Publicado em 12/05/2026 às 14h42.

Bahia é o segundo estado com mais ‘mães solo’ no Brasil

As mulheres negras são a maior parte das líderes de lares monoparentais no estado

Lívia Patrícia
Foto: Reprodução / Pexels

 

A Bahia é o segundo estado do Brasil com mais mães cuidando dos filhos sem a presença de um cônjuge ou outros parentes, sendo responsável por 20,4% da proporção nacional. O estado fica atrás apenas de Sergipe (21,61%) e é seguido pelo Amapá (20,23%).

Os dados do Censo 2022 revelam que esse tipo de configuração familiar passou de 11,6% (em 2000) para 13,5% do total de unidades domésticas no país, totalizando 7,8 milhões de pessoas. Já no caso dos homens sós e com filhos, a monoparentalidade subiu de 1,5% para 2,0% no mesmo período, totalizando 1,2 milhão de homens.

Dentro do panorama estadual, 87,56% dos domicílios monoparentais são liderados por mulheres, correspondendo a 839.142 em números absolutos. Em uma proporção muito menor, os homens são responsáveis por 12,44% dessas famílias, 119.241 em números absolutos.

Pessoas negras – preta e pardas – da Bahia são as que mais chefiam lares monoparentais. O Censo do IBGE contabilizou 520.337 sob a responsabilidade de pessoas pardas, 253.238 sob a responsabilidade de pessoas pretas, e 155.275 sob a responsabilidade de pessoas brancas.

Apesar de o número de mulheres lideres de domicílios monoparentais ser alto em todas as raças apontadas pelo IBGE neste quesito, mulheres negras também seguem tendo os índices mais altos, tanto em números absolutos quanto proporcionalmente. 

A cientista social Maria Joana Uzêda chamou a atenção para a contradição entre mulheres negras serem as chefes e principais responsáveis de família monoparentais e receberem os menores salários. Além disso, o acúmulo de funções dentro de casa, com trabalho doméstico e de cuidados, e nos trabalhos remunerados, fora de casa, acabam gerando uma sobrecarga emocional nessas pessoas, o que impacta tanto na saúde quanto na economia.

As mulheres pardas são as que lideram o ranking, com 457.452 dos lares, 87,91% dos lares monoparentais liderados por pessoas pardas. O grupo é seguido pelas mulheres pretas, com 223.207 dos domicílios, 88,14% dos lares monoparentais pretos, e a lista é finalizada pelas mulheres brancas, 134.832 dos domicílios, 86,83% dos lares monoparentais brancos.

Proporcionalmente, os homens brancos são os que mais chefiam lares monoparentais dentro do seu grupo racial, 13,17% das casas, correspondentes a 20.443. No entanto, em números absolutos, homens pardos tomam a frente: 628.85 lares, correspondentes a 12,09% dentro do seu próprio grupo. Os homens pretos ficam no meio, com 30.031 casas, correspondentes a 11,86% dentro do próprio grupo.

De acordo com Uzêda, o dado reflete um fenômeno que já vinha sendo observado: a reconfiguração da divisão sexual do trabalho reflete na transformação do núcleo familiar; essas mudanças afetam diretamente as mulheres negras. O resultado é influenciado por um conjunto de fatores históricos, como o processo de desestruturação de famílias negras no período colonial e suas consequências, além do abandono afetivo e familiar, disse a cientista social.

Para ela, as políticas governamentais para essas famílias devem levar em consideração aspectos raciais. “É muito importante que a gente olhe isso com atenção. As mulheres estão cada vez mais sobrecarregadas e essa sobrecarga também custa a vida […] o estado não pode ficar alheio a isso”.

Lívia Patrícia
Lívia Patrícia é soteropolitana e atua como repórter de Municípios no bahia.ba. Já atuou na Agência Diadorim, no BP Money, no g1 Bahia e participou da segunda turma do Focas Estadão (Curso Estadão de Jornalismo) de Saúde.

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