Vandal mergulha na fé e nas raízes de Salvador em novo álbum
Ao bahia.ba, músico conta como uniu rap, samba-reggae e afro-sinfônica em 'VANGUARDAH'

O rapper baiano Vandal retorna com um disco novo após 11 anos da estreia que o consagrou na cena e no Brasil, com VANGUARDAH. Após se tornar um dos nomes essenciais do rap nacional, com TIPOLAZVEGAZH, de 2015, o projeto chega em todas as plataformas digitais nesta quinta-feira (13).
O trabalho é o primeiro de uma trilogia que também contará com os seguintes álbuns: FEZTAH DEH LARGOH e EAUH DEH PARFUMH. Com direção musical de Russo Passapusso, vocal do BaianaSystem, as novas 10 faixas autorais também contam com uma constelação de convidados, tanto nos feats quanto nos instrumentos.
A presença de Russo, amigo das antigas do rapper, também aproximou o maestro Ubiratan Marques, que trouxe com ele a potência da Orquestra Afrosinfônica. Além disso, Josyara, Giovanni Cidreira, Liz Reis, Lívia Nery, SUHHH, Hiran e DJ KL Jay também são presenças garantidas.
A direção artística da identidade visual do álbum ficou sob encargo do próprio Vandal, em parceria com Phodismo.
Para o projeto, foram manufaturadas esculturas do próprio músico, assinadas pelo artista plástico e tatuador Uillian Novaes, além de imagens sacras, conduzidas pela equipe da cerâmica, formada pelo artesão-chefe Francisco Castro, pela artesã-chefe Cristina Cerqueira, responsável também pela pintura dos detalhes, pelo pintor Manuel Castro e pela assistente de pintura Gabriela Castro.
Após estar tudo pronto, os elementos foram fotografados e se tornaram a imagem que seria a capa do projeto.
Para celebrar a chegada do novo álbum, o bahia.ba pôde bater um papo com o rapper, que nos contou mais sobre os bastidores da produção e dos interesses criativos que o conduziram às rimas inéditas. A entrevista completa você confere abaixo:

Foto: PEDRO/ Divulgação
P: O primeiro aspecto que chama a atenção em VANGUARDAH é a capa. Em tempos de domínio de IA, nós vemos não só uma fotografia, como esculturas feitas à mão para ilustrar o momento. E a direção de arte ficou ao seu encargo também. O que você queria comunicar ao escolher o trabalho manual como parte tão importante da identidade do disco?
Vandal: Há um movimento de hoje que é a preguiça. Há a quebra da sensibilidade dentro do que a gente acredita que a arte é. Não só no campo de fotografia, mas no musical, nas artes em geral e nas próprias profissões que circundam a gente no dia a dia, a gente observa esse uso massivo da IA.
Não que eu seja completamente contra, as revoluções acontecem e têm que ser abraçadas, mas o que me incomoda é porque eu venho desse debruçar verdadeiro dentro da arte e vi muitos trabalhos sendo feitos de uma forma absurda. Artistas estão deixando de se doar na arte da composição, um dom divino como este, para estar escrevendo suas letras por ChatGPT.
Eu queria fazer uma ode à manufatura na capa. As pessoas que trabalham com a mão, que ainda suam, que têm essa sensibilidade de fazer com que o que seja passado tenha um caminho, uma história. Essa capa vem da minha infância e adolescência na Cidade Nova, que é o bairro que eu sou oriundo, tinha uma fábrica de gesso, capitaneada por italianos.
As mães de meus amigos trabalhavam nela. Eu sempre via as imagens sendo produzidas, sempre me identifiquei com como saía do gesso e virava aquela imagem de uma forma tão sublime, os tons de dourado, de prata, como a tinta pegava.
Eu não queria que fosse um toy art, nem gerado por uma impressora 3D. A gente já vem com esse projeto há uns três anos, e o Uillian, que é um tatuador amigo meu e escultor, conseguiu tirar essa ideia do papel e fez esse molde. Aí eu cheguei num ponto em que eu precisava levar para um santeiro. Quem fez essa imagem, desenformou, foi um artesão real.
P: Musicalmente, o álbum vai ampliar muito o espectro do seu trabalho. O disco parte do rap, mas incorpora também o samba-reggae, pagodão baiano, música afro-sinfônica e até elementos de outras tradições. Como é que foi encontrar o equilíbrio entre essas linguagens sem que o álbum perdesse aquilo que é essencialmente seu?
Vandal: Esse álbum foi se transformando ao longo dos anos. Eu sempre fui um artista de palco, do bate-pronto. Sou oriundo de festa de largo, emergido do seio do Ministereo Público SoundSystem, então era sobe e se vira. Minha música sempre foi isso, essa urgência.
