
O secretário de Segurança Pública da Bahia, Ricardo César Mandarino, afirmou nesta segunda-feira (10) que não vai tolerar que o poder paralelo ocupe o lugar das forças policiais do estado. A declaração foi dada durante entrevista coletiva que detalhou parte do trabalho de investigação que resultou na prisão de sete pessoas envolvidas nas mortes de Ian Barros Silva, 19, e o tio dele, Bruno Barros da Silva, 29, no dia 26 de abril, em Salvador. Os corpos dos dois, que tinham marcas de tiros e sinais de tortura, foram encontrados no porta-malas de um carro na comunidade da Polêmica, no bairro de Brotas, horas após terem supostamente furtado pacotes de carne no supermercado Atakadão Atakarejo do bairro de Amaralina.
Três seguranças da unidade e quatro homens apontados como traficantes foram capturados durante a Operação Retomada, da Polícia Civil, que cumpriu ordens de prisão preventiva e os mandados de busca e apreensão em residências e também do estabelecimento.
“Nós não vamos tolerar esse tipo de crime bárbaro. Os seguranças, em vez de chamar a polícia para resolver o problema, eles chamaram os traficantes, chamaram o poder paralelo. Existe essa mentalidade ‘bandido bom é bandido morto’. Eles se acham no direito de julgar”, disse Mandarino durante coletiva virtual.
Segundo o secretário, diante do suposto furto, em nenhum momento as polícias Civil e Militar foram acionadas tanto por seguranças quanto por funcionários do Atakarejo
“Eles relataram terem feito ocorrência administrativa. Eles não têm poder de policia. Ocorrência interna é para responsabilizar funcionários deles. Eles tinham o dever de comunicar à polícia. Tinham o dever”, declarou Mandarino, que voltou a apontar componentes de racismo no caso que vitimou tio e sobrinho.
Em uma cítica indireta ao governo Bolsonaro, o secretário disse que episódios como o do Atakarejo “são resultado da propaganda de que a população tem que andar armada”. “Vamos perder o controle da situação. Nos não vamos permitir que o poder paralelo faça o papel do Estado. Quem pensar que vai encontrar moleza com esse tipo de mentalidade está enganado. Provamos pra sociedade inteira que isso não vai ficar impune”, disse Mandarino.
As ações que resultaram nas sete prisões ocorreram simultaneamente nos bairros de Nordeste de Amaralina, Mata Escura, Fazenda Coutos e no município de Conceição de Jacuípe. Participaram da operação cerca 200 policiais civis, militares, agentes de inteligência da SSP e do DPT (Departamento de Polícia Técnica).
Vítimas pediram dinheiro para pagar produtos
Segundo versão de familiares, após serem flagrados por seguranças do estabelecimento, Bruno ligou para uma amiga pedindo R$ 700 para pagar os produtos que teria furtado com Ian. Em um áudio enviado à mulher, Bruno diz que “rodou” e admite que pegou a mercadoria. Fotos que circulam por aplicativos de mensagens e redes sociais. Fotos que circulam por aplicativos de mensagens e redes sociais mostram ele e Ian, rendidos, sentados no pátio do supermercado e ao lado de quatro pacotes de carne. As vítimas aparecem diante de um homem que seria um segurança do estabelecimento.
Procurada pelo bahia.ba, o Atakadão Atakarejo informou, por meio de sua assessoria, que não comenta decisões judiciais e vai continuar colaborando com as autoridades competentes para que o fato policial seja esclarecido o mais rapidamente possível.
“O Atakarejo reitera a solidariedade aos familiares das vítimas de um fato brutal e lamentável. A empresa não tolera qualquer tipo de violência”, diz a empresa.
Em nota divulgada anteriormente, o grupo disse reiterar seu comprometimento com a observância dos direitos humanos e com a defesa da vida humana digna e afirmou não compactuar com qualquer tipo de violência.
“O Atakarejo é uma empresa séria, sólida e cumpridora das normas legais, que possui rigorosa política de compliance e que não compactua com qualquer ação criminosa. Em relação aos fatos ocorridos na última segunda-feira (26), o grupo está colaborando integralmente com a investigação policial e já entregou todos os documentos e imagens do sistema de segurança aos órgãos competentes para o esclarecimento do caso”, informou.
A empresa também diz repudiar veementemente qualquer tipo de violência e se solidariza com a família das vítimas neste momento tão difícil.
“O grupo aguarda o encerramento das investigações, que correm em segredo de justiça, para a elucidação do caso e espera a punição de todos os culpados”, acrescentou.

