A obsessão por porcentagem vista nas músicas sertanejas como “Aquele 1%”, de Wesley Safadão, “10%”, de Maiara e Maraísa, e “100% Louco”, da dupla Thaeme & Thiago, chegou ao serviço de streaming. Fazendo um mix atrasado das referências literárias de “Admirável Mundo Novo” (1932), de Aldous Huxley, e “1984” (1949), de George Orwell, e da cinematográfica mais recente, com os filmes Jogos Vorazes (2012), Elysium (2013) e Divergente (2014), surge a primeira série brasileira da Netflix, “3%”.
Baseada em uma websérie homônima exibida no YouTube em 2011 – talvez se fosse lançada nesta época fizesse mais sentido –, temos um mundo pós-apocalíptico. A premissa é a mesma de “Aventure Time”, do Cartoon Network. O desenho, assim como a série, não explica como se deu a devastação. A animação, por sua vez, não precisa provar nada para os espectadores e funciona. Já o seriado…
Criada por Pedro Aguilera e dirigida por César Charlone, Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema, o enredo se passa em um lugar não especificado do Brasil, onde a maior parte da população sobrevivente mora no “Continente”, um lugar miserável onde falta tudo: água, comida, energia e outros recursos. Aos 20 anos de idade, todo cidadão tem direito de participar do Processo, uma seleção que oferece a única chance de passar para o “Maralto”, onde há oportunidades de uma vida digna. Somente 3% dos candidatos são aprovados na peneira, que testa os limites dos participantes em provas físicas e psicológicas – provas estas que apresentam uma dificuldade digna dos programas de auditório de Celso Portiolli ou do Programa da Eliana, quando era infantil.
Os efeitos especiais que mostram uma visão aérea das locações podem ser facilmente comparadas com os cenários de “Bambuluá”, programa infantil comandando por Angélica na Rede Globo, no início dos anos 2000. O orçamento de R$ 10 milhões talvez tenha sido o motivo da restrição, mas faz com que a série nunca consiga sustentar a própria premissa. Não há, visualmente, o que justifique o desejo tamanho de passar de um lugar para o outro. Aí aparece um dos maiores equívocos da narrativa, que tenta explicar tudo nas falas das personagens que, literalmente, ditam todas as suas ações e esclarecimentos. Seria infinitamente melhor mostrar, não falar. A verba apertada da série também afetou os figurinos utilizados na “favela”, que são amadores como os de uma peça teatral de escola. Detalhe para os personagens mais pobres com o rosto sujo de graxa, roupas rasgadas e cheias de retalhos.

A direção de atores é outro ponto crítico da obra. A artificialidade dos diálogos atinge até artistas extremamente competentes como João Miguel, Zezé Motta e Sérgio Mamberti. A fraqueza do roteiro, no entanto, não apaga o brilho dos novatos Bianca Comparato, Michel Gomes (que estrelou, quando criança, “Cidade de Deus” e “Última Parada 174”), Vaneza Oliveira e Rodolfo Valente, que se mantêm firmes diante do desastre narrativo a que foram submetidos. Com exceção destes, os demais atores que participam do Processo parecem ter saído de um cemitério da “Malhação”.
A série busca fazer um comentário político acerca das desigualdades sociais. Uma divergência que o grupo “As Meninas”, no clássico “Xibom Bombom”, conseguiu explicar melhor com o trecho “o motivo todo mundo já conhece: é que o de cima sobe e o de baixo desce”. As críticas feitas na trama são rasas e há diversas decisões, tanto no enredo quanto nos personagens, que não fazem sentido quando analisadas a fundo. Qual a lógica dos testes que determinam se uma pessoa tem ou não mérito para viver no lado bom? Não há.
“Você é responsável pelo seu próprio mérito”, diz repetidas vezes a personagem de João Miguel. Em 3%, o mérito cabe ao espectador que conseguir chegar até o final do primeiro episódio sem ter morrido de vergonha alheia. Assista por sua conta e risco.