Dentro desse processo pandêmico, eu acabei me embriando no estúdio, uma experiência que eu ainda não tinha vivência, de estar gravando, levando pra casa, entendendo, evoluindo a própria musicalidade dentro de uma construção de formatar projetos.
Esse foi o momento de me doar à vida e disso saíram três projetos, que é esse primeiro álbum, o FEZTAH DEH LARGOH e EAUH DEH PARFUMH.
Eu quis contrapor essa forma que o trap dominou o circuito de produção, onde tudo é muito urgente. Gravar em cima de um beat, colocar sua voz, mixar, masterizar e ir pra rua, que é válido também.
Eu senti que preciso fazer uma entrega verdadeira, mas que as pessoas entendam que continuo pagando um dízimo para a arte. Uma retribuição que faça com que as pessoas se voltem e digam que é possível, sim, produzir algo honesto e profundo.
Dentro disso, o meu grande parceiro de vida e musical, Russo Passapusso, enquanto escutávamos as guias, percebendo as possibilidades, ele foi maturando isso e dizendo: é possível a gente ter o maestro aqui. Aí surge Ubiratan Marques, que começa a sonhar com a gente dentro disso.
O disco tomou uma proporção absurda, chegou a um nível de profundidade, que passa por essa identidade que o Vandal tem. Eu também tinha a preocupação de não me gentrificar, de não parecer que era mais um pseudo disco conceitual feito por um rapper.
Os MC’s caíram no modal de entregar um beat com um saxofone e um sample de algum nome da música brasileira e colar uma pseudo intelectualidade, profundidade musical e meio que enganar o público com isso. Eu falava muito com o Russo, que eu não queria enganar o público, queria entregar algo.
Assim como foi a parte estética, queria agraciar as pessoas com música real, tocada, queria entender os músicos, queria olhar para os músicos e ver o sentimento deles dentro daquilo.

P: E dentro de todas essas participações, queria destacar uma em especial, que é a colaboração com o KL Jay, uma lenda dos Racionais MC’s, que tem grande aproximação aqui com Salvador também. Está sempre marcando presença com o DJ Raiz e o DJ Leandro Vitrola nas festas ‘Big Shake’. Como é que foi esse encontro para você?
Vandal: Enquanto outros artistas estão ali atrás dos MC’s, eu nunca fui atrás deles. Eu sempre entendi que sempre tiveram esse jogo de ego. Sempre busquei o designer, o DJ, o roadie, o produtor, tudo o que circundava aqueles artistas.
O KL Jay vem de um ponto de cultura que pra mim é extremamente importante pra mim. Eu tive a felicidade de o conhecer e tocar com ele em uma festa em Salvador. E ele sempre me deu um apoio. Ele buscou algo ali pra se comunicar comigo. E eu achei isso muito bom, muito interessante, foi quando eu vi que ele tinha outra mentalidade.
Daí eu fiz uma turnê com ele juntamente com o Leandro e com o Raiz, da Big Shake. A gente passou por Caraíva, por Vitória da Conquista, por Salvador e várias cidades. Tive a oportunidade de estar junto, de ouvir o pensamento dele. E as ideias dele sempre foram, pra mim, diferentes dentro do rap.
Inclusive, essa faixa com ele não é um rap, é um samba-reggae. Eu tinha essa ideia de ter um scratch dentro da ideia do samba-reggae, que eu sempre vi combinando com meu estilo.
Acredito que foi um presente muito absurdo, porque ele levou a música para outro nível e essa faixa também conta com um videoclipe e a gente faz uma homenagem para ele e foi tudo muito natural.
P: Salvador está no álbum não apenas como cenário, mas como matéria-prima. Nos ritmos, na arquitetura, na religiosidade, nas memórias e nas experiências que atravessam a sua trajetória. Depois de tantos anos transformando a cidade em linguagem e música, o que você descobriu sobre sua relação com ela durante a construção de VANGUARDAH?
Vandal: Eu bato nessa tecla da fé em movimento. Eu sou oriundo das festas de largo, então a gente tem em Salvador uma fé que se movimenta de uma forma absurda. E eu precisava me doar a isso.
Nunca tinha conseguido. Eu já tinha nas minhas músicas sempre pontuando a fé, sou devoto de Santa Dulce, sempre estava latente ali, mas eu precisava me entregar para essa fé em movimento de uma forma mais profunda, que é o que se traduz em Salvador.
Você está ali, vai no Pelourinho, observa acontecendo a olho nu. Você vê nas pessoas. A gente fala muito de farmar aura hoje em dia. Em Salvador, a gente farma a fé a todo momento.
De dentro de casa, quando eu saía, que eu tinha minha avó ali, o olhar dela já era me benzendo antes de sair. O “vai com Deus” que sua mãe fala, aquele “te amo”, carregado de sentimento que você percebe no olhar e nas palavras.
