Antonio Risério realiza ciclo de seminários no Rio Vermelho

    "Brasil, iluminai os terreiros" acontece entre 4 de julho e 22 de agosto e 8 temas aborda "temas brasileiros"

    Foto: Escola da Cidade / Divulgação

    O antropólogo e escritor Antonio Risério realiza a partir do dia 4 de julho, no Tropos Co. (Rio Vermelho), um ciclo de seminários intitulado “Brasil, iluminai os terreiros”, em que aborda temas históricos e sócio-antropológicos brasileiros. Será uma série de 8 encontros, sempre às terças e às 19h, em que temas como “Falsas singularidades nacionais” serão discutidos longe dos vícios e clichês acadêmicos em voga.

    Risério é autor de, entre outros, “Avant-garde na Bahia” (1995), “Uma história da cidade da Bahia” (200), “A utopia brasileira e os movimentos negros” (2007) e “A cidade no Brasil” (2012). Os seminários oferecem 32 vagas, mediante pagamento de uma taxa de R$ 400 (que pode ser dividido em 2 vezes no cartão de crédito). As inscrições podem ser feitas no local (R. Ilhéus, 214, Parque Cruz Aguiar – Rio Vermelho), entre 14h e 20h; pelo telefone (71) 3023-3307; ou ainda por email: atendimento@tropos.com.

    Abaixo, um resumo de todos os temas, com suas respectivas datas:

    1. FALSAS SINGULARIDADES NACIONAIS (04 Julho)
    Não deixa de ser engraçado ver brasileiros encherem a boca para falar que “o Brasil não é para principiantes”. Porque o Brasil está longe de ser o único país do planeta que pode dizer isso de si mesmo. E será sempre bom desconfiar da especificidade da maioria das coisas que damos como especificamente brasileiras. Tanto no plano popular quanto no erudito, como na tese das “ideias fora do lugar” de Roberto Schwartz. Mas nosso destaque será dado a uma leitura do “jeitinho brasileiro”.

    2. A NOVA HISTÓRIA OFICIAL DO BRASIL (11 Julho)
    Existe hoje uma nova história oficial do país. Uma “contra-história”. Ela foi construída basicamente a partir da década de 1970 e se converteu no discurso historiográfico-ideológico hegemônico entre nós, gravando-se até nos “parâmetros curriculares” do Ministério da Educação, no governo de Fernando Henrique Cardoso. Trata-se de uma “contra-história” no sentido de que se configurou como uma negação quase rigorosamente simétrica da velha história que se cristalizou a partir da criação do IHGB. E transforma a trajetória nacional num filme de bandido e mocinho.

    3. BRASIL: CARÁTER, VIOLÊNCIA E CORDIALIDADE (18 Julho)
    A questão central será a noção de “cordialidade”, no sentido buarquiano da expressão. Mas mostrando que ela não se reduz à fantasia do herói-sem-nenhum-caráter, nem exclui de modo algum, como muitos pensam, a marca da violência que atravessa nossas vidas. Vamos falar da visão marioandradina. Abordar a fantasia deo que os brasileiros fecham os olhos para a violência que marca a nossa história e as nossas relações sociais. Relembrar a tese de que a “cordialidade” pode ser a nossa contribuição original para a civilização mundial.

    4. O MITO DO GENOCÍDIO DOS ÍNDIOS (25 Julho)
    Definições básicas são muitas vezes indispensáveis para clarear o caminho e não gastar energia à toa em discussões desnecessárias. Afinal, o que é mesmo que significa o conceito de “genocídio”? Genocídio é guerra de limpeza étnica. Neste sentido, o que não faltou, ao longo da história brasileira, foram investidas e práticas violentas contra grupos indígenas. Genocídio, não. De Thomé de Sousa ao Marquês de Pombal, pelo menos, a política oficial da coroa lusitana é cheia de contradições, mas não quer o extermínio e sim a incorporação dos índios. E a prática teve de se medir o tempo todo com as leis.

    5. BRASIL/EUA: ALGUMAS DIFERENÇAS SOCIORRACIAIS (01 Agosto)
    Existe racismo nos Estados Unidos. Existe racismo no Brasil. Mas são espécies distintas de racismo, em decorrência da contextura histórica de cada projeto colonizador, da formação cultural diversa dos colonizadores de cada um desses países e do modo como se desenhou a trajetória social dos povos brasileiro e norte-americano. Para dizer de modo simples, o que se configurou no Brasil foi uma sociedade de natureza mais convivial e conversável, uma sociedade sincrética, ao passo que nos EUA instaurou-se uma sociedade rigorosamente segregacionista, do plano físico ao cultural. Vamos ver algumas consequências disso.

    6. A ALEGRIA BRASILEIRA (08 Agosto)
    Ao contrário do que pensava Paulo Prado, em seu “Retrato do Brasil”, não existem povos alegres e povos tristes. Alegria e tristeza existem em dimensão planetária – e dentro de cada um de nós. Além disso, a alegria não é um sentimento absolutista. Alegria e tristeza não se excluem. O samba ensina. E é verdade que podemos falar de uma alegria brasileira. Ela tem a ver com a nossa formação genética, com a nossa configuração cultural, com o nosso ambiente, com o retrato que gostamos de fazer de nós mesmos, com a nossa informalidade. Tem a ver com o nosso corpo e a nossa alma. Com o nosso corpo porque, não fosse a herança genética, a memória muscular africana, não teríamos quadris girando como giram numa roda de samba.

    7. BRASIL: UM BARROCO TRANSHISTÓRICO (15 Agosto)
    A cultura brasileira nasceu falando a linguagem internacional mais avançada, “de ponta”, da época: a linguagem barroca. É o que vamos encontrar nos primeiros brilhos da criação textual em nossos trópicos, com a “musa praguejadora” de Gregório de Mattos e a antropologia tropical que se materializa nos sermões de Antonio Vieira – barroquismo que vai atravessar a história do texto criativo no Brasil, para chegar às obras de Haroldo de Campos e Guimarães Rosa, entre outros. Barroco também na arquitetura – em especial, com o Aleijadinho –, atravessando séculos, estendendo-se em direção ao Niemeyer da Pampulha e de Brasília. Barroco na música e no cinema. Barroco na escola brasileira de futebol.

    8. BRASIL: A QUESTÃO DA IDENTIDADE (22 Agosto)
    A questão da “identidade” – nacional ou cultural – é certamente complexa. Altamente complexa, seria mais exato dizer. Tal como geral e vulgarmente concebida entre nós, no entanto, ela maiss sugere um fantasma a ser exorcizado ou um peso a ser retirado dos ombros, de modo que possamos caminhar de modo mais livre e criativo, do que uma noção que mereça ser levada realmente a sério. Mas não vamos apressar o passo. Melhor clarear o campo. E discutir com clareza o tema, em seus principais lances e consequências.