Gilka Machado (1893-1980) não é apenas a pioneira da poesia erótica no Brasil. Ela é também uma grande poeta e, bem vistas as coisas, uma das pioneiras no mundo editorial brasileiro.
Em 1915, quando lançou o seu primeiro livro, “Cristais Partidos”, apenas Francisca Júlia (1817-1920) e Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) tinham alguma importância no meio literário nacional.
Além disso, negra, de origem pobre, a autora do verso “sinto pelos no vento”, que arrepiou as letras nacionais e fez Carlos Drummond de Andrade dizer que “Gilka foi a primeira mulher nua da poesia brasileira”, é uma desbravadora de nascença. Congênita.
Vinte e quatro anos fora de catálogo, sua obra volta à circulação no volume “Gilka Machado: Poesia Completa”, lançamento do selo Demônio Negro, do tipógrafo e poeta Vanderley Mendonça.
Nome heróico do mundo editorial brasileiro, Vanderley, que também é esgrimista, vive mirando pontos certeiros das causas perdidas e é responsável por manter certo equilíbrio lítero-ecológico, nem sempre em foco no sistema de megastores e best-sellers. “O projeto do Demônio Negro é editar o que não se edita. Ou por desleixo, desconhecimento, ou porque não é financeiramente viável”, justifica ele, em entrevista ao bahia.ba.
Ainda sobre a origem do Demônio, para chegar ao lançamento em pauta, Vanderley Mendonça relembra que o selo “começou porque eu queria dividir com amigos o que eu gostaria de ver editado, de ser lido e compartilhado… Por isso fazia tiragens muito pequenas, além de produzir artesanalmente. No catálogo, ao longo de 10 anos, fiz Ezra Pound, Augusto de Campos, Sousândrade, Darío, Melo e Castro, Havel, Gomez de La Serna… entre outras raridades. Depois, comecei a garimpar o que estava aqui escondido. E, claro, Gilka, a história dela por si só já valeria o esforço: negra, mulher, poesia erótica…”.
Destacado por suas edições impecáveis, que combinam tecnologia de ponta (substituindo tipos móveis por fotopolímero gravado a laser, por exemplo) e serviço manual/artesanal, o Demônio Negro, que em si é um gesto de ousadia, desafiador dos velhos vícios editoriais, busca a mesma irreverência habilidosa (“ser um amador mais exigente que os profissionais”, no dizer de Valéry) na produção que publica.
Sobre a “parceria” com Gilka, Vanderley não consegue disfarçar o seu gosto dessacralizador. “Na realidade, a poesia de Gilka é o que me fez editá-la, claro. Mas, o que mais me animou foi ela ter recusado o convite para ser membro da Academia Brasileira de Letras (risos)”, diverte-se.
“As mulheres que gozam hoje de plena liberdade literária para cantar as expansões do instinto e as propriedades eróticas do corpo deviam ser gratas a essa antecessora, viúva pobre que ganhava a vida com esforço e gostava de estar ‘toda nua, completamente exposta à volúpia do vento’”, escreveu o já citado Drummond, no Jornal do Brasil do dia 18 de dezembro de 1980, pouco depois da morte de Gilka Machado.
Rediviva com o relançamento de sua poesia sensual e simbolista, a autora de “Meu Rosto” (1947), que abandonou o, digamos, sistema literário, aos 45 anos por “enjoo – da poesia não, mas do ambiente”, volta a exibir sua face necessária em tempos de reconservadorismo galopante.
“Gilka Machado: Poesia Completa” é organizado por Jamyle Rkain que, por meio de uma página no Facebook, criada por ela para reunir informações, ainda escassas, sobre a autora, conheceu o artista plástico Amauri Menezes, neto de Gilka, que era guardião do acervo da avó.
A partir do diálogo eles planejaram a reedição que agora se materializa. Infelizmente, porém, Amauri faleceu sem ver o livro pronto. Jamyle, acatando o pedido da família, tocou a empreitada até o fim. O volume tem 432 páginas e custa R$ 69,90.

