‘Câmera’ de Bolsonaro, que permanece trabalhando com ele, nega ter incitado golpe

    Investigado pelo Ministério Público, o militar negou que tenha disseminado mensagens golpistas

    Foto: Reprodução/ Redes Sociais

    Alvo de uma investigação do Ministério Público Federal (MPF), o capitão Andriely Cirino negou, em declarações prestadas ao Exército, que tenha disseminado mensagens golpistas enquanto trabalhou com Jair o então presidente Jair Bolsonaro (PL), no Palácio do Planalto. O capitão Cirino permanece trabalhando para Bolsonaro, agora pago pelo Partido Liberal.

    A apuração em andamento no MP teve origem em um pedido do senador petista Humberto Costa, baseado em mensagens que o capitão, à época na ativa, encaminhou a interlocutores com conteúdo golpista, inclusive pondo em dúvida o resultado das urnas.

    Na ocasião, segundo o The Intercept Brasil, o capitão que enviava material de publicidade do governo aos órgãos oficiais, mudou a forma de operar partir do dia 30, após confirmada a vitória de Lula nas eleições. Desse momento em diante, o capitão passou a encaminhar mensagens diárias, com vídeos e fotos das manifestações golpistas pelo Brasil.

    “Este link tem que chegar aos 4 cantos do Brasil”, comentou o militar ao enviar o vídeo mentiroso de um argentino sobre as urnas, além de arrematar dizendo que o vídeo traz “dados explícitos sobre as fraudes”.

    O mesmo vídeo provocou a suspensão de contas de quem o compartilhou, como deputado federal eleito por Minas Gerais, Nikolas Ferreira, e o ex-líder do governo Bolsonaro na Câmara, deputado Major Vitor Hugo, ambos do PL, além de Monark, o podcaster demitido do Flow após defender a criação de um partido nazista no Brasil.

    A tramitação do caso começou pelo Ministério Público Militar, que entendeu não haver crime militar para ser apurado e, depois, enviou os autos para o Ministério Público Federal.

    No depoimento ao Exército, a partir de um pedido de explicações feito pelo MP já como parte da apuração, o capitão limitou-se a falar genericamente sobre o que fazia no Planalto, sem se referir especificamente às mensagens que encaminhou e que são objeto da investigação.

    Conforme a coluna de Rodrigo Rangel, do Metrópoles teve acesso ao registro das declarações do militar, resumidas em duas páginas anexadas aos autos, ue o capitão afirma que, após ser designado para trabalhar no Planalto, onde esteve lotado no Gabinete de Segurança Institucional e na Secretaria de Comunicação, tornou-se “câmera oficial” da Presidência.

    Porém, sua atribuição era fazer e distribuir imagens dos eventos do então presidente — muitas delas, por sinal, eram retransmitidas em tempo real pelos diversos canais bolsonaristas da internet, o que significa que um funcionário pago com dinheiro público era usado para alimentar as redes de apoio a Bolsonaro.

    Para não se complicar, conforme o site, Cirino nem sequer mencionou ter passado adiante mensagens recebidas de terceiros. Preferiu focar no argumento de que ele próprio não produziu conteúdo de viés golpista.

    “Minha função era acompanhar a comitiva presidencial em praticamente todas as atividades, gravando e produzindo vídeos curtos. Portanto, o que enviava às pessoas de meu convívio direto eram vídeos exclusivos de falas, cerimônias, entre outros, inclusive muitas vezes sendo essas transmitidas ao vivo por diversos canais de comunicação interessados”, afirmou o capitão.

    Ele prosseguiu: “Nunca produzi ou retransmiti vídeos ou qualquer outro produto que não fosse estritamente o ocorrido em tal evento (sic). Então, não tinha cunho ‘fake’. (…) Também nunca produzi qualquer outro material com viés golpista ou posteriormente negando ou não reconhecendo o fim e o resultado do pleito eleitoral”.

    O capitão deverá ser ouvido mais uma vez, agora pela própria Procuradoria.  No entanto, de acordo com a coluna, em ofício enviado ao MP o Exército saiu em defesa do oficial e sustentou não haver crime em sua conduta.