Publicado em 22/11/2015 às 13h26.

Orquestra baiana corre risco de acabar, adverte maestro

Maestro da Osba falou ao Bahia.ba, após apresentação no Lançamento do Projeto Diversidade de Rua

Rebeca Bastos
Carlos Prazeres regendo a Osba no palco do TCA
Carlos Prazeres regendo a Osba no palco do TCA. (Foto: Maurício Serra/Secom)

Em conversa com o Bahia.ba, o Maestro da Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba),  Carlos Prazeres, falou sobre a crise que a Orquestra enfrenta e as alternativas para superar o momento. Também falou sobre a criação do movimento #VivaOsba, manifesto lançado para chamar atenção sobre a situação alarmante da Orquestra. Entre os problemas apontados pelos músicos estão a incompatibilidade salarial com o mercado e a impossibilidade de ser uma orquestra pujante quando se tem 40 músicos a menos do mínimo ideal.

Na Bahia desde 2011, Prazeres se mantém apaixonado pela ideia de levar a música clássica para todos os cantos. Obstinado pelo objetivo, já quase dobrou o público da Orquestra e segue levando sua música a vários segmentos da sociedade, como ocorreu no último dia 31 de outubro, quando a orquestra se apresentou para moradores de rua na Praça das Mãos, no bairro do Comércio. Também é o caso deste domingo, no concerto gratuito a ser realizado pelos músicos na Igreja de São Franciso.

Criada em 1982, apesar de ter o apoio do governo do estado, por meio da Secretaria de Cultura, os recursos não têm sido suficientes para contratação de músicos e viabilização de grandes concertos.  A companhia, que integra os corpos artísticos do Teatro Castro Alves, já teve a regência de conceituados maestros e já acompanhou grandes nomes da música clássica, como Luciano Pavarotti, e fez apresentações ao lado de ballets como o Kirov, Bolshoi e da Cidade de Nova York, além da participação na montagem de várias óperas.

“Todo artista tem de ir aonde o povo está”

Uma orquestra Sinfônica tem que ser parceira de sua sociedade, se a gente estivesse em Montreal poderíamos ficar ensaiando e apresentando em nossa sala e esperando o público chegar para assistir nossos concertos. Mas não, estamos em Salvador, no Brasil. Uma orquestra sinfônica que esteja no Brasil, em qualquer estado, tem a obrigação de ir aonde o povo está. Essa frase tão celebre do Milton  Nascimento  se aplica para a gente também. Nós temos que buscar levar a música clássica em qualquer lugar.

Eu tenho um pensamento e uma postura de esquerda, e nesse sentido procuro levar o melhor para todo mundo.  Muitas vezes,  quando os políticos de esquerda assumem o poder, eles acham que só ofertar a cultura de massa ao povo e promover a política do pão e circo é lamentável. Acredito que é obrigação promover o acesso à opera, à música de concerto e ao balé e também, claro, ao melhor do popular, porque todo o povo merece ter acesso a bens culturais de qualidade. É claro que uma orquestra sinfônica é um organismo caro, e exatamente por isso,  precisa e merece ser usufruído por toda a população, e não apenas por uma pequena elite.

Por isso, nós da Osba damos apoio às causas que formos convidados e apoiamos o Movimento Organizado dos Moradores de Rua ao realizar um show aberto ao público no dia no último dia 31 de outubro na Praça das Mãos, no Comércio e também por isso estamos aqui hoje em respeito a esse grupo social.

Com a violinista Priscila Plata em apresentação do Cine Concerto. Foto: Reprodução Facebook
Com a violinista Priscila Plata em apresentação do Cine Concerto. Foto: Reprodução Facebook

#VivaOSBA

A Orquestra Sinfônica da Bahia é única oficial representante do Estado, existem outros projetos importantíssimos, como o Neojiba e a Orquestra da Universidade Federal da Bahia, mas que têm propostas complemente diferentes. Uma é um projeto de ação social e a outra é uma orquestra de universidade que tem o seu propósito a cumprir dentro do mundo acadêmico.  Manter a Osba viva é primordial para levar o melhor da arte para a população. E nós da Sinfônica da Bahia tem feito um trabalho que aumentou o seu público em 192% nos últimos quatro anos, justamente porque decidimos sair do nosso castelo e caminhar, ganhar as ruas.

Outro destaque importante é que as pessoas não têm mais  medo de entrar no Teatro Castro Alves (TCA), como se aquele espaço fosse restrito apenas  para convidados especiais. Não, o TCA é para todos. E acho inclusive que algumas formalidades deveriam ser abolidas, não vejo problema em alguém ir o teatro de bermudas, por exemplo, porque o mais importante é que a gente consiga trazer para os teatros esse público novo que vem sendo conquistado pela música clássica.

É muito recompensador quando a gente se depara com um público formado por gente jovem, pessoas que carentes de oportunidades de acesso.  E o melhor desse movimento que não exclui nada  nem ninguém por ser complementar, pois  a pessoa certamente não vai parar de ouvir o que já ouvia antes.  Costumo dizer que nós somos uma espécie de  traficantes do bem em fazer esse trabalho de invadir territórios que não eram tomados por música como  a que a gente faz. É que a gente tem tentado  fazer,  levando a música clássica de uma maneira leve e construtiva e espero que a gente consiga ter mais apoio do nosso governo pois continuando do jeito que está a Osba pode acabar em breve e a gente não vai poder fazer muita coisa.

Tentativas com o governo

Temos conversado com o governo para manter o organismo funcionado, e nesse sentido a  contratação de novos músicos é fundamental. Estamos estudando novas maneiras para esta contratação, que antes era feita por concurso público, que não é o ideal. Neste sentido,  a coordenação da Orquestra dentro da gestão pública também não á a melhor forma, pois enfrentamos alguns problemas para a aquisição de novos instrumentos, aluguel de partitura e capitação de recursos que são coisas que precisam passar pela burocracia do Estado e atrasam  o andamento mais rápido de tudo.

Temos um apelo que também pode ser explorado comercialmente, como é o caso do Cine Concerto, que tem a capacidade de lotar o teatro Castro Alves em duas edições. Estamos pensando em novos formatos, como uma concessão pública para que uma organização possa cuidar da administração da Orquestra com um CNPJ próprio,  como  o que já acontece com a Neojiba por exemplo. Para eles é muito mais fácil comprar instrumento,  pois não precisam  licitar. Outra questão é o salário dos músicos, que está defasado em relação aos de outros estados. A ideia é que as novas contratações sejam feitas por CLT, tudo no sentido de manter conosco os grandes talentos que sofrem assédio constante de outros países. Hoje, a Priscila Plata Rato, que é uma das principais violinistas do país, só está conosco porque está fazendo mestrado aqui na UFBA,  ano que vem deve ir embora também.

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