Publicado em 07/05/2026 às 15h00.

Para além de ‘Dominguinho’, relembre grandes encontros da música brasileira

Dos 'Doces Bárbaros' aos 'Tribalistas', projetos coletivos ajudaram a redefinir os rumos da MPB

João Lucas Dantas
Foto: Divulgação

 

O cenário fonográfico brasileiro contemporâneo testemunhou, entre 2025 e 2026, um fenômeno de revitalização estética e mercadológica através do projeto intitulado Dominguinho, protagonizado pelo cantor pernambucano João Gomes, pelo violonista e intérprete paulista Jota.pê e pelo virtuoso sanfoneiro sergipano Mestrinho.

Com o lançamento de Dominguinho Vol. 2, gravado no Centro Histórico de Salvador e disponibilizado nesta quinta-feira (7), o encontro que resultou em dois álbuns acústicos reafirmou a força dos encontros transversais entre artistas de diferentes trajetórias e nichos musicais.

O sucesso do projeto serve como ponto de partida para revisitar uma tradição histórica da música popular brasileira, os encontros entre artistas de percursos distintos que, ao dividirem discos e palcos, criaram algumas das obras mais importantes da MPB — especialmente no universo da música nordestina.

Abaixo, o bahia.ba relembra alguns dos encontros mais marcantes da história da música brasileira.

O projeto Dominguinho e a síntese de gerações

A gênese de Dominguinho Vol. 1 remonta a uma gravação realizada em abril de 2025 no Sítio Histórico de Olinda, em Pernambuco. O encontro foi marcado por uma informalidade deliberada e pela ausência de ensaios prévios, permitindo que a espontaneidade conduzisse o registro das doze faixas iniciais.

Sob direção musical do trio em parceria com Daniel Mendes e estética visual assinada por Chico Kertész, o projeto buscou uma sonoridade intimista e acolhedora, sustentada pela sanfona de Mestrinho, pelo violão de aço de Jota.pê e pelo violão de Vanutti, além da percussão inventiva de Gilú Amaral.

O sucesso comercial e crítico do primeiro volume foi imediato, culminando na conquista do Grammy Latino de 2025 na categoria Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa.

A capacidade do trio de transitar entre o universo do piseiro e do forró romântico de João Gomes, a sofisticação harmônica da MPB de Jota.pê e a técnica refinada de Mestrinho criou um “estado de espírito” musical que dialogou tanto com o público jovem quanto com ouvintes mais tradicionais.

No segundo volume, o trio manteve a proposta acústica, transferindo o cenário para as ruas do Pelourinho, em Salvador.

O repertório mistura composições inéditas, como “Flor”, de Mestrinho, e “Deusa Minha”, de Jadson Araújo e parceiros, com releituras ousadas, como a versão em reggae de “Pontes Indestrutíveis”, do Charlie Brown Jr., além de sucessos do pop nacional, como “As Quatro Estações”, de Sandy & Junior.

Essa mistura de linguagens sempre foi uma marca dos grandes encontros da música brasileira.

Dominguinhos e Luiz Gonzaga em gravação do Som Brasil (Foto: CEDOC/ TV Globo)

As raízes em Luiz Gonzaga e Dominguinhos

Para compreender as raízes simbólicas do projeto de João Gomes, Jota.pê e Mestrinho, é necessário retornar à relação seminal entre Luiz Gonzaga e Dominguinhos.

O encontro ocorreu em 1948, em Garanhuns (PE), quando Gonzaga descobriu o jovem José Domingos tocando sanfona nas ruas para ajudar no sustento da família. Impressionado com o talento do menino, o Rei do Baião passou a apadrinhá-lo artisticamente e o levou ao Rio de Janeiro alguns anos depois.

Foi Gonzaga quem lhe deu o apelido Dominguinhos e o apresentou ao circuito profissional do forró, consolidando-o como uma espécie de herdeiro musical.

No entanto, a trajetória de Dominguinhos demonstrou como um encontro pode gerar desdobramentos que ultrapassam o próprio mestre.

Enquanto Gonzagão nacionalizou o baião, o xote e o xaxado, Dominguinhos aproximou a sanfona da MPB urbana, incorporando harmonias do jazz e da bossa nova e colaborando com artistas como Gilberto Gil, Gal Costa, Djavan e Chico Buarque.

Essa abertura estética transformou a música nordestina em uma linguagem ainda mais sofisticada e universal.

