Publicado em 20/07/2026 às 11h04.

OPINIÃO: A transformação digital como política de justiça social

Presidente da Softex Salvador – InNexa, Antonio Carlos F. Dultra é economista e consultor em Transformação Digital

Antonio Carlos Dultra
Foto: Divulgação

 

Passados seis meses da publicação do artigo, escrito sob a perspectiva de um economista, penso que a tese defendida não apenas permanece válida, como foi reforçada por uma quantidade crescente de evidências produzidas por organismos multilaterais, centros de pesquisa, pela experiência brasileira em governo digital e por minha própria experiência, como consultor em transformação digital no setor público.

Para uma atualização do artigo, eu organizaria as evidências em seis grandes pilares de sustentação da tese. A atualização da tese: transformação digital como instrumento de redução da desigualdade social.

Ao revisitar, em meados de 2026, a reflexão que escrevi em janeiro de 2026 sobre a transformação digital no setor público como instrumento estratégico de redução da desigualdade social, encontro um cenário ainda mais favorável à sua confirmação.
Nesse período, diversos estudos de organismos internacionais, centros de pesquisa e instituições governamentais reforçaram uma percepção que já se consolidava na prática: a transformação digital deixou de ser apenas uma agenda de modernização administrativa para se tornar uma política pública de inclusão social, ampliação de oportunidades e fortalecimento da cidadania.

A primeira evidência vem da Organização das Nações Unidas – ONU. Em seu Relatório Global de Governo Digital, a ONU registrou uma evolução significativa dos níveis de governo digital no mundo, apontando que a parcela da população mundial que vive em países com baixo desenvolvimento digital caiu nos últimos anos de 45% para 22,4%. O estudo associa diretamente a expansão dos serviços digitais à ampliação do acesso a direitos, ao fortalecimento da participação cidadã e ao avanço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS.

A segunda evidência é fornecida pelo Banco Mundial. Em 2026, a instituição reafirmou que as Infraestruturas Públicas Digitais (Digital Public Infrastructure – DPI), especialmente sistemas de identidade digital, pagamentos digitais e compartilhamento seguro de dados, constituem instrumentos fundamentais para ampliar a inclusão econômica, acesso a serviços públicos e oportunidades de desenvolvimento para milhões de pessoas, sobretudo nos países em desenvolvimento.

A terceira evidência surge da experiência brasileira. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) sobre a evolução da plataforma gov.br demonstram que a digitalização dos serviços públicos não apenas aumenta a eficiência estatal, mas também reduz custos de acesso para o cidadão, simplifica processos e amplia a capacidade de atendimento do Estado em regiões historicamente menos assistidas.

A quarta evidência vem da literatura científica. Artigo publicado em 2025 na revista Government Information Quarterly introduz o conceito de digital government inclusion, defendendo que o verdadeiro sucesso da transformação digital deve ser medido pela capacidade de garantir que todos os cidadãos possam participar e se beneficiar dos serviços digitais governamentais. O estudo reforça a relação entre inclusão digital, equidade social e qualidade das políticas públicas.

A quinta evidência vem de estudos recentes sobre conectividade no Brasil, que demonstram que, embora persistam desigualdades de acesso à internet, a expansão da infraestrutura digital e da conectividade móvel continua ampliando o alcance dos serviços públicos digitais. Isso fortalece a premissa de que o smartphone se tornou a principal interface de cidadania para milhões de brasileiros.

Por fim, além das evidências produzidas por organismos internacionais, centros de pesquisa e pela literatura especializada, minha experiência como consultor no setor público permite observar, na prática, os efeitos concretos dessa transformação na vida dos cidadãos baianos. A experiência das plataformas digitais dos governos demonstra como a digitalização dos serviços públicos pode ampliar o alcance do Estado, simplificar o acesso a direitos e reduzir barreiras historicamente impostas pela distância geográfica, pela burocracia e pela desigualdade de renda. Ao concentrar serviços de diferentes áreas em um ambiente digital acessível por computador ou smartphone, a plataforma aproxima o cidadão do poder público, reduz custos de deslocamento, economiza tempo, amplia a transparência e fortalece a relação de confiança entre governo e sociedade.

Em um país de dimensões continentais como a Brasil, marcado por profundas desigualdades territoriais e por municípios com distintas capacidades institucionais, a expansão contínua das plataformas digitais públicas constitui uma evidência concreta de que a transformação digital, quando orientada para o cidadão, é capaz de democratizar o acesso aos serviços públicos e promover inclusão social em larga escala.

Essas evidências reforçam a convicção de que a transformação digital não substitui investimentos em saúde, educação, segurança ou infraestrutura física. Entretanto, ela potencializa essas políticas, reduz custos de implementação, amplia sua escala e democratiza seu alcance.

A conclusão permanece a mesma, porém agora sustentada por um conjunto ainda mais robusto de evidências empíricas: a transformação digital do setor público constitui uma das estratégias mais rápidas, economicamente eficientes e socialmente inclusivas disponíveis para reduzir desigualdades em países marcados por fortes assimetrias territoriais e de renda, como o Brasil.

Com a proximidade das eleições, não tenho dúvidas de que os candidatos serão sábios ao priorizar, em seus planos de governo, a proposta de investimentos expressivos em transformação digital. Lembrando que transformação digital não é apenas inovação tecnológica. É uma política de inclusão. É uma política de cidadania. E, cada vez mais, uma política de justiça social.

Referências bibliográficas
Relatório Global de Governo Digital da ONU – UNITED NATIONS. UN E-Government Survey 2024: Accelerating Digital Transformation for Sustainable Development. New York: United Nations, 2024. Disponível em: publicação oficial da UN DESA – United Nations Department of Economic and Social Affairs.
Banco Mundial – DPI – WORLD BANK. Global Digital Public Infrastructure Program: From Foundations to Scale. Washington, DC: World Bank, 2026. Disponível em: World Bank – Global Digital Public Infrastructure Program.
Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) – MITKIEWICZ, Fernando André Coelho. Transformação digital: análise da implantação da plataforma gov.br e da evolução da maturidade da política de governo digital no Brasil. In: KUBOTA, Luis Claudio (org.). Digitalização e tecnologias da informação e comunicação: oportunidades e desafios para o Brasil. Rio de Janeiro: Instituto IPEA, 2024. cap. 8, p. 255-294.

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