Portal reúne entrevistas raras sobre a cultura afro-brasileira

    Nós Transatlânticos reúne as vozes de Vivaldo da Costa Lima, Márcio Victor, Makota Valdina, Mãe Stella, Juarez Paraíso etc.

    Foto: Reprodução

    As intrincadas tramas da cultura afro-brasileira, dissecadas por quem a vive e estuda por dentro. É o que propõe o portal Nós Transatlânticos, que reúne depoimentos novos e antigos de grandes nomes como a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, o carnavalesco Vovô do Ilê, o historiador João Reis, a artista plástica Goya Lopes, o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, o sambista Riachão, o coreógrafo Zebrinha, o historiador Muniz Sodré, entre tantos outros, em entrevistas de, em média, 20 minutos, onde, através de suas trajetórias pessoais e/ou objetos de estudo/atuação, a história do país se vai refazendo a partir da perspectiva da diáspora africana.

    “A gente observava que os blocos de elite só tinham brancos. Quando resolvemos fazer um bloco só de negão, pela primeira vez usamos o termo ‘afro’, um bloco afro. E eu só queria que o bloco se chamasse Poder Negro, por causa da questão americana, os Panteras Negras, Black Power…, eu era muito invocado com isso. Mas aí Seu Arquimedes, da Federação, um militar aposentado, me chamou e disse: “Não bote esse nome não, que vai dar problema”, diz Vovô, recordando a fundação do primeiro Bloco Afro do país. E continua: “Aí surgiram cinco nomes: Ilê Aiyê, que eu não queria, e outros (…), mas aí o pessoal começou a votar em Ilê Aiyê. E tem a ver mesmo: Mundo Negro”.

    Na apresentação do site, o Nós Transatlânticos se auto classifica como “uma biblioteca eletrônica viva, pulsante, em permanente processo de atualização, que reúne depoimentos audiovisuais de protagonistas icônicos da cultura afro-brasileira, assim como registros documentais e iconográficos sobre o rico legado africano no Brasil e na Bahia”. O título do portal faz referência à travessia marítima, forçada, feita pelos africanos em Navios Negreiros. Africanos estes que se tornaram uma base do Brasil, de nós. Nós e nós: atos e atados.

    Em seu depoimento, o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, falecido em 2010, fala sobre a fundação do terreiro Ilê Maroiá Laji (o famoso Alaketu), citando uma declaração de Olga Francisca Régis, ialorixá que comandou a casa por 57 anos: “Esses 350 anos [de fundação da casa] que ela diz, é um mito. Mas um mito que, do ponto de vista histórico, é permitido, porque não se sabe… Não pode ser 350 anos, porque há 350 anos não havia nagôs aqui. Mas 350 é um símbolo da antiguidade. Se você for ver, a casa é do fim do século 17”, diz.

    Dadas as lacunas da história afro-brasileira que ainda vigem nos currículos oficiais, o site Nós Transatlânticos apresenta grande utilidade no conhecimento do país, uma ferramenta indispensável para reflexões sinceras que se pretendam fazer sobre nós, sobre o Brasil. Veja abaixo a entrevista com a Ebomi Cidália: