40% das ligações que o Samu recebe mensalmente são trote

    Serviço precisou acionar o MP-BA contra uma pessoa que passa 300 trotes por dia, impedindo socorro a chamados urgentes

    Foto: Alberto Coutinho/ GOVBA

    Se por uma fração de segundos a vida de alguém pode deixar de ser salva, imagine quantas pessoas deram seu último suspiro enquanto esperavam a linha do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) ser desocupada. Essa é uma tormenta que atinge parte da equipe de um serviço que recebe mais de 14 mil trotes por mês.

    Coordenadora do Samu, Patrícia Nogueira revela que cerca de 40% do total de ligações recebidas mensalmente são trote. Somente no mês outubro, o serviço de atendimento pré-hospitalar móvel de Salvador recebeu 38.233 ligações. Destas, 14.120 foram chamadas falsas. Um dos número que realizam trote já é conhecido pela equipe, dada a insistência com que efetua as ligações.

    “Tem uma pessoa que liga de 200 a 300 vezes por dia. Isso é uma média de 4 mil ligações por mês. Impacta muito no nosso serviço. Não temos como saber, mas com certeza alguém já morreu porque a linha estava ocupada com trote”, disse em entrevista à Tribuna da Bahia.

    Diante da quantidade de ligações efetuadas indevidamente pelo mesmo número, o Samu decidiu entrar com uma ação para que o Ministério Público da Bahia (MP-BA) entre com as providências.

    “Estamos finalizando a queixa junto ao Ministério. Podemos também pedir a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) para bloquear a entrada do número dessa pessoa ao 192. Mas, se um dia ela estiver realmente doente, pode processar o Estado ou o Município por omissão de socorro”, explica Nogueira.

    Isso ocorre porque em Salvador ainda não há nenhuma ação para punir pessoas que passam trote a serviços de urgência. Diferentemente de outras cidades, como em Recife e São Paulo, onde lei municipais foram efetivadas e aplicam punições com multa de até R$ 1 mil a quem fizer chamada falsa, dificultando o atendimento emergencial a quem realmente necessita de urgência.

    Falta conhecer o serviço – Outros problemas dificultam o atendimento da equipe do Samu no dia a dia. De acordo com a coordenadora Patrícia Nogueira, a principal delas é decorrente da falta de entendimento por parte da população sobre os serviços prestados.

    “Muita gente aciona e ocupa a linha desnecessariamente com chamados de dor de cabeça, febre, diarreia. A própria população não entende a real necessidade do Samu, apesar de quase 15 anos de existência e palestras. Não cabe atendimento a tudo que não faz parte de resgate e salvamento, que tenha risco iminente de morte, como um AVC, infarto, perfuração por arma de fogo ou arma branca, espancamento”, afirma.

    “Infelizmente tem gente que tem uma dor na coluna e liga solicitando atendimento. Em muitos casos, as pessoas forçam a barra por problemas sociais. Não têm dinheiro para pegar um táxi e ir a UPA [Unidade de Pronto Atendimento], por exemplo, e querem que a ambulância leve. É preciso que usem o serviço com cautela, porque temos apenas 41 ambulâncias para 4 milhões de habitantes em Salvador, sem contar região metropolitana”, completa.

    Recomendações – Em situações conflituosas, sobretudo de urgência, as pessoas tendem a ficar nervosas. Algo que precisa ser controlado durante uma chamada do Samu, para que o serviço seja prestado com excelência. É o que recomenda Patrícia Nogueira.

    “O atendimento começa antes mesmo da ambulância chegar e é preciso calma para exercitar a orientação. Muitas pessoas começam a gritar para mandar logo a ambulância e acabam não passando informações necessárias. O endereço precisa de ponto de referência, precisamos saber a gravidade da situação para mandar o recurso ideal, se é moto, uma ou duas ambulâncias. O Samu entra em qualquer lugar, não existe discriminação. Está aí 24 horas por dia, sete dias por semana. A gente não para”, declara a coordenadora do Samu.