Aqui, você passa por um terreiro, aí depois passa por uma igreja, vai observando isso, a gente vê como a cidade é mergulhada em crença. E eu precisava dar esse presente, canalizar todos esses pontos.
Não queria que soasse como algo piegas, como essa “baianidade nagô”, que as pessoas falam, eu não queria que caísse num campo de meme, ou de uma Bahia superficial.
Acredito que o VANGUARDAH é uma trilha sonora dessa fé em movimento da cidade de Salvador.
P: E falando sobre fé, claro que você escolheu lançar o álbum dia 13 de agosto, dia dedicado à Santa Dulce dos Pobres. Como é que essa relação com sua devoção ao Anjo Bom da Bahia atravessou o processo de criação?
Vandal: Eu tenho a minha imagem da Santa Dulce, que eu viajo, levo pros shows, rezo com ela, agradeço, ela tá no palco, no avião, sempre em minhas mãos.
É uma fé que vem da minha avó e isso meio que vai estar em todos os meus discos, não tem como desvincular de mim. Tive esse processo ali onde eu a perdi e ela foi agraciada de ter os últimos dias dentro das Obras Sociais Irmã Dulce, no Hospital Santo Antônio, eu pude viver aquilo, pude ver, ouvir as histórias sobre ela.
Foi muito natural a forma que esse mergulho conseguiu ir adentrando nas minhas músicas de uma forma muito sincera.
O Russo me fala muito que a música é Deus, a deusa música. E elas vêm muito para mim. Às vezes vou dormir e eu sonho com uma letra. Aí eu acordo na madrugada e escrevo. Acredito que muito do que eu fiz e do que eu venho fazendo vem também por esse abraço dela.
Eu costumo dizer que a obra de Irmã Dulce é um milagre palpável, a obra está ali, é vivo, e agora eu consigo materializar essa fé que eu tenho dentro da música de uma forma muito singela.
A minha música, ela foi banhada por essa fé em Santa Dulce e isso é o principal. Primeiramente vivenciei isso tudo e acredito que ela também foi me ofertando essa calmaria no coração que eu precisava para escrever.
No momento que eu fui produzindo o VANGUARDAH, meu coração foi preenchido de uma paz tão grande que isso desembocou em outros dois discos, mas de uma forma que eu nunca pensei que eu ia trabalhar na minha vida.
Eu estou vivendo uma paz na minha vida que eu acredito que é dada por ela. Para que eu consiga ofertar isso para todos vocês.

P: Esse novo disco chega 11 anos depois do TIPOLAZVEGAZH. O que é que você sente e conseguiu dizer agora em VANGUARDAH que talvez não estivesse preparado para dizer 10 anos atrás?
Vandal: Os artistas, quando eles conseguem alguns benefícios, principalmente financeiros, eles começam a ficar preguiçosos. As obras decaem. Tem uma gíria que as pessoas usam, “eu queria ver MC fulano do Antigo Testamento”. O artista que ele conheceu.
O que eu fico tranquilo nisso é que as pessoas nunca vão olhar pra mim e vai dizer que eu queria o “Vandal do Antigo Testamento”.
Essa linha de tempo de vida que eu tenho e a forma que eu escrevo, como as músicas vêm até mim, como escolho os instrumentais, que eu me banho musicalmente, a forma que eu vejo esse perfil estético de entregar os projetos, ela continua sendo o Vandal.
Eu não saio de cena, eu sempre estou ali, não tenho essa preguiça, não entrego minhas coisas a uma agência de publicidade para produzir. Estou no front. Estava lá, indo em Valéria na fábrica com o coração aberto, preenchido, suando junto, vendo as estátuas sendo feitas.
Estava lá, nas gravações, ouvindo, vendo as cordas sendo gravadas, os corais, as amigas maravilhosas da Afro-Sinfônica entregando as vozes, tava lá com o Thiago, a gente amanhecendo e madrugando vendo a confecção dos beats.
Não tem muita diferença do Vandal do LAZVEGAZH pra esse, principalmente na caneta. Não tenho essa coisa, porque escrevo diferente, não tenho essas preocupações dos outros de ter que soar como um artista norte-americano, de ter que usar os adlibs, principalmente no rap de um MC norte-americano ou do trap, ou do boom-bap ou do grime, do drill, etc.
Eu sempre me preocupei só com uma coisa: em que quando você ouvisse a música, te direcionasse para o Vandal. Quando você ouviu o LAZVEGAZH, você pensou, “pô, é o Vandal”. Quando vocês ouvirem o VANGUARDAH, vão dizer: é o Vandal. Não tem como confundir com outro artista.
A diferença da caneta é que agora eu acredito que tenho mais fé na vida do que eu tinha há 10 anos. No novo álbum, eu abri meu coração de uma forma mais simples. No VANGUARDAH, estou mais tranquilo, com essa paz que me foi dada por Santa Dulce.
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