7 milhões a Aécio. O dinheiro sujo era só o de Dilma? Com muito boa vontade digamos que com Dilma era o toma-lá-dá-cá. Com Aécio era uma “aposta no futuro”.

A lambuzada petista teve isso de bom. Mostrar escancaradamente que o jogo é sujo pela própria natureza. Aliás, o PT sabia. Jogou e se lambuzou.

Levi Vasconcelos

Levi Vasconcelos é jornalista político, diretor de jornalismo do Bahia.ba e colunista de A Tarde.