Fim do Centro de Convenções transforma em pó história recente do Brasil

    Congresso de reconstrução da UNE, em 1979, é um dos momentos históricos que marcou a existência do equipamento

    Ainda sem data marcada, mas já dada como certa, a demolição do Centro de Convenções da Bahia vai transformar em pó pelo menos uma das páginas mais memoráveis da história recente do país. Foi ali, sob as asas (ou seriam garras?) do então todo poderoso governador Antonio Carlos Magalhães, que lideranças estudantis das mais variadas colorações políticas realizaram, nos dias 29 e 30 de maio de 1979, o inesquecível XXXI Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) –  evento que marcava a reconstrução da entidade, então destroçada pela ditadura.

    A cessão do espaço foi precedida de situações pitorescas. Uma delas, retratada pela professora Angelica Müller em sua tese de dissertação para obtenção do grau de doutora em Sociologia pela Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP). Intitulado “No caminho à democracia: o Congresso de Reconstrução da União Nacional dos Estudantes (1979)”, o trabalho registra as tratativas entre o então governador biônico Antonio Carlos Magalhães e produtor cultural Ruy Cezar (1956-2013), encarregado de organizar o megaevento estudantil em Salvador. À época, Ruy era nada mais nada menos que o presidente do Diretório Central de Estudantes da Ufba e não tinha como fugir à incumbência.

    No relato, Ruy conta que foi pessoalmente pedir a ACM autorização para usar o Centro de Convenções, que estava em fase final de construção. “(…) Ele me recebeu com a gravata vermelha e disse assim: ‘Olha, vim de gravata vermelha pra mostrar que eu estou em paz’. Ou seja, era como se dissesse: estou recebendo os comunistas”. Ao final de três reuniões, o governador cedeu o espaço, o que não deixava de configurar um paradoxo, na medida em que Antonio Carlos Magalhães era a representação viva do mesmo regime que havia decretado o fechamento da entidade estudantil.