Hermeto: ‘Executivo da Rhodia disse que eu era muito feio para o palco’

    O artista contou ainda como a história teve uma reviravolta e ele acabou tendo que recusar o convite para ser modelo da mesma empresa

    Foto: Divulgação

    Hermeto Paschoal, um dos maiores músicos do mundo, falou em entrevista à revista Carta Capital desta semana sobre um episódio ocorrido com ele nos anos 1960, quando foi barrado do palco por um executivo da multinacional francesa Rhodia (com negócios no Brasil desde 1919) por ser “muito feio”. Àquela época, Hermeto tocava no Trio Novo, acompanhando Geraldo Vandré.

    “Vandré fazia um negócio, depois entrava o Trio Novo só pra tocar nos desfiles. O líder dessa época era o Cido Bianchi, um grande pianista, grande músico. Ele é que trabalhava na Rhodia e convidou essa turma, Airto Moreira, batera, piano, vibrafone. E eu fui convidado também pra… Mas quando o rapaz, o Lívio [Ragan, diretor de marketing da empresa] me viu, disse que estava muito feio, destoante pro desfile”, contou.

    A história, contudo, teve um desfecho surpreendente, graças à graça infinita do albino: “Aí o pessoal insistiu, pra ele pelo menos ver como era eu tocar. Pra resumir: eu toquei e ele acabou consentindo. Aí já pedia pra os fotógrafos na hora H ficarem passando por mim só. Menino! (…) Fiquei tocando, Nossa Senhora!, eu agradava demais na hora do meu solo. Eu vestia as roupas, e esse cara começou a se agradar do meu jeito”.

    Ele continua: “Na época eu tinha o cabelo compridão. Fui pros Estados Unidos, voltei com o cabelo por aqui, chego na Rhodia, com um mês ou dois vem o convite pra mim, pra ser o quê? Modelo. Modelo da Rhodia, meu amigo. O que que você diz disso? Pra ser modelo da Rhodia!”.

    O músico, no entanto, recusou o convite. E conclui o relato com uma lição lapidar, sobretudo aos mais jovens: “Eu só faço o que eu gosto. Não aceito fazer o que eu não gosto, pode me dar um mundo de dinheiro. E o dinheiro quer que você faça isso, porque o mal do mundo é o dinheiro. Claro que eu não aceitei, que eu não tinha tempo, estava na fase jovem, na fase de estudar mais e tocar cada vez mais…”.