Que é isso, doutor? Congresso perdeu a vergonha na busca de garantir impunidade?

    O projeto aprovado a toque de caixa na Câmara foi para o Senado e, lá, o presidente Renan Calheiros (PMDB-AL) também quis dar o mesmo pique, aprovar rápido e caceteiro

    Frase da vez

    “A prática nefasta de compra de parlamentares é crime para o qual não se há possibilidade de que seja cometido sem entendimento entre pessoas e grupos porque o dinheiro não nasce em árvores, não se colhe dinheiro em árvores

    Joaquim Barbosa, ex-presidente do STF (1954)

    Foto: Valter Campanato/Agência Brasil.
    Foto: Valter Campanato/Agência Brasil.

     

    Já que perguntar não ofende, será que uma Câmara que tem 27 deputados já denunciados na Lava Jato e um Senado que tem 10 senadores idem, idem, sem contar os que entrarão a partir de outras delações, como a da Odebrecht, têm moral para discutir, votar e aprovar uma lei em favor da moralidade?

    Ao propor as 10 Medidas contra a Corrupção, o Ministério Público Federal achou que sim, talvez embalado pela própria desmoralização que a classe política enfrenta. E acabou botando raposa para tomar conta de galinheiro.

    A Câmara tentou anistiar o caixa 2. Por grande maioria, chegou a aprovar. O barulho dos derrotados foi tanto que teve de recuar. Mas desfigurou o projeto impondo abuso de autoridade para integrantes do MP que abram investigações “sem indícios mínimos de ilícitos” e punição para juízes que emitam opiniões.

    Óbvio que nada impede a discussão sobre abusos de autoridade do MP, juízes e afins, mas os procuradores entenderam como retaliação para enfraquecer o MP (e parece mesmo) e ameaçam deixar a Lava Jato, caso a lei seja aprovada.

    Curioso: o autor da emenda que permite a punição de promotores que abram investigação “sem indícios mínimos” de ilícitos é Weverton Rocha (PDT-MA), acusado de corrupção, desvio de verbas e afins.

    O projeto aprovado a toque de caixa na Câmara foi para o Senado e, lá, o presidente Renan Calheiros (PMDB-AL) também quis dar o mesmo pique, aprovar rápido e caceteiro. Sem sucesso.

    Vá lá que o MP também não pode pretender impor o texto como bem quer, validando provas ilícitas e criando o “informante do bem”. Mas calculou mal em submeter o texto a um Congresso comprometido. É o feitiço contra o feiticeiro.

    E o Congresso, por seu turno, altamente contaminado por corruptos, mostra ao país que perdeu a vergonha de vez.

    É uma página triste na história do Brasil. Aqueles que deveriam representar o povo estão lá representando apenas os seus interesses escusos.

    Votos baianos

    Na Câmara, dos 39 deputados baianos, só cinco votaram contra o projeto da forma que está: Antônio Brito (PSD), Antônio Imbassahy (PSDB), Bebeto (PSB), João Gualberto (PSDB) e Jutahy Júnior (PSDB).

    No Senado, a favor ou contra a urgência, os três baianos se omitiram.