Varejo nacional dispara na Bolsa após Câmara aprovar taxa para compras internacionais

    Votação nesta terça-feira (28) foi simbólica, quando não há contabilização dos votos

    Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados
    Foto: Lula Marques/Agência Brasil

     

    O movimento vem em resposta à medida que tributa em 20% as compras de até US$ 50 em sites estrangeiros, como as plataformas asiáticas Shein, Shopee e Aliexpress, aprovada na noite de terça (28) na Câmara dos Deputados, de acordo com informações do jornal Folha de S.Paulo.

    Hoje, as compras de até US$ 50 são isentas da cobrança do Imposto de Importação –motivo de um embate entre o governo federal e as empresas do varejo nacional, que, pelos preços baixos praticados pelas plataformas asiáticas, alegavam concorrência desleal e enfraquecimento da indústria têxtil.

    Na tarde desta quarta-feira (29) as ações da Lojas Renner subiram 0,76%, enquanto os papéis da C&A avançavam mais de 4%. O Grupo Casas Bahia também operava em alta significativa, de cerca de 2,50%. A Magazine Luiza, por sua vez, até chegou a registrar alta de mais de 1%, mas devolveu os ganhos e passou a operar no negativo.

    A medida também animava investidores de administradoras de shopping centers: Allos, dona do Eldorado, subiu 0,43%, e Iguatemi, 1,08%.

    A taxação de compras internacionais foi incluída no projeto de lei que cria o Mover (Programa Mobilidade Verde e Inovação), um programa do governo para a descarbonização do setor automotivo. A votação nesta terça foi simbólica, quando não há contabilização dos votos.

    “Vemos a aprovação proposta na Câmara como um anúncio positivo e muito aguardado, especialmente para varejistas de vestuário de média renda e players de comércio eletrônico, pois traz um alívio para o cenário competitivo vs. AliExpress, Shein e Shopee”, dizem os analistas de varejo da XP, Danniela Eiger, Gustavo Senday e Laryssa Sumer, em nota conjunta.

    “Não se pode garantir a preservação dos empregos. Os empregos vão sofrer, porque a indústria brasileira, comércio e agronegócio não têm condições equilibradas de tributação para competir com o produto importado, que entrará subsidiado no país”, disse o presidente da CNI, Ricardo Alban.

    O setor defendia uma alíquota ainda maior sobre os importados, de 25%, mesmo que estudos da indústria nacional tenham apontado que a taxação teria que ser entre 35% e 60% para garantir condições de igualdade das empresas brasileiras com os estrangeiros.

    Os analistas da XP também pesam a chegada do Temu, plataforma chinesa chamada de “Amazon com esteroides” que deve desembarcar no país em breve. O aplicativo do marketplace ultrapassou a Shein e a própria Amazon em número de downloads, e, desde maio do ano passado, é o app de compras mais baixado do mundo.

    Antes mesmo de estrear no país, o Temu – cujo mote é “compre como um bilionário”– ultrapassou os aplicativos de Marisa, Mobly, Zara e Pernambucanas, de acordo com a ferramenta de pesquisas de mercado App Magic.

    “O poder de investimento do Temu é um fator competitivo adicional. No geral, vemos as companhias de ecommerce e as varejistas de média renda como as mais expostas ao risco Temu, enquanto acreditamos que a retração das plataformas chinesas nos EUA pode impulsionar ainda mais investimentos no Brasil”, disse a XP.

    A Receita Federal tentou acabar com a isenção de pessoas físicas e taxar as compras com uma alíquota de 60% para fechar brechas para fraudes e sonegação nas compras internacionais. A notícia repercutiu mal e serviu nas redes sociais para ataques de bolsonaristas ao governo Lula.

    Na época, o governo teve acesso às pesquisas de monitoramento que apontaram que a grande maioria dos comentários sobre o assunto foram negativos. A primeira-dama Rosângela da Silva, Janja, e o PT foram contra o fim de isenção. O governo recuou e acabou criando o programa Remessa Conforme com a isenção para as plataformas que aderissem ao sistema.

    O AliExpress informou que foi surpreendido com a decisão da Câmara de elevar os impostos para compras internacionais. Segundo eles, a decisão desestimula o investimento internacional no país, deixando o Brasil como um dos países com a maior alíquota para compras de itens importados.

    A Shein afirma que vê como um retrocesso o fim do regime tributário que garante a isenção de imposto de importação para compras internacionais até U$ 50, “uma vez que ele nunca teve função arrecadatória, a decisão de taxar remessas internacionais não é a resposta adequada por impactar diretamente a população brasileira”, diz em nota.