Publicado em 18/04/2026 às 17h30.

Paloma Amado analisa papel da literatura contemporânea em um mundo distópico na Bienal 

Em entrevista ao bahia.ba neste sábado (18), filha de Jorge Amado exalta legado do pai e amizade dele com José Saramago

Raquel Franco / João Lucas Dantas
Foto: Reprodução/Redes sociais

 

Para a escritora e ilustradora Paloma Jorge Amado, a literatura contemporânea enfrenta o desafio de narrar um mundo cujas crises superam a imaginação dos autores, já que as obras que tentam prever futuros sombrios perdem o fôlego diante dos fatos. “Tem alguns livros distópicos que são muito bons, mas eles estão sendo defasados pela própria distopia que a gente está vivendo na realidade. Deixa de ser distopia, a nossa realidade está pior”, afirmou Paloma em entrevista exclusiva ao bahia.ba neste sábado (18), antes de subir ao palco da Bienal do Livro Bahia 2026.

Paloma integrou o painel “O Sal da Vida”, realizado no Café Literário do Centro de Convenções de Salvador. Ao lado de Pilar del Río e com mediação de Joselia Aguiar, as participantes da mesa discutiram como o cenário atual, marcado por crises migratórias e fragmentação social, desafia a criação artística. 

“O contemporâneo está muito complexo e estou esperando para ver o que é que isso vai resultar em termos de literatura. Até agora eu não vejo grandes diferenças”, disse ao bahia.ba

A autora demonstrou ceticismo sobre a capacidade da literatura contemporânea em processar as transformações das relações humanas e globais. “Eu tenho muita dificuldade de pensar no mundo como ele está agora. Porque foi tão de repente e foi tão avassalador tudo que aconteceu e que está acontecendo no mundo”, disse, ao relembrar como esse contexto é refletido na emigração de brasileiros rumo à Portugal. 

Paloma relembrou a dificuldade de acolhimento no país europeu. “Portugal não conseguiu absorver essas pessoas, agora faz uma coisa contra os imigrantes. Nós somos colonizados, eles se sentem colonizados, tudo isso é muito complexo”, disse. Entretanto, para ela, o nome de seu pai ainda opera milagres diplomáticos. “Digo com grande alegria que toda vez que eu chego a Portugal e que eu falo o nome de Jorge Amado, eu só vejo alegria dentro dos portugueses”, afirmou.

Amizade entre Amado e Saramago

Como antídoto ao isolamento contemporâneo, Paloma evocou o humanismo que selou a amizade entre seu pai, Jorge Amado, e o Nobel português José Saramago. Ela recordou que a admiração mútua transcendia os livros. 

“Eles admiravam um ao outro como escritores muito pela literatura que faziam. Como a Pilar disse ontem muito bem, uma literatura altamente humanista e portanto atinge uma quantidade imensa de leitores. Eles se identificavam enquanto humanistas, mas era muito mais que isso. Eles eram amigos que se queriam bem, independente da literatura que faziam, independente do que pensavam. Eram muito amigos, viajaram muito juntos por aí, participaram de coisas juntos e foi muito lindo tudo que eles passaram”, afirmou.

Para ela, essa conexão pessoal era o que permitia que ambos escrevessem obras capazes de atingir uma massa de leitores de forma tão profunda.

Diante do atual momento de distanciamento entre Brasil e Portugal, Paloma vê no legado dos dois escritores uma ponte necessária. Ela destacou que o esforço contínuo dela e de Pilar del Río é preservar esse intercâmbio, defendendo o afeto e a literatura como ferramentas essenciais para enfrentar a realidade.

“O que nós podemos fazer é cada vez mais mostrar para os portugueses que Jorge Amado, um brasileiro, amava Portugal e que José Saramago, um português, amava o Brasil”, concluiu Paloma.

Raquel Franco
Natural de Brasília, formou-se em produção em comunicação e cultura e em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Também é fotógrafa formada pelo Labfoto. Foi trainee de jornalismo ambiental na Folha de S.Paulo.

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