Publicado em 19/04/2026 às 11h00.

‘Nosso corpo-território sofre’: Tukumã Pataxó alerta para escalada de violência contra indígenas na Bahia

Pré-candidato a deputado federal pelo PSOL fala ao bahia.ba sobre conflitos de terras e criminalização de caciques

Raquel Franco
Foto: Than Pataxó

 

Neste 19 de abril, Dia Nacional dos Povos Indígenas, o comunicador Tukumã Pataxó alerta acerca da escalada de violência nos conflitos por território na Bahia, principalmente no extremo-sul do estado, de onde é originário. Ele pertence à aldeia Coroa Vermelha, no município de Santa Cruz Cabrália, próximo a Porto Seguro.

Aos 26 anos, o influenciador e ativista indígena é pré-candidato a deputado federal pelo PSOL na corrida eleitoral de 2026. O objetivo dele é fortalecer a bancada do cocar no Congresso Nacional.

“Isso surgiu a partir da juventude do meu povo, das minhas lideranças e da necessidade que temos de estar ocupando esse espaço”, afirma Tukumã.

Em entrevista ao bahia.ba, ao detalhar suas principais motivações para topar o desafio de entrar para a política, Tukumã reconhece a importância da presença da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP) no estado e o fato do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), se autodeclarar indígena. Porém, segundo ele, esses fatores por si só não garantem o cumprimento da lei em relação à segurança das lideranças indígenas e o reconhecimento dos territórios em processo de demarcação. 

“Quando a gente consegue compreender a importância de estar dentro desse espaço por ser uma luta coletiva, não por ser uma luta para a gente, mas para todos os povos, a gente entende isso e assume essas responsabilidades”, diz.

Tukumã relata que, apesar de ter “nascido na luta”, seu pai não o motivou a entrar para o movimento indígena pelos perigos envolvidos na atividade. Apesar disso, ele diz que foi levado a fazer parte da mobilização de uma forma natural. 

Sua atuação como influenciador e criador de vídeos para o YouTube o motivou a atuar no Mídia Indígena, organização que reúne comunicadores de todo o Brasil. Atualmente ele é coordenador de comunicação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), entidade de representação nacional do movimento.

Casado com com Samela Sateré Mawé, do Amazonas, o casal tem um filho, o Wynoã Tukumãí, que completa dois anos em maio. A família reside em Brasília desde 2023, de onde trabalham por meio da organização no acompanhamento, divulgação e cobrança junto a órgãos competentes, como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), das reivindicações dos povos indígenas do país.

Criminalização de lideranças

Em relação aos conflitos envolvendo as disputas de terras no sul da Bahia, Tukumã alega que há uma perseguição e criminalização de lideranças indígenas. Ele cita exemplos como do cacique Suruí Pataxó, da Terra Indígena (TI) Barra Velha do Monte Pascoal, preso duas vezes em um ano dentro do próprio território.

O Presidente do Conselho de Caciques da TI Barra Velha afirmou ao O Joio e o Trigo que foi preso porque denunciou “os coronéis de Porto Seguro”. Outro caso é do cacique Aruã Pataxó, ex-coordenador da Funai e responsável pela demarcação da TI Comexatibá, que cumpre prisão domiciliar. A APIB coordena uma campanha pela liberdade dos caciques

Tukumã também relembra o assassinato da Nega Tupinambá, do povo Pataxó Hã Hã Hãe, alvejada por tiros de arma de fogo no dia 21 de janeiro de 2024. O autor dos disparos, filho de um fazendeiro do sul da Bahia, foi preso em flagrante mas liberado alguns meses depois após pagar fiança. 

“A grande maioria das pessoas que estão lutando contra a gente tem um poder aquisitivo e uma influência política muito forte. Quando somos nós que estamos sofrendo, morrendo dentro do território, a resposta não é tão rápida. Mas quando são eles que solicitam essa resposta, acontece na mesma semana”, diz Tukumã.

Ele denuncia que integrantes do grupo “Invasão Zero”, como fazendeiros, representantes de associações de agricultores e milicianos, são os responsáveis por articular ataques armados em terras indígenas.

“Ou seja, a qualquer momento, qualquer um de nós que estamos à frente desse movimento como lideranças, podemos ser criminalizados, presos ou assassinados.”

Tukumã destaca que, apesar do seu território ter sido o local onde os colonizadores desembarcaram no Brasil, as necessidades dos povos originários da região são negligenciados e a violência só aumenta.

“O estado da Bahia, infelizmente, acaba sendo um dos estados que mais mata e criminaliza lideranças indígenas. Isso é um retrocesso na história do nosso país. Onde deveria ter mais atenção, um olhar mais esperançoso pra gente, é o território que mais vem sofrendo. Estamos há mais de 500 anos resistindo para existir. O que a gente pede é que o nosso direito seja escutado”, afirma.

Força Nacional protege?

Para ele, a presença da Força Nacional no sul da Bahia foi um “passo muito importante para proteção das lideranças e dos territórios”, mas apresenta o contraponto de que o efetivo, composto por bombeiros, policiais civis, militares e peritos, “recebe ordens” que, muitas vezes, são contrárias à preservação da vida dos povos indígenas.

Tukumã diz que existem casos em que a Força Nacional, junto à força do Estado da Bahia, em vez de proteger, colaborou para os ataques às lideranças. O influenciador exemplifica ao citar o caso do tiroteio na Aldeia Kai, localizada no distrito de Comuruxatiba, na cidade de Prado. Segundo ele, apesar da Força Nacional ter uma base na comunidade de onde foi possível ouvir e visualizar os atiradores, os agentes não revidaram e nem tomaram atitudes para identificá-los.

