Principal adversário da gestão petista em governos anteriores, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) trabalha para encontrar um programa político no qual o eleitor se identifique, depois do esvaziamento da sigla na última corrida presidencial, potencializada com a saída de lideranças do porte de João Doria e Geraldo Alckmin. Atualmente, o partido está sem um projeto coeso, que una lideranças e conquiste o eleitor. Em claro exemplo, na Bahia, o partido que apoia a base do prefeito de Salvador Bruno Reis (UB), não descartou mudar para o lado do governador Jerônimo Rodrigues (PT), em busca de sobrevivência.
Em encontro nacional do partido em solos baianos, o presidente nacional da sigla, Eduardo Leite, chegou a se reunir com o tucanato e o governador. Na ocasião, eles negaram qualquer conversa sobre selar apoio, mas os deputados estaduais falam abertamente no desejo de migrar para a base governista. A ida do presidente da Câmara de Salvador para o PSDB, vereador Carlos Muniz, cuja relação com o vice-governador Geraldo Júnior é destaque, também facilitou esse diálogo.
Segundo especialistas, a nível nacional o PSDB perdeu espaço que ocupava na direita para partidos bem mais fisiológicos e ideologicamente alinhados. Além disso, a estrutura interna do partido sofre um processo de desagregação causado por divergências e disputas. A tese da professora do Departamento de Geografia e Políticas Públicas e do Programa de Pós Graduação em Ciência Política da Universidade Federal Fluminense, Soraia Marcelino Vieira, entrevistada pela Folha de S.Paulo, confirma o que tem ocorrido no território baiano. “Reconquistar uma identidade política é o primeiro desafio do PSDB. Ele ainda não deixou claro seu lugar e isso, para um partido que não fidelizou um eleitorado, é muito arriscado”, afirmou.
Soraia ainda pontua que desde que saiu do governo federal, em 2002, comandado por Fernando Henrique Cardoso, a sigla tinha se firmado na centro-direita e flertava com propostas mais progressistas no campo social e com a agenda liberal no campo econômico. Para ela, em 2018 foi o momento em que deveria ter fixado a posição nesse ponto do espectro ideológico, mas perdeu protagonismo quando a força mais à direita ganhou espaço.
O líder do PSDB no Senado, Izalci Lucas (DF) reforça atribuindo a atual crise à falta de candidatura própria à presidência da República em 2022, em uma eleição polarizada entre a direita de Jair Bolsonaro (PL) e a esquerda de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), além da perda da disputa ao Palácio dos Bandeirantes, depois de comandar o maior Estado do País por 28 anos consecutivos. Apesar disso, membros do partido falam que a debandada não é uma coisa isolada do PSDB e também ocorreu com outras siglas. “O PSDB pela primeira vez não lançou candidato ao Palácio do Planalto, o que foi fatal. Que fosse o Doria, que fosse o Eduardo Leite, que fosse alguém. Isso interferiu muito”, afirmam.
O senador ainda pontua que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, é conhecido pela boa gestão estadual, mas há uma dificuldade em conciliar o cargo com a presidência do partido, que assumiu em fevereiro após a saída de Bruno Araújo. “A gente percebe que ele não tem muito tempo para cuidar do partido, vamos dizer assim. Mas ele acabou aceitando ser presidente no sentido de buscar um novo programa”, diz Izalci.
A construção deste novo planejamento seria uma estratégia para tornar novamente o partido competitivo para 2026. Nesta corrida, Eduardo Leite está realizando seminários em todo o País, ouvindo lideranças, pesquisas e filiados, como ocorreu em Goiás. A ideia é atrair de volta o eleitor que se absteve no último pleito e os que, mesmo votando, não consideravam Lula e Bolsonaro candidatos ideais.
“Sempre fomos um partido que teve identidade, que teve proposta concreta. Precisamos urgentemente encontrar um programa que o eleitor se identifique e tenha confiança e que o PSDB possa defender. Então o partido precisa ter uma nova linguagem, tem que ter de fato alguns temas que o eleitor entenda. Se você tem 500 propostas, não tem nenhuma. Então tem que ter aí alguns três ou quatro temas que o PSDB tem que se posicionar”, defende Izalci.

