‘Um Casamento’: uma mulher de personalidade forte em terra de coronéis

    Mônica Simões - que faz sua estreia no comando de longas -, assina a direção da história do casamento de seus pais, a atriz e jornalista Maria Moniz e o professor de filosofia Ruy Simões

    Foto: Divulgação

    Um casamento aconteceu na década de 50, em Salvador, Bahia. Simões e Moniz são os sobrenomes em questão. Ou seja, há história – e muita-, para contar. Exibido no sábado (12) no Panorama Internacional Coisa de Cinema, o filme vai muito além do que o título sugere.

    Mônica Simões – que faz sua estreia no comando de longas -, assina a direção da história do casamento de seus pais, a atriz e jornalista Maria Moniz e o professor de filosofia Ruy Simões (1923-1996). A narrativa é construída sobre o confronto de memórias: a subjetiva, contada pela personagem principal e a objetiva, apresentada através de filmes caseiros, fotografias e a mansão da família no Boulevard Suisso, em Nazaré.

    A exibição do vídeo do casamento do casal, em ruínas, antecipa o desenrolar da união – apesar do tom romântico trazido à tona. “Eu tinha exatamente treze anos, estava sentada aqui nessa varanda e veio chegando essa figura. Eu disse brincando pras minhas amigas: aquele ali é meu marido”, conta Maria à Mônica, que conduz os depoimentos e faz a narração do doc.

    A preocupação da diretora com a edição e o resultado final da obra, fez com que esta pecasse, em certo ponto, na qualidade das entrevistas. Perguntas como “o que você sente olhando isso?” ou “me diga o que você de tal coisa, minha mãe” interferiram e atrapalharam o desenrolar da história. Mas nada muito drástico: a personagem compensa tudo. Assim como a trilha sonora de Luisão Pereira.

    Sempre deixando claro a forte relação da família com a imagem, o filme conta ainda com outras duas gerações dos Moniz: a filha Carolina Câmara assina o Still e a neta Maria Alice Terra o Still adicional. Já a montagem ficou por conta da excelente Jordana Berg, conhecida por seus trabalhos nos filmes de Eduardo Coutinho.

    O casamento chega ao fim apenas seis anos depois. O motivo? A personalidade libertária de Maria e o conservadorismo de Ruy. “Eu era uma espécie de ovelha negra. Desde criança eu pensava em ser a dançarina do cavalo do circo, sair em caravanas de ciganos. O casamento nunca foi, na minha vida, o objetivo”, diz. Numa época em que a mulher deveria viver para o marido, ela vivia rodeada de amigos gays, intelectuais e artistas. Queria ser atriz, Ruy não deixou. Queria ser jornalista, Ruy atirou a sua máquina de escrever escada à baixo. Solução: separou-se. “Eu fiquei grávida, mas eu queria ser mãe solteira”, explica a atriz de “O Caipora”, de Oscar Santana.

    “Um Casamento” é um documento sobre a sociedade baiana dos anos 50 e seu provincianismo – que não parece tão distante assim. “A Bahia  tomava conta de todo mundo. Telefonavam pra minha mãe até pra perguntar por que eu só estava usando preto. A Bahia de outrora era bizarra”, conta Maria. Experimenta fazer algo do tipo nos tempos de hoje. Aposto que o telefone já começou a chamar.