‘É Apenas o Fim do Mundo’: Dolan mantém frescor em 6º longa

    Na trama, um premiado escritor retorna para casa, depois de doze anos sem contato com a família, para anunciar sua morte iminente

    O sexto longa dirigido pelo canadense Xavier Dolan, de apenas 27 anos, é controverso desde sua primeira exibição em Cannes, no mês de maio. Apesar de ter sido recebido com vaias por críticos e jornalistas, acabou levando para casa o prêmio do júri de Melhor Filme do Festival. A verdade é que “É Apenas o Fim do Mundo” não é fácil. Mas, de maneira alguma, significa que seja uma obra ruim.

    Na trama, Louis (Ulliel), um premiado escritor, retorna para casa depois de doze anos sem contato com a família. A visita é calculada e tem um fim específico: anunciar sua morte iminente. O conjunto formado pela tensão de dar uma notícia importante a um grupo de conhecidos-desconhecidos e o desconforto de revê-los, soa como uma premissa acessível, só que o olhar do jovem diretor consegue fazer com que o simplório ganhe um brilho extraordinário.

    Boa parte do mérito se deve ao roteiro do longa, uma adaptação de Dolan da peça homônima de Jean-Luc Lagarce. A transposição mantém-se fiel ao texto afiado e ferino do dramaturgo, sem sofrer baixas na troca dos meios. Talvez por abordar temas com os quais o franco-canadense se sente à vontade e retrata com maestria: sexualidade, questões de gênero e, acima de tudo, problemas familiares –  especialmente aqueles relacionados à relação mãe e filho.

    Dolan vai além e não se prende à atmosfera teatral que a composição sugere –  e que seria a atitude mais confortável a tomar. Ele também não fica sob a sombra do excelente “Mommy”, de 2014. Tudo isso graças a uma direção de fotografia inspiradíssima, que opera milagres: o filme é rodado, praticamente, em uma casa, tendo como mudança de cenário somente os diferentes cômodos do imóvel. A câmera do diretor está sempre nos rostos dos personagens num plano fechado –  com destaque para os olhos e a boca –  e todos os takes passam a impressão de que foram pensados nos mínimos detalhes.

     

    Foto: Divulgação
    Foto: Divulgação

     

    O filme é construído em conversas separadas do protagonista com cada um dos seus familiares, como um ensaio para dar-lhes a notícia final. E todas as cenas individuais funcionam muito bem, como não poderia deixar de ser: o elenco é um espetáculo à parte. Gaspar Ulliel, Nathalie Baye, Vincent Cassel, Marion Cotillard e Léa Seydoux. Dolan tinha nas mãos a nata do novo cinema francês em um longa onde a força reside em suas personagens. Aproveitou bem, mas a sensação ao fim da obra é de que ele poderia ter aproveitado melhor.

    Ulliel é o protagonista ensimesmado, Seydoux a irmã caçula que não conviveu com ele e conhece apenas o que lhe foi dito por terceiros, Baye é a mãe que o idolatra cegamente, Cassel o irmão mais velho explosivo que vive sob sua sombra e Cotillard a esposa deste último, que, de tão reprimida por ele, mal consegue se comunicar. Uma cena dos cinco juntos, carregada emocionalmente, é o que faz falta e compromete o desfecho da história irremediavelmente –  mas não a obra por completo, vale ressaltar.

    O excesso de estilo faz com que este seja um filme 8 ou 80. Mas, insisto, “É Apenas o Fim do Mundo” é o cinema em sua origem, como não se vê todo dia.