Alceu Valença, Zé Ramalho, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo
Foto: Reprodução

A explosão da identidade coletiva com “O Grande Encontro”

Talvez o exemplo mais emblemático de um encontro de solistas na música brasileira seja O Grande Encontro, projeto que reuniu Alceu Valença, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho em 1996.

A origem foi quase acidental. Durante um show da turnê Dueto, de Geraldo e Zé Ramalho, no Rio de Janeiro, Elba e Alceu estavam na plateia e acabaram convidados a subir ao palco.

A química imediata chamou a atenção de executivos da indústria fonográfica, que transformaram aquele momento em um dos projetos mais bem-sucedidos da história da música brasileira.

A turnê rendeu a gravação de um álbum ao vivo que vendeu mais de um milhão de cópias e consolidou a reunião de artistas que, desde os anos 1970, vinham reinventando a MPB a partir de uma perspectiva nordestina.

Alceu Valença trouxe a energia carnavalesca de Olinda e a influência psicodélica; Zé Ramalho incorporou a mística sertaneja e o rock; Geraldo Azevedo apresentou o lirismo melódico de suas canções; enquanto Elba Ramalho funcionou como elo interpretativo entre todas essas linguagens.

Mais do que uma reunião de sucessos individuais, O Grande Encontro consolidou uma identidade coletiva da música nordestina moderna.

Raro registro do Pessoal do Ceará reunido
Foto: Reprodução

O ‘Pessoal do Ceará’ e a vanguarda nordestina

Outro encontro decisivo para a modernização da música brasileira foi o coletivo conhecido como Pessoal do Ceará.

No início da década de 1970, artistas como Fagner, Belchior, Ednardo, Amelinha, Rodger Rogério e Teti migraram para o eixo Rio-São Paulo carregando uma sonoridade que fundia folk, rock, psicodelia e referências nordestinas.

O marco desse movimento foi o disco Meu Corpo Minha Embalagem Todo Gasto na Viagem (1973), considerado um dos registros fundamentais da música cearense contemporânea.

Mais do que um grupo formal, o Pessoal do Ceará funcionava como uma rede de colaboração artística e intelectual que discutia estética, política e identidade regional em plena ditadura militar.

Belchior tornou-se um dos principais nomes do movimento após vencer festivais universitários e revolucionar a canção brasileira com letras urbanas e existenciais.

Fagner consolidou uma carreira nacional mantendo parcerias constantes com os conterrâneos. Já Ednardo ampliou essa lógica coletiva anos depois através do movimento Massafeira Livre, que reuniu centenas de artistas em Fortaleza.

Elomar, Geraldo Azevedo, Xangai e Vital Farias
Foto: Reprodução

A música de raiz sofisticada de “Cantoria”

Outro exemplo fundamental de encontro entre solistas foi o projeto Cantoria, que reuniu Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai em 1984.

Gravado ao vivo no Teatro Castro Alves, em Salvador, o disco apresentou a música sertaneja nordestina sob uma ótica sofisticada e profundamente poética.

Elomar trazia a densidade épica do sertão baiano; Geraldo Azevedo, o lirismo melódico; Vital Farias, a crítica social; e Xangai, a tradição oral do violeiro nordestino.

O resultado foi um retrato poderoso da cultura sertaneja brasileira longe dos estereótipos comerciais.

Elis Regina e Tom Jobim
Foto: Roberto de Oliveira/ Divulgação

O potente encontro na Bossa Nova com Elis & Tom

Fora do eixo estritamente nordestino, mas fundamental para qualquer análise sobre colaborações na MPB, está o álbum Elis & Tom (1974).

O encontro entre Elis Regina e Antonio Carlos Jobim, gravado em Los Angeles, tornou-se um dos discos mais importantes da música brasileira.

Apesar do resultado histórico, as gravações foram marcadas por tensões artísticas. Jobim demonstrava desconforto com a modernização estética trazida pelos arranjos de Cesar Camargo Mariano, enquanto Elis exigia intensidade emocional máxima das interpretações.

A mediação do produtor Aloysio de Oliveira foi decisiva para o projeto seguir adiante. O resultado transformou canções como “Águas de Março” em versões definitivas e demonstrou como o atrito criativo pode gerar obras de equilíbrio absoluto.

Gal, Gil, Bethânia e Caetano
Foto: Reprodução

A intensidade baiana dos ‘Doces Bárbaros’ e o lirismo mineiro do ‘Clube da Esquina’

Em 1976, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia se reuniram nos Doces Bárbaros para celebrar dez anos de trajetórias individuais.

O grupo baiano sintetizou o espírito libertário da contracultura brasileira, misturando regionalismo, tropicalismo e experimentalismo pop em uma turnê histórica registrada em disco e documentário.

O projeto também carregou forte dimensão política, especialmente após a prisão de Gilberto Gil durante a turnê em Florianópolis.

No mesmo período, Minas Gerais assistia ao florescimento do Clube da Esquina, talvez a experiência coletiva mais sofisticada da história da música brasileira.

Liderado por Milton Nascimento e Lô Borges, o movimento reuniu músicos como Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso e Nelson Angelo em torno de uma proposta que fundia jazz, rock progressivo, música mineira, MPB e harmonias latino-americanas.

Mais do que um grupo musical, o Clube da Esquina era uma comunidade artística baseada na amizade e na colaboração.

Clube da Esquina
Foto: Reprodução

 

O álbum Clube da Esquina (1972) tornou-se um marco absoluto da música brasileira ao apresentar uma estética profundamente coletiva, onde vozes, arranjos e composições circulavam entre os integrantes sem hierarquia.

Canções como “Tudo que Você Podia Ser”, “Cais”, “Trem Azul” e “Cravo e Canela” revelaram uma nova forma de pensar a canção brasileira, ao mesmo tempo sofisticada, afetiva, experimental e popular.

A influência do grupo atravessa gerações e pode ser percebida em artistas contemporâneos que enxergam o encontro musical como espaço de invenção.

Jorge Ben Jor e Gilberto Gil  Foto: Reprodução

A explosão sonora em Gil & Jorge

Outro encontro fundamental da música brasileira aconteceu em 1975, quando dois ases da música brasileira, Gilberto Gil e Jorge Ben Jor se reuniram para gravar o álbum Gil & Jorge: Ogum, Xangô.

O disco nasceu de uma convivência musical espontânea entre dois artistas já centrais na MPB e acabou se transformando em uma das experiências mais livres e inventivas da história fonográfica brasileira.

Gravado praticamente em clima de improviso, o trabalho fundiu a herança tropicalista de Gil ao samba-rock e à soul music de Jorge Ben Jor em faixas longas e hipnóticas como “Filhos de Gandhi”, “Jurubeba” e “Taj Mahal”.

Hoje, o álbum é visto como uma obra cultuada e um dos encontros mais ousados da música brasileira.

Carlinhos Brown, Marisa Monte e Arnaldo Antunes
Foto: Reprodução

A síntese contemporânea dos Tribalistas

No início dos anos 2000, o projeto Tribalistas, reunindo a cantora Marisa Monte, o ex-Titãs Arnaldo Antunes e o fundador da Timbalada, Carlinhos Brown, demonstrou que a tradição dos grandes encontros seguia viva na era digital.

Com mais de dois milhões de cópias vendidas no Brasil, o trio uniu a percussão inventiva de Brown, o lirismo pop de Marisa e a poesia de Arnaldo Antunes em um dos maiores fenômenos fonográficos da década.

Nascido de encontros criativos entre os três artistas em Salvador, o projeto surgiu de maneira espontânea e rapidamente transformou músicas como “Já Sei Namorar”, “Velha Infância” e “Carnavália” em sucessos nacionais e internacionais.

Mesmo sem investir em grandes aparições televisivas ou turnês naquele primeiro momento, o grupo alcançou enorme repercussão e ajudou a redefinir a MPB dos anos 2000 ao aproximar sonoridades brasileiras tradicionais de uma estética pop contemporânea.

Conclusão

A história da música brasileira demonstra que os grandes encontros entre artistas funcionam como motores permanentes de renovação estética e cultural.

De Luiz Gonzaga e Dominguinhos até João Gomes, Jota.pê e Mestrinho, continuamos encontrando na colaboração uma de suas maiores forças criativas.

O sucesso de Dominguinho Vol. 1 e Vol. 2 reafirma a importância da música nordestina como um dos principais centros de invenção da MPB contemporânea.

Ao unir simplicidade, afeto, virtuosismo e memória coletiva, o projeto mostra que a música brasileira segue sendo escrita em forma de encontros — encontros capazes de atravessar gerações, aproximar diferentes regiões do país e redefinir continuamente os limites da canção popular.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Repórter no portal Bahia Econômica. Atualmente, repórter de Cultura no portal bahia.ba. DRT: 7543/BA

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