Em Cairu, município arquipélago, o óleo inferniza a vida de ponta a ponta

    'O jornal francês Le Monde disse que esse desastre é o Chernobyl brasileiro. Assino embaixo. É uma catástrofe que dilacera nossa alma'

    Foto: Fernando Amorim
    Foto: Fernando Amorim

     

    A configuração geográfica de Cairu, no baixo sul da Bahia, uma das jóias da coroa portuguesa no período colonial, é singular. Com 36 ilhas, três delas, a própria Cairu (única ligada ao continente, por uma ponte), Tinharé (onde fica Morro de São Paulo) e Boipeba, points turísticos, é o único município arquipélago do Brasil.

    É óbvio que lá as duas atividades principais são turismo e pesca, ambas feridas na alma, doendo em todos os corações, de ponta a ponta. Hildécio Meirelles, três vezes prefeito, ex-deputado, resume o drama:

    — O jornal francês Le Monde disse que esse desastre é o Chernobyl brasileiro. Assino embaixo. É uma catástrofe que dilacera nossa alma. Esperamos que isso passe logo. E que descubram a origem dessa tragédia.

    Foto: Fernando Amorim
    Foto: Fernando Amorim

     

    Em Moreré

    Fernando Amorim, fotógrafo que se aposentou e adotou Boipeba como morada, estava ontem na linha de frente das praias de Cueira e Moreré, onde o óleo chegou em pequenos pedaços, mas em grande profusão:

    — O óleo escorraçou o povo. Quem estava nos hotéis e pousadas pediu as contas, e quem tinha feito reservas cancelou. Hoje (ontem) vimos em Moreré uma coisa nunca vista, restaurantes ao meio dia fechados. Um horror.

    Segundo Fernando, quando o sol bate e esquenta o óleo, acontece o pior:

    — Parte dele derrete e entra na água, fica invisível, mas deixa o mar oleoso.

    Para uma área como Cairu, com manguezais por todos os lados, é um terror.

    Foto: Fernando Amorim
    Foto: Fernando Amorim

     

    Emergência

    Em Ituberá, Leandro Ramos (PSB), prefeito de Igrapiúna e presidente do Consórcio Intermunicipal da Área de Proteção Ambiental (Ciapra), reuniu os colegas da região:

    – Tivemos que decretar estado de emergência.

    Dos 13 municípios do baixo sul integrantes do consórcio, sete têm conexões com o mar: Cairu, Camamu, Igrapiúna, Ituberá, Nilo Peçanha, Taperoá e Valença. Ontem, a Marinha mandou reforços.