Conjuração Baiana reforçou Salvador como símbolo do protagonismo popular
Mais do que um levante político, a conspiração expressou demandas sociais profundas, como o fim da escravidão e melhores condições de vida para a população

A Conjuração Baiana, também conhecida como Revolta dos Alfaiates, foi um movimento de caráter separatista e republicano ocorrido em Salvador no ano de 1798. Descoberta pelas autoridades locais no dia 12 de agosto daquele ano, antes de se concretizar, a conspiração uniu militares, artesãos, trabalhadores e líderes populares em torno de ideais inspirados no Iluminismo e na Revolução Francesa.
Mais do que um levante político, a Conjuração Baiana expressou demandas sociais profundas, como o fim da escravidão, a igualdade racial e melhores condições de vida para a população. Apesar de derrotado, o movimento deixou marcas duradouras na identidade histórica da Bahia.
Exploração e insatisfação
No final do século XVIII, Salvador vivia um período de grande instabilidade econômica e social. A exploração colonial imposta por Portugal prejudicava a economia local, concentrando benefícios nas mãos da metrópole e das elites coloniais.
A fome era um problema grave. A escassez de alimentos elevava os preços a níveis inacessíveis, excluindo produtos básicos, como a carne, da mesa da maioria da população. Esse cenário agravou o descontentamento popular, aproximando demandas sociais das reivindicações políticas.
Segundo o historiador Ricardo Carvalho, “o movimento foi inspirado nos ideais da Revolução Francesa e nas ideias iluministas. Ele foi liderado por militares de baixa patente, artesãos, escravizados, libertos, alfaiates, [daí o nome do movimento] estivadores e trabalhadores do porto. Defendia a independência da Bahia e do Brasil em relação a Portugal”.
Lideranças e objetivos

Diferentemente de outros levantes coloniais, como a Inconfidência Mineira, a Conjuração Baiana combinava pautas sociais e políticas. Seus objetivos incluíam a proclamação de uma república, a abolição da escravidão e a igualdade racial entre todos os cidadãos.
Entre os principais líderes estavam João de Deus do Nascimento, Manuel Faustino dos Santos Lira, Lucas Dantas e Luís Gonzaga das Virgens, todos homens negros, muitos deles alfaiates e soldados. A exceção era Cipriano Barata, intelectual com formação acadêmica que representava setores intermediários da sociedade baiana.
A repressão e o fim da conspiração
Os conspiradores se reuniam em segredo e passaram a produzir panfletos, conhecidos como “pasquins”, que circularam por diferentes pontos de Salvador, conclamando a população à revolta contra o domínio português.
A divulgação dos folhetos chamou a atenção das autoridades. O governador da Bahia, d. Fernando José de Portugal e Castro, ordenou uma investigação rigorosa. A repressão foi rápida e dura: 47 pessoas foram presas e quatro líderes, João de Deus, Manuel Faustino, Lucas Dantas e Luís Gonzaga, foram enforcados e esquartejados em 8 de novembro de 1799. Seus corpos foram expostos em locais públicos como forma de intimidação.
De acordo com o historiador Ricardo Carvalho, “esses ideais, considerados radicais para a época, fizeram com que a repressão fosse duríssima, já que a elite colonial temia perder privilégios”.
Legado
Apesar de não ter ultrapassado a fase conspiratória, a Conjuração Baiana deixou um legado simbólico e político de resistência. Seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade permaneceram vivos e influenciaram debates políticos no Brasil nas décadas seguintes.
Em Salvador, a memória dos líderes está presente em nomes de ruas, praças e murais. O dia 8 de novembro é lembrado como símbolo de luta por igualdade e justiça social.
“O movimento reforçou a imagem de Salvador como cidade de protagonismo popular e resistência negra, um legado que ainda inspira manifestações culturais e políticas da capital baiana até hoje”, concluiu Ricardo Carvalho.
Mais notícias
-
Especial16h56 de 01/04/2026
MP aciona instituições em Salvador por venda casada de materiais escolares; saiba como se proteger
Colégios São José, Bernoulli e Colmeia tornaram-se alvos de ações civis públicas após investigações da Codecon
-
Especial14h14 de 18/03/2026
Repórter do bahia.ba é homenageada pela Câmara de Salvador com Prêmio Mulher Notável
Carolina Papa atua nas editorias de política e entretenimento
-
EspecialEXCLUSIVO16h50 de 13/03/2026
Bahia lidera crescimento do mercado de seguros no Nordeste
De acordo com levantamento, território baiano registrou um crescimento de 12,9% no acumulado dos últimos 12 meses
-
Especial22h00 de 09/03/2026
Patrícia Abreu relembra bastidores da carreira na estreia do Resenha.Ba
Jornalista foi uma das convidadas da primeira edição do novo podcast do bahia.ba
-
Especial21h40 de 09/03/2026
Resenha.Ba estreia no YouTube com debate sobre final do Baianão e projeções para clássico Ba-Vi
Primeira edição do projeto contou com uma bancada diversificada em quase duas horas de pura resenha esportiva
-
Especial06h00 de 05/03/2026
Há 30 anos, Carlinhos Brown unia o ancestral ao global com ‘Alfagamabetizado’
Obra-prima da música brasileira ampliou os horizontes da Bahia ao dialogar com ritmos do mundo
-
Especial17h44 de 02/03/2026
Axé Music 4.0: o gênero que ensinou o Brasil a produzir hits antes do streaming
Gênero que moldou pop nos anos 90 enfrenta desafio de dialogar com novas gerações sem perder identidade
-
Especial19h07 de 24/02/2026
Daniela Mercury está na moda!
A Rainha do Axé é o assunto do momento
-
Especial10h00 de 19/02/2026
Carnaval do bahia.ba supera 50 milhões de visualizações no Instagram
Aposta na folia momesca de Salvador gerou resultados históricos para o bahia.ba nas redes sociais
-
Especial17h48 de 06/02/2026
‘É Terreiro’: Daniela Mercury transforma a Bahia em canto, corpo e resistência
Ancestralidade, força feminina e chão sagrado que sustenta a identidade baiana