“Precisamos que a Força Nacional realmente proteja da forma que veio para proteger nossos territórios e nossos povos”, afirma. Tukumã complementa ao dizer que o empenho dos agentes para ação e resolução dos conflitos depende de quem está no comando. O último capitão que tinha bom diálogo com os povos e se esforçava para agir em favor dos indígenas foi transferido e quem o substituiu não estabeleceu boa interlocução com as lideranças.

“Acreditamos que isso é uma articulação para que a gente continue nessa insegurança dentro dos territórios”, diz.

Atuação do governo

Na percepção de Tukumã, não é só a Força Nacional que poderia ampliar a atuação em prol dos povos indígenas. Para ele, apesar do governador da Bahia manter uma boa comunicação com as lideranças, dada a posição de responsabilidade e as possibilidades de diálogo que Jerônimo Rodrigues possui, ele poderia fazer mais. As expectativas de Tukumã incluem que o governador cobre mais do governo federal por segurança e demarcação.

“Ainda mais uma pessoa que se diz pertencente aos povos indígenas também. Na campanha muitos desses povos apoiaram ele com corpo e alma. Esse era um dos grandes momentos dele mostrar que realmente apoia os povos indígenas, trazendo a cobrança diretamente ao presidente Lula para demarcação, principalmente os territórios que já estão nesse processo demarcatório mais avançado”, diz Tukumã.

Bancada do cocar

Em ano eleitoral, Tukumã enfatiza que é um período de extrema importância para os povos indígenas do Brasil, que se articulam nacionalmente para ter penetração das suas pautas e candidaturas no Congresso Nacional. Segundo ele, uma das principais medidas aprovadas pela carta final da 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), realizado entre os dias 5 e 11 de abril em Brasília, foi o apoio à reeleição do presidente Lula (PT).

“Ele conseguiu trazer mais demarcação com o Ministério dos Povos Indígenas, diálogo com a Funai e adiantar muitos processos demarcatórios comparado ao último ex-presidente [Jair Bolsonaro (PL)]”, afirma.

Segundo Tukumã, assim como na Bahia, a maioria dos estados têm representantes indígenas nessa corrida eleitoral. Os principais objetivos das candidaturas serão criar meios para pressionar o Estado a avançar nos processos demarcatórios e frear a onda de violência que vitima os povos indígenas.

“Nosso corpo e território vem sofrendo”, desabafa o pré-candidato.

Uma das suas principais referências, a deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG) é a única parlamentar indígena ativa na última legislatura.

“Ela veio assumindo essa responsabilidade, brigando por todos os povos, representando todo o Brasil. Eu tive a oportunidade de acompanhar uma dessas votações. Eu fiquei bastante triste porque os deputados federais, principalmente da direita, falam mal da gente olhando na nossa cara. E a Célia em nenhum momento abaixou a cabeça”, afirma Tukumã. 

Ele relata a profunda tristeza que sentiu ao ouvir o que os parlamentares pensam acerca do seu povo.

“É muito triste saber que a grande maioria é contra os povos indígenas. Não só no Estado da Bahia, isso é no Brasil. Eles não reconhecem que também é um espaço nosso, que esse é um país originário, formado em cima de sangue indígena e grilagem de território indígena.” 

Diante da falta de visibilidade nas esferas de poder e decisão do país, o ativista indígena diz que aceitou disputar a Câmara dos Deputados pelo PSOL ao visualizar a possibilidade de ampliar a atuação em defesa dos povos indígenas em uma sigla que já tem parlamentares originários.

“Então, por que não fortalecer esse partido que traz como significado uma representação de todas as lutas. É isso que precisamos, unir todas essas lutas para que a gente tenha representantes dentro desse espaço”, afirma.

Para Tukumã, as expectativas para as eleições são boas, mas a pré-campanha e as propostas para o mandato serão construídas coletivamente com sua comunidade na Bahia.

“A gente precisa enxergar e compreender essas demandas dentro dos nossos espaços. Quando a gente chegar no chão do território e tiver uma roda de conversa com as lideranças”, diz.

Veja a lista de pré-candidaturas indígenas nas eleições 2026

Câmara dos Deputados

– Sônia Guajajara – PSOL-SP
– Célia Xakriabá – PSOL-MG
– Weibe Tapeba – PT-CE
– Ubirajara Sompré – PSB-PA
– Vanda Witoto – MDB-AM
– Magno Guajajara – PSOL-MA
– Avanilson Karaja – PV-TO
– Alessandra Munduruku – PT-PA
– Marcos Apurinã – REDE-AM
– Yura Marubu – REDE-AM
– Kleber Karipuna – PDT-AP
– Juliana Rodrigues – PT-SP
– Telma Taurepang – PT-RR
– Kerexu – PT-SC
– Tukumã Pataxó – PSOL-BA
– Gleycielli Nonato Guató – PSOL-MS
– Kleudison Wanderley – PV-RR

Assembleias Legislativas

– Ingrid Sateré Mawé – PSOL-SC
– Rosilene Guajajara – PT-MA
– O-é Paiakan Kaiapó – PSD-PA
– Claudia Tikuna – MDB-AM
– Neuriane Munduruku – MDB-AM
– Humberto Kuripaku – REDE-AM
– D Raimunda Kambeba – REDE-AM
– Edilson Paumari – REDE-AM
– Daniela Baré – REDE-AM
– Simone Karipuna – REDE-AP
– Auricelia Arapiun – PSOL-PA
– Cacique Eliara – PT-SC
– Chirley Pankará – PSOL-SP

Raquel Franco
Natural de Brasília, formou-se em produção em comunicação e cultura e em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Também é fotógrafa formada pelo Labfoto. Foi trainee de jornalismo ambiental na Folha de S.Paulo.

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