O expressionismo e a religiosidade na obra de Rebouças em ‘Terno das Almas’

    Exposição apresenta a histórica manifestação de fé das moradoras de Igatu, na Chapada Diamantina (BA)

    Fotos: Reprodução/acervo pessoal

    Com um trabalho marcado pelo expressionismo e pela valorização da cultura afro-brasileira, o artista plástico Antônio Carlos Rebouças terá uma de suas obras em exposição na mostra ‘Terno das Almas’, que apresenta a histórica manifestação de fé das moradoras de Igatu, na Chapada Diamantina (BA).

    Para compor a exposição do ME Ateliê da Fotografia, localizado no bairro do Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador, Rebouças escolheu o desenho intitulado “Procissão”, que traz a representação das mulheres durante o evento religioso. 

    O artista pontua que o convite para participar da mostra surgiu por seu trabalho conhecido ao retratar a “Bahia, a linguagem da Bahia e a religiosidade”. 

    “O convite surgiu do curador Reinaldo Giarola, que é um grande fotógrafo. Eu também participei de um livro que editaram em dezembro, com seis obras minhas. A gente já tem uma certa proximidade. E, como sabem que eu desenvolvo muitos trabalhos ligados à Bahia, à linguagem baiana e à religiosidade, que são aspectos muito presentes na minha produção, esse convite acabou acontecendo de forma muito natural. Eu resolvi colocar [na exposição] um desenho representando a procissão, aquelas mulheres de branco com as velas na mão”, relata.

    Rebouças classifica a sua relação com a Chapada Diamantina como algo “paradoxal”. De acordo com o artista plástico, apesar de não ter uma ligação direta com a região, o local apresenta uma carga potente relacionada à diáspora. 

    “As tradições católicas que vinham dos portugueses e da África estão enraizadas em todo o território baiano e na Chapada você tem aquela coisa de almas, de religiosidade, do português trazido pelos portugueses. Eu faço muita arte ligada à história afro-brasileira”, afirma Rebouças. 

    “Na Chapada, no Recôncavo, você tem muita coisa interessante que muitas vezes as pessoas perdem de vista. Porque nós temos um péssimo hábito de copiar sempre o que vem de fora, da Europa e dos Estados. Nós temos uma cultura muito rica e que deve ser bem explorada daqui pra frente. Tem muita coisa boa. E eu gosto disso, eu gosto de estar sempre inserido nesse contexto”, destaca. 

    Com 35 anos de atuação nas artes plásticas, Rebouças chama atenção ainda para a dificuldade enfrentada por artigas negros na área. Ele pontua que a invisibilidade não se limita apenas ao racismo, abordando uma questão cultural mais ampla, que tende a priorizar referências estrangeiras em detrimento da produção local.

    “O artista baiano, principalmente o artista negro, é muito invisível, salvo raras exceções, que são aqueles que já são consagrados. São poucas as pessoas que realmente têm visibilidade. Então é muito difícil para o artista negro aflorar, ser notado, entendeu? Não é só uma questão de racismo, é também algo cultural. Eu me sinto muito privilegiado, mas existe uma invisibilidade muito grande. Infelizmente é a realidade que os artistas encontram”, cravou. 

    Baianos e turistas poderão mergulhar nas histórias, pinturas, fotografias e expressões artísticas da exposição “Terno das Almas” a partir de 28 de março. 

    A mostra segue em cartaz até o dia 26 de abril, com visitação sempre de sexta a domingo, das 16h às 19h.

    [Exposição ‘Terno das Almas’ no ME Ateliê da Fotografia]

    Data da exposição: entre os dias 28 de março e 26 de abril;

    Horários da exposição: de sexta a domingo, das 16h às 19h;

    Local: ME Ateliê da Fotografia, Ladeira do Boqueirão – Santo Antônio, Salvador – BA, 40301-288

    Fotógrafos e artistas plásticos participantes: Acson Barbosa; Ana Kruschewsky; Armando Cr; Cesari Simioni; Dorge Stuart; Gelaryn Shukwit (EUA); Giácomo Mancini; Henrique Muccini; Magali Abreu; Marcelo Edington; Rebouças; Reinaldo Giarola (curador); Ricardo Macedo; Tarciso Albuquerque; Vânia Viana e Vini Chapada.

    Entrada gratuita