Parque urbano na periferia de Salvador foi cenário decisivo da Independência do Brasil

    A região fica entre a Enseada dos Cabritos e o bairro de Pirajá - epicentro do conflito que culminou na expulsão das tropas portuguesas da Bahia em 1823

    A ilustração da batalha de Pirajá integra o livro de Carybé, do autor Bruno Furrer, e pode ser encontrada na Biblioteca da ALBA (Foto: AscomALBA/AgênciaALBA)

    Dentro de Salvador, Parque São Bartolomeu foi cenário de um capítulo essencial para a história do Brasil: a Batalha de Pirajá. O confronto foi parte do processo de independência do Brasil na Bahia, conquista comemorada até os dias de hoje no 2 de Julho

    A região que, desde 1978, constitui o parque fica entre a Enseada dos Cabritos e o bairro de Pirajá, próxima ao Panteão ao General Labatut e a Igreja de São Bartolomeu – epicentro do conflito que culminou na expulsão das tropas portuguesas da Bahia em 1823. 

    O Caminho até a Batalha

    Apesar de o Príncipe-regente D. Pedro I declarar independência em  7 de setembro de 1822, a coroa portuguesa tinha outros planos e nomeou Madeira de Melo como Governador de Armas. As tropas do oficial do Exército Português ocuparam Salvador e a medida fez com que a temperatura política da Bahia subisse. 

    Do lado de cá, D. Pedro I escolheu o General Pierre Labatut – militar veterano das Guerras Napoleônicas – para liderar o exército Pacificador Brasileiro. A ofensiva Portugal, impulsionou a organização de grupos em prol da independência do Brasil e da revolução – a exemplo da Ata de Vereação de 14 de junho de 1822. A partir das Vilas do Recôncavo, nasceu o contra ataque brasileiro

    A principal estratégia dos brasileiros foi obstruir caminhos e impedir o abastecimento das tropas portuguesas; e esse foi o fator que fez estourar a Batalha de Pirajá. 

    Enquanto isso, no Parque São Bartolomeu

    Mesmo antes das batalhas de independência, o espaço que hoje é o Parque São Bartolomeu era marcado por disputas.  

    “Essa área aqui também é muito marcada por batalhas. Por exemplo, 1633, aqui teve o sermão público de Antônio Vieira no Parque São Bartolomeu, porque a Igreja de Pirajá já existia. Então, eles as embarcações vinham, eles desciam por dentro da vegetação e andavam até Pirajá, porque a igreja já tinha sido construída”, comentou Vandson Teixeira, coordenador de eventos do Pq. São Bartolomeu. 

    Os primeiros moradores foram os indígenas tupinambás, povo que habitava todo o litoral brasileiro. Posteriormente, no século 17, foi palco das lutas contra a invasão holandesa. 

    Em 1820, pouco tempo antes das batalhas pela independência do Brasil na Bahia, se formava o Quilombo dos Urubus, liderado por Zeferina. O profissional destaca que esse moradores foram parte essencial do conflito contra as tropas portuguesas. 

    “O Quilombo dos Urubus já existia naquela época. Os pescadores, marisqueiras […] quilombolas; todo mundo, se juntaram para expulsar os portugueses”, explicou. 

    Segundo o que dizem, a Pedra de Xangô (na imagem) ainda guarda marcas de bala de canhão (Foto: Lívia Patrícia/bahia.ba)

    O profissional do espaço também relembrou que, em tempos antigos, o mar cobria parte do Subúrbio Ferroviário de Salvador, fazendo com que o local também fosse peça da guerra no aspecto geográfico, tanto para a passagem de barcos quanto no uso de trilhas dentro da mata.

    Questão ambiental

    Além da relevância histórica, o parque de 75 hectares também possui um legado ambiental, religioso e social. Essa relevância é homenageada na própria Praça de Oxum, um dos pontos de destaque do parque. Nela, é possível ver uma obra assinada por Bel Borba em que cada lâmina representa um orixá e, no centro, está o busto de uma mulher negra. 

    Parque São Bartolomeu atrai pessoas de todas as idades | Portal Conder
    Obra de Bel Borba no Parque S. Bartolomeu (Foto: reprodução/Conder)

    O parque se destaca no aspecto ambiental por ser uma das maiores áreas remanescentes de Mata Atlântica em área urbana do Brasil e parte da área de preservação ambiental da Bacia do Rio do Cobre, espaço que abrange parte do município de Simões Filho. Na vegetação, o local dispões de uma floresta ombrófila densa, pântanos e manguezais. 

    O local é reconhecido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), desde 1995, como importante Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

    A área do Parque São Bartolomeu possui quatro cachoeiras e cascatas principais, incluidas na trilha que pode ser feita por baianos e turistas: a Cachoeira de Oxum, a Cachoeira de Oxumaré, a Cascata de Nanã e a Cachoeira da Barragem do Cobre, remanescente de uma tentativa de usar as águas do rio para abastecer a capital. 

    Segundo Vandson Teixeira, a Cachoeira de Oxum, localizada na Praça de Oxum, é abastecida com as águas do Rio Mané Dendê, que nasce na região de Ilha Amarela; a Cachoeira de Oxumaré, a Cascata de Nanã e a Cachoeira da Barragem do Cobre são abastecidas pelo Rio do Cobre, que nasce na região da da Lagoa da Paixão. 

    Teixeira também citou uma quinta cachoeira dentro do parque que é abastecida pelas águas do Rio Itaguari (no sentido de São Caetano, passando pelo Dique do Cabrito/Alto do Cabrito) e cai dentro do parque. É uma cachoeira à qual não se tem muito acesso. 

    Cascata de Nanã, no Parque S. Bartolomeu (Foto: Lívia Patrícia/bahia.ba)

    O espaço de natureza é utilizado por adeptos de religiões de matriz africana como espaço de fé e ritualísticas. Além disso, a estrutura interna do Parque também serve para que moradores do Subúrbio vão de Plataforma a Pirajá a pé. 

    No Centro de Referência do Parque São Bartolomeu, inaugurado em 4 de outubro de 2014, são oferecidas atividades como trilha, oficinas artísticas, exposições e eventos. O espaço pode ser reservado para eventos de caráter coletivo mediante marcação junto a Conder (Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia).