Partido deixar de prestar contas é uma indecência premiada? Parece

    O projeto que alguém está querendo aprovar na Câmara propõe que, se a prestação não bater, tudo fique como está

    Frase da vez

    “Um partido de pobres nunca ganharia uma eleição, porque os pobres não têm nada para prometer. Quem faz promessas são os ricos ou, mais exatamente, é o poder”

    José  Saramago, escritor português (1922-2010)

    Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil
    Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

     

    Veja você. O povo brasileiro já paga a fabulosa quantia de R$ 869 milhões por ano para sustentar os nossos partidos políticos. São 35 legalizados hoje, além de uma enorme fila de mais de 20 querendo um pedaço do bolo. Um partido que nasce agora, não elegeu um único vereador ou não teve um único voto, já estreia nas tetas públicas ganhando pouco mais de R$ 1 milhão por ano.

    O modelo em si já é altamente discutível. Virou meio de vida para muitos, que fundam partidos para ficar mamando e, adiante, vendendo seu quinhão no horário eleitoral ou até mesmo a legenda para alguns se candidatarem.

    Agora, aparece a cereja do bolo: alguém está querendo aprovar na Câmara um projeto que isenta os partidos da prestação de contas. Ou melhor: hoje a lei dita que, se houver algo errado, eles podem até perder o registro. O projeto propõe que, se a prestação não bater, tudo fique como está.

    Diz o ministro Gilmar Mendes, presidente do TSE, que seria a consagração da impunidade. Talvez seja um pouco mais. A consagração da própria imoralidade.

    Modelo perverso

    O modelo vigente traz embutido outros ingredientes altamente nocivos ao interesse público:

    1 — O presidente da República, seja ele quem for, fica refém dos interesses de tantos partidos. Daí resulta que o Brasil nomeia tantos ministros só pensando em quem o indicou. É a principal rota da corrupção.

    2 — Desse jeito, o modelo político institui uma poderosa rota de corrupção. Cada um pensando em si e o interesse público que se dane. É por isso que o Brasil está apodrecendo com o vertiginoso crescimento da violência e a representação política, que deveria cuidar, nem tchum.