Sob Bolsonaro, Abin omitiu do gabinete de transição riscos de violência na posse de Lula

    Relatórios citavam invasão no Capitólio e previam ‘ação violenta por atores extremistas’, incluindo ameaça a aeroportos

    Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

    Ainda na gestão de Jair Bolsonaro (PL), a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) excluiu o gabinete de transição do governo Lula (PT) dos informes sobre riscos de violência durante a posse presidencial, em 1º de janeiro. A informação é da coluna de Guilherme Amado, no portal Metrópoles.

    Segundo a publicação, dentre o material omitido da equipe do atual presidente está o relatório “Perspectiva de ação violenta por atores extremistas no contexto da posse presidencial”, produzido em 27 de dezembro, 12 dias antes dos atos golpistas de 8 de janeiro.

    Conforme a coluna, o documento apontava os movimentos de deslegitimação do Estado e supremacistas brancos e neonazistas como principal fonte de ameaça extremista à posse. “Observam-se (…) iniciativas de espelhamento de movimentos originados no exterior e importação de agendas políticas e narrativas conspiratórias (…), o que eleva a preocupação em relação à ocorrência de incidentes como a invasão do Capitólio”, diz trecho do relatório, citando a invasão do Congresso americano por apoiadores de Donald Trump, após a vitória de Joe Biden.

    De acordo com a Abin, os esforços golpistas vinham crescendo desde os protestos ocorridos em Brasília, em 12 de dezembro, quando houve a diplomação de Lula. Na ocasião, bolsonaristas saíram dos arredores do QG do Exército e chegaram a tentar invadir a sede da Polícia Federal (PF) e incendiaram ônibus e carros

    O relatório indicava que na posse do petista poderiam ocorrer atos de vandalismo e dano à propriedade pública e privada; ação contra caravanas que chegam para a posse; ataques contra opositores em diferentes pontos de Brasília; conflitos pontuais entre grupos antagônicos, de forma não premeditada;
    invasões ou bloqueios de prédios, espaços públicos e infraestruturas críticas; invasão do espaço reservado para a cerimônia de posse e demais eventos; e confronto contra forças de segurança.

    Segundo a coluna, o documento que indicava para riscos de ações violentos foi enviado à Polícia Federal, ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, ao governo do Distrito Federal e ao Gabinete de Segurança Institucional, mas não à equipe de transição, que tampouco recebeu os informes “Indivíduos envolvidos em atos de violência em Brasília/DF” e “Ameaças contra aeroportos no contexto da sucessão presidencial”, ambos de 29 de dezembro.

    Ainda de acordo com a publicação, de outubro de 2022 a 1º de janeiro de 2025 a Abin produziu relatórios mostrando como grupos armados e violentos se preparavam para tentar um golpe de Estado e realizar atos terroristas contra os três Poderes, mas só nove deles foram enviados ao gabinete de transição.

    A Abin ficava sob o guarda-chuva do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), chefiado pelo general Augusto Heleno. Cabia à agência centralizar informações de inteligência, mas depois do 8 de janeiro, para evitar que informações sensíveis tivessem que passar pelo crivo dos militares do GSI, o governo Lula transferiu o comando da Abin para a Casa Civil do ministro Rui Costa (PT).

    Procurada, a Abin não respondeu ao contato da coluna. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que comandou a coordenação do governo de transição, disse que não iria comentar.