O artista plástico Zivé Giudice reassumiu a direção do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), na manhã desta quinta-feira (6), após quase um ano de que pediu demissão do mesmo cargo, por desentendimentos já superados. Para dar um abraço simbólico no museu e falar um pouco de seus propósitos daqui para a frente, ele recebeu artistas e amigos de diversas gerações e linguagens, com ênfase, evidentemente, para as artes visuais.
Estiveram presentes, entre outros, desde J. Cunha a Tuti Minervino, mas também nomes da música (Jota Veloso, Mário Ulloa), do cinema (Walter Lima, Lula Oliveira) e até mesmo da política partidária, como o vereador Silvio Humberto (PSB), além, é claro, do Secretário de Cultura, Jorge Portugal.
“Eu tenho feito sempre uma declaração aos meios de comunicação que me procuram: ‘Você acha que tem algum artista plástico que tenha mais a cara do Museu de Arte Moderna do que Zivé Giudice? Não tem de forma alguma!”, declarou Portugal ao bahia.ba, saudando a retomada.
Zivé, por sua vez, após agradecer ao secretário “por confiar, de novo, a direção do MAM a mim”, afirmou que “isso é uma garantia de que as artes visuais vão voltar a protagonizar a cena do museu. Não que o museu não se abrirá para as outras linguagens, mas o museu vai dialogar com todas as linguagens na medida em que essas linguagens compreendam qual é o projeto curatorial do museu daqui para frente”.
Diante da comunidade artística, Giudice falou ainda sobre uma mudança importante que, acredita, ajudará a revitalização do MAM: o retorno da gestão de museus para a Fundação Cultural, não mais como competência do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac): “O Ipac tem uma grande importância, mas em questões diferentes, técnicas, patrimoniais. Museu é conceito, linguagem, é outra coisa”, disse.

Em conversa com a reportagem, ele aprofundou a questão, disse que a proposta foi colocada pessoalmente ao governador Rui Costa e que este aprovou e já solicitou a execução, dependendo agora apenas de definições burocráticas.
“Na reunião que tivemos com o governador, colocamos questões cruciais e ele se mostrou muito aberto, interessado e inteligente, sensível à cultura. E isso não é bajulação não, que sempre que alguém elogia um político parece bajulação… Bom, aí ele respondeu a cada um e a mim ele disse: ‘Você tem razão, não faz sentido o museu estar no Ipac. O Ipac tem que cuidar das questões técnicas. Agora, é o seguinte, pensou-se que podia ser por decreto, mas não pode, por que foi Projeto de Lei – então tem que ir para a Casa Civil e tal. Mas é apenas questão de tempo”, garantiu.
Zivé Giudice afirmou ainda que pretende reabrir o restaurante do MAM e já pensa em novas medidas atrativas para o local, sem, no entanto, comprometimento da identidade. “Aqui tem que ter um restaurante, um café, essas coisas que mantém o lugar em atividade”, disse. “Considero o museu o equipamento mais importante da cultura, justamente por essa abertura. Agora, é um museu, não é um mero espaço recreativo, é um lugar de provocação”, completou.
E os diálogos já começaram. O ex-coordenador-geral de Articulação, Formulação e Difusão da Secretaria de Audiovisual do MinC, Lula Oliveira, sugeriu que o espaço cinematográfico do MAM foque na produção experimental, servindo como complemento, independente, à programação da Dimas, que administra as salas Walter da Silveira e Alexandre Robato, no Complexo dos Barris. “O cinema aqui pode ser mais vinculado às artes plásticas mesmo, mas, isso é apenas uma ideia para irmos pensando”, disse.
Provocado pela reportagem a respeito do centenário da Arte Contemporânea, a partir do gesto inaugural de Marcel Duchamp, que em 1917 enviou “A Fonte” a um concurso artístico nos Estados Unidos, e que por enquanto passa em brancas nuvens na Bahia, Zivé disse que ainda há tempo para preencher não apenas esta lacuna, mas lembra outra efeméride importante. “Duchamp é igual a ficar pensando em deus, é um gênio máximo! Mas eu quero lembrar outro acontecimento talvez até mais importante do ponto de vista da arte contemporânea entre nós, que foi o Tropicalismo, aquilo é transformador”.
Ele continua: “E ninguém venha me dizer que botar Gil com um violão em um palco e depois uma canja de Caetano já vale. É muito pouco para o que esses caras representam. O movimento extrapola o território da linguagem musical. Ainda há tempo para fazermos, mas é preciso o esforço coletivo. Dinheiro não teremos, mas estamos abertos a provocações da comunidade artística para pensar e fazer juntos. Mas tem que ser algo forte. Não dá para fazer qualquer coisa, como botar um cara para pintar uma obra sobre o tropicalismo… Não faz sentido. Tem que ser um gesto à altura, substancioso. É preciso discutir o que aquilo ressoa ainda hoje no pensamento das artes. Eu acho Caetano igual a Duchamp”.
Veja um trecho da entrevista em vídeo